Brasil

A confusa herança dos votos de Joaquim Barbosa


Partidos e especialistas divergem sobre os 10% de intenção que beneficiavam o ex-presidente do Supremo, que desistiu de concorrer


  Por João Batista Natali 09 de Maio de 2018 às 14:55

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


A campanha presidencial de 2018 pode entrar para a história política como a das desistências que geraram mais incertezas do que prognósticos fechados.

Luciano Huck, ao reiterar no início de maio que não seria mais candidato, alertou o PSDB para os benefícios potenciais da candidatura Geraldo Alckmin. Mas as pesquisas seguintes demonstraram o prosseguimento da magreza das intenções de voto dele.

João Doria foi um efêmero candidato presidencial tucano. Mas sua popularidade ruiu em São Paulo, cidade da qual era prefeito, e ele escolheu o voo mais realista da disputa do governo paulista.

Chegou a hora de Joaquim Barbosa, que nesta terça-feira (8/05) tuitou que não concorreria ao Planalto.

Os demais candidatos se movimentaram para se alimentar de um butim que, segundo o Datafolha, seria de até 10% dos votos.

Mas esse enredo provoca por enquanto mais dúvidas que certezas. As opiniões atiram em alvos espalhados por todo o espectro eleitoral.

Até o deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ) entrou na caça às intenções, ao se declarar ao site Poder360 como herdeiro dos votos do ex-ministro do STF. “O eleitor dele é parecido com o meu.”

Não é bem assim, e o próprio Bolsonaro sabe disso. Mauro Paulino, diretor do Datafolha, disse nesta quarta-feira (9/05) que o eleitor de Joaquim Barbosa tinha boa renda familiar, alta escolaridade e um grau elevado de informação sobre a política.

Esse perfil pode favorecer uma miríade de concorrentes. A começar pelo próprio Alckmin, que, segundo Rodrigo Maia (DEM-RJ), ele próprio candidato à Presidência, seria agora o maior beneficiado.

NOVOS PASSOS PARA O PSB

Há nessa previsão um componente ligado às opções que se abriram ao PSB, partido ao qual Joaquim Barbosa se filiou em 7 de abril e que, por meio dele, enxergava a mosca azul do poder.

O fato é que o partido nunca foi um exemplo de coesão dentro das esquerdas. Em abril de 2916, quando a Câmara dos Deputados votou o impeachment de Dilma Rousseff, só três deputados votaram com a ex-presidente, e 28 se pronunciaram para afastá-la.

É uma das razões pelas quais parece irrealista a ideia que circula dentro do PT de que o partido de Barbosa apoiará o nome que for indicado pelo ex-presidente Lula.

Mas existe uma outra lógica que corre em paralelo. Com a necessidade de buscar um cabeça de chapa de peso para ancorar as intenções de votos de deputados federais, é provável que no Nordeste os candidatos do PSB se agarrem à corda de salvação que está sendo lançada pelo candidato Ciro Gomes (PDT).

No Centro-Oeste e no Sul, no entanto, a lógica é outra. Um dos nomes fortes do PSB nessas regiões é o de Márcio França, que era vice de Alckmin e que exerce o mandato-tampão de governador de São Paulo, e apoia o presidenciável tucano.

DE OLHO EM MARINA SILVA

O maior problema, no entanto, está no fato de Joaquim Barbosa não ter tido tempo para se deixar associar à imagem do PSB.

Com isso, os eleitores que simpatizavam com ele buscavam outros valores que não estavam necessariamente associados a esse partido.

Em 2014 o candidato presidencial pessebista foi Eduardo Campos, que morreu em acidente aéreo em Santos (SP). Sua então vice, Marina Silva, tornou-se cabeça de chapa e chegou no primeiro turno em terceiro lugar.

Ela poderia se manter na dianteira de Dilma e do tucano Aécio Neves se não fosse pela hedionda campanha da propaganda eleitoral do PT, que a acusou de defender os interesses de banqueiros e fazer a comida sumir dos pratos dos pobres.

Agora Marina, que conseguiu oficializar a Rede, seu pequeno partido, acena para o PSB e procura repetir a receita da última campanha presidencial.

Não está evidente, no entanto, que esse objetivo seja alcançado. Marina será apenas um bom nome para os dirigentes do PSB que considerarem a candidatura dela eleitoralmente viável.

O maior trunfo de Marina está no fato de, por seus longos e propositais silêncios, ela não estar envolvida nas maiores controvérsias semeadas pelo governo Temer (teto de gastos, reforma da Previdência).

Essa discrição teve dois efeitos. Se de um lado sua imagem não se deixou chamuscar por temas delicados, de outro lado é menor o recall dela e, também por isso, sua candidatura entre as maiores preferências eleitorais.

Marina também não se juntou ao grupo de partidos satelizados pelo PT que hoje perdem o fôlego com a campanha pela libertação do ex-presidente Lula.

A candidata da Rede tampouco caiu na armadilha de considerar Lula, de quem foi ministra, como um “prisioneiro político”.

Isso é mais que um detalhe. Por esse fator, Marina está com suas credenciais à esquerda um pouco chamuscadas. Fator que se soma ao fato de – ofendida em sua honra pelo PT na última campanha presidencial – ela ter declarado, no segundo turno, apoio a Aécio Neves.

São questões que, no entanto, não dizem respeito à herança eleitoral de Joaquim Barbosa.

Mais uma vez, Mauro Paulino, do Datafolha, arrisca o palpite de que herdarão as intenções de Barbosa os candidatos que não se situam dentro da polarização formada por tucanos e petistas.

As pesquisas eleitorais são caras, e a grande mídia não anda com o fôlego financeiro para encomendá-las aos borbotões.

De qualquer modo, as próximas rodadas do Datafolha e do Ibope serão vistas com a lupa de quem procura a migração de intenções, dentro do capital de 10% legado pelo ex-presidente do STF.

 FOTO: Nelson Jr/Divulgação STF/MONTAGEM: Guto Camargo