Brasil

2016, um ano que deixará poucas saudades


Dilma caiu com o impeachment, e Eduardo Cunha está preso. Mas Michel Temer desapontou por sua imagem, agravada com o prosseguimento da recessão


  Por João Batista Natali 26 de Dezembro de 2016 às 08:00

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


O ano de 2016 foi aquele em que o Brasil mudou sua cara a uma velocidade vertiginosa.

Há exatamente um ano, a Presidência da República era ocupada por Dilma Vana Rousseff, e o político brasileiro mais poderoso era Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados.

Dilma foi afastada pelo processo de impeachment em 11 de maio e perdeu definitivamente seu cargo com a votação do Senado em 31 de agosto.

Quanto a Eduardo Cunha, ele foi afastado do cargo em março e teve seu mandato cassado pelo plenário da Câmara em setembro.

Sem foro privilegiado, foi preso em outubro e é hoje hóspede do complexo penal de Pinhais, no Paraná.

A queda dos dois personagens não ocorreu por meio de uma conspiração de bastidores. Se o tão desprestigiado Congresso tomou as duas decisões, foi porque os cidadãos que queriam afastá-los ocuparam as ruas em manifestações mais intensas desde as Diretas-Já, de 1984.

Em março, na maior dos atos públicos, as polícias militares calcularam que 4,5 milhões de partidários do impeachment se manifestaram em mais de 300 cidades.

Os atos pró-Dilma também foram volumosos, mas atraíram uma quantidade bem menor de manifestantes.

Cunha teve um papel importante no afastamento de Dilma. Foi ele quem desencadeou o processo, em dezembro de 2015, e seguiu, nas votações seguintes, as determinações do Supremo Tribunal Federal (STF).

Mas sua reputação estava tão comprometida quanto a de seus ex-aliados petistas, também envolvidos na Lava Jato. Entre uns e outros, o chamado “ronco das ruas” acabou por defenestrar todos eles.

Este ano foi também marcado pela descoberta detalhada das operações de sangria da Petrobras.

Os números maiores e mais confiáveis foram divulgados agora em dezembro, com o acordo de leniência da Odebrecht no Brasil, Estados Unidos e Suíça.

Somente na corrupção de políticos brasileiros a empreiteira gastou R$ 1,9 bilhão, somado aos R$ 289 milhões da Braskem, seu braço petroquímico.

Não se tem ainda a totalização de outras empreiteiras, como a OAS, a Queiroz Galvão ou a Mendes Júnior.

A IMENSA ENERGIA DA LAVA JATO

Na outra ponta, as investigações da Lava Jato afetaram o PP e o PMDB, mas sobretudo o PT, pelo papel central na compra de apoio parlamentar, por meio de desvios em estatais.

Os números provisórios do Ministério Público Federal e da primeira instância de Curitiba são impressionantes.

Foram 1.434 procedimentos instaurados, com 79 prisões preventivas e 103 prisões provisórias, 730 mandatos de buscas e apreensões e 120 condenados.

Antes da equipe de 77 executivos da Odebrecht, as delações premiadas já eram 71. A mais bombástica será a de Marcelo Odebrecht, ex-presidente da empreiteira.

E a que provocou maiores estragos políticos foi a do ex-senador petista Delcídio do Amaral.

Ex-diretor da Petrobras, ele implicou Dilma na compra da refinaria de Pasadena (Texas), que causou prejuízo de US$ 792 milhões à estatal, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU).

Delcídio também confessou ter sido o interlocutor de operações de obstrução de Justiça, patrocinadas por Dilma e Lula.

O ex-presidente termina o ano como réu em cinco processos, dois deles não instruídos em Curitiba por Sérgio Moro.

O juiz é acusado pelos partidários de Lula de comandar uma conspiração cujo objetivo é uma condenação à prisão que tiraria os direitos políticos do ex-presidente petista.

Com a popularidade no chão, sobretudo depois do pífio desempenho do PT nas últimas eleições municipais (256 prefeituras, em lugar das 630 em 2012), Lula voltou a ser politicamente viável, de acordo com a pesquisa Datafolha publicada agora em dezembro.

Derrotaria Aécio, Serra e Alckmin, no segundo turno presidencial de 2018, e só perderia para Marina Silva.

A BOA VONTADE E A FRAQUEZA DE TEMER

Esse desempenho se justifica sobretudo pelo efeito de contraste com o presidente Michel Temer. A sociedade esperava de Temer resultados imediatos contra a recessão.

O desemprego no terceiro trimestre continuou a subir e chegou a 11,8%, o PIB terá queda ainda no início de 2017, segundo previsão do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e apesar da inflação ter caído de 10,7% para pouco mais de 6,5%, a taxa Selic está em 13,75%, só um pouco menor que os 14,25% do início do ano.

O que faltou então ao governo Temer? Sua imagem traz elementos misturados.

Tem o apoio incontestável no Congresso? Sim, porque conseguiu a aprovação da PEC que limita os gastos públicos. Não, porque o projeto que favorece a dívida dos Estados só passou depois da poda das contrapartidas fiscais que o Planalto exigia.

Essa última votação é um mau agouro com relação à primeira discussão importante de 2017, que será a reforma da Previdência, que contraria os interesses paroquiais de deputados e senadores.

O fato é que Temer não demonstrou ser um grande estadista que, ainda por efeito de contraste, esperava-se de um sucessor da fraquíssima Dilma Rousseff.

Além da ficha judicial daqueles que o cercavam de início – Renan Calheiros, Romero Jucá, Eliseu Padilha, Henrique Eduardo Alves – foi lamentável a sua atuação no episódio de Geddel Vieira Lima.

Para não machucar o aliado, Temer acabou comprometendo o Planalto na tentativa do ex-ministro de manter vantagem pessoal no controvertido empreendimento imobiliário da cidade de Salvador.

Temer tem ainda sua fraqueza pendurada nos desdobramentos ainda desconhecidos da Lava Jato e no julgamento em 2017, pelo Superior Tribunal Eleitoral (TSE), do processo em que ele e Dilma são acusados de financiar a campanha de 2014 com dinheiro desviado da Petrobras.

Impopular, o presidente da República não chega, no entanto, a provocar saudades dos 13 anos de governo do PT.

Ele é um personagem menos robusto -o único de que o país dispunha para essa transição de 29 meses, até a posse de um novo presidente da República, em 1º de janeiro de 2019.

Enquanto isso, o Brasil repete algo que se transformou em chavão. Com todos os tropeços, 2016 é um ano que faria pouca falta se não existisse no calendário da recente história republicana.

FOTO: Antônio Cruz,Roberto Stuckert Filho,José Cruz/Agência Brasil