Brasil

2018 começa com a caça a um candidato presidencial forte e do centro


Meirelles e Alckmin podem ficar pelo caminho, num processo em que o importante é um nome forte que quebre com os extremos representados por Lula e Bolsonaro


  Por João Batista Natali 02 de Janeiro de 2018 às 13:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


É mais ou menos o óbvio: para contornar o risco de ter Jair Bolsonaro (PSC-RJ), de um lado, e Lula (PT), do outro – e isso se ele superar o obstáculo judicial para se candidatar –o ano eleitoral começa com a caça a um nome de centro, que possa melhor catalisar aquilo que a sociedade certamente prefere.

A questão é urgente, diante de algumas constatações. A principal delas se refere à (ainda) inviabilidade eleitoral dos nomes dessa corrente que circulam nas pesquisas de intenção de voto. Geraldo Alckmin (PSDB) e Henrique Meirelles (PSD) engatinham, com vantagem um pouco maior para o governador paulista.

Em princípio, o nome de centro teria entre suas virtuais vantagens a atual fragmentação das esquerdas.

Além de Lula, ela traz Ciro Gomes (PDT), Manuela D´Avila (PC do B), Marina Silva (Rede) e possivelmente Guilherme Boulos (Psol).

UMA FRAGMENTAÇÃO DESEQUILIBRADA

Mas não é uma fragmentação “equilibrada”. Lula leva uma ampla vantagem pela evocação do período de uma presidência da República, com baixo desemprego e alto crescimento, em razão da máquina ainda existente no PT e o sucesso inverossímil da tese da “conspiração” da Lava Jato para condená-lo.

No polo oposto, Bolsonaro é por enquanto uma imagem inflada e vazia em termos programáticos. Seus partidários não o interpelam sobre suas políticas públicas –inexistentes ou precariamente formuladas -, mas reagem positivamente à máscara conservadora que evoca a ordem e a autoridade.

Com tal perfil nos dois extremos do tablado eleitoral, o centro teria todas as condições para estar nadando de braçada. O maior paradoxo do quadro atual das intenções de voto está no fato de, justamente, não ser o caso.

Em entrevista a O Estado de S. Paulo publicada nesta terça-feira (02/01), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se refere à urgência da definição de um nome do centro, e dá a entender que o PSDB poderia transportar seu apoio a um outro nome, caso Alckmin não se viabilize.

A propósito, existem certas movimentações curiosas. Luciano Huck, de efêmera participação no jogo eleitoral, teria pedido ao Ibope, de acordo com a Folha de S. Paulo, para não retirar seu nome das pesquisas.

É uma maneira de dizer que ele não está totalmente convencido de que fez um bom negócio ao renunciar precocemente à candidatura.

Outro personagem efêmero é o prefeito João Doria, envolto pouco antes do Natal por uma espessa boataria de que poderia ser o candidato do presidente Michel Temer.

Não que o atual presidente, com apenas 6% de ótimo ou bom, segundo o Datafolha, tenha fôlego para fazer um sucessor. Mas Temer tem a caneta de uma poderosa máquina nas mãos.

O QUE NÃO MAIS FUNCIONA

Dentro dessa “caça ao centro”, até Lula – vejam vocês! - acredita ter algum espaço de percurso. Está sendo aconselhado pela direção do PT a se aproximar de empresários, para aquilo que poderia ser o esboço de uma nova “Carta aos Brasileiros” (2002), a partir da qual sua candidatura, naquela época, não provocou reações desesperadas do mercado.

Entre os centristas, sabe-se hoje bem mais o que não funciona para o eleitor. Meirelles, por exemplo, passou a usar as redes sociais para propagar os feitos da competente equipe econômica que chefia.

Mas o apelo popular é muito pequeno. A questão do emprego – nó górdio na percepção das classes C e D – não está ainda equacionada.

Alckmin esboça um discurso baseado na responsabilidade fiscal. À frente de São Paulo, ele construiu um exemplo oposto ao do Rio de Janeiro, onde a corrupção endêmica e o excesso de gastos tornaram o Estado insolvente e, por isso mesmo, com atrasos de salários e bem mais vulnerável à criminalidade.

De certa forma, as posições de centro têm algo a ver com a ideologia difusa que marcou a elaboração da Constituição de 1988: inclusão social e um Estado idealmente forte e atuante.

Mas é esse justamente o modelo que entrou em crise, sobretudo a partir do segundo mandato de Lula, quando o Estado passou a se hipertrofiar de maneira descontrolada, com o paralelo esforço do funcionalismo para abocanhar uma parcela maior da renda pública.

Diante disso, na cabeça dos brasileiros o centro passou a ser definido de maneira negativa. Ele é aquilo que Lula não representa e aquilo que Bolsonaro, também não.

O que coloca em circulação um novo problema. Há uma carência de novos conteúdos capazes de seduzir o eleitor. O ano de 2018 já começou. E um de seus motes está justamente na busca por esses conteúdos.

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