Acontece no Estado

Campinas está na rota da mobilidade limpa


Produção de veículos elétricos, metas de planejamento urbano e pesquisas acadêmicas projetam a região quando o assunto é meio ambiente


  Por Mariana Missiaggia 26 de Julho de 2017 às 13:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Até 2020, o transporte coletivo de Campinas contará com 150 ônibus elétricos ante atuais 12.

A licitação prevista para o final do ano define que ao menos 10% da frota municipal passe a operar com veículos carregados por bateria, de acordo com Carlos José Barreiro, secretário de transportes da cidade.  

Tornar a mobilidade urbana mais limpa e sustentável é uma das premissas do Plano Diretor da cidade, que está sendo revisto pela Prefeitura.

A ideia é garantir uma mobilidade assentada na sustentabilidade ambiental, especialmente na região central do município, onde os veículos elétricos irão circular. 

Barreiro explica que a ação faz parte do projeto chamado DOTs – Desenvolvimento Orientado ao Transporte Sustentável. 

Na prática, isso transformará a região central de Campinas numa zona privilegiada para o transporte elétrico. 

BARREIRO QUER TRANSFORMAR CAMPINEIROS EM PEDESTRES E CICLISTAS

Para tanto, o secretário pretende desestimular o uso do automóvel nos miolos dos bairros com a construção de ciclofaixas e criar campanhas para encorajar condutores a se tornarem pedestres em pequenos deslocamentos.

“Queremos que os campineiros cheguem ao transporte público por meios alternativos, que não sejam o carros".

CENÁRIO

Todas essas ações podem parecer rotineiras, mas no Estado, Campinas ainda lidera quando o assunto é mobilidade limpa. 

Na última semana, a Prefeitura de São Paulo anunciou que até o final de julho mais um ônibus movido a bateria entrará em circulação na cidade. A partir de então, a capital passará a ter três veículos elétricos em testes no transporte público. 

Campinas está um pouco mais avançada nesse quesito. A cidade foi a primeira no País a colocar em operação um ônibus 100% elétrico, em 2015.

Hoje, no total, são 12 ônibus elétricos em operação, nove eletropostos de recarga e outros três táxis nos mesmo moldes. 

Cidades como Paulínia, Vinhedo, Valinhos e Indaiatuba também já utilizam a tecnologia em alguns caminhões de lixo 100% elétricos.

Com um mecanismo hidráulico de compactação, o caminhão é capaz de comprimir até 16 toneladas de lixo por turno de funcionamento.

Com uma recarga de duas horas, a bateria de fosfato de ferro lítio (que é reciclável e tem vida útil de 40 anos) garante o funcionamento por oito horas ou 200 quilômetros.

COMO ESSE CONCEITO AVANÇA 

Na opinião de Jacques Marcovitch, professor emérito da FEA/USP e conselheiro do Instituto IHEID em Genebra, instituto especializado em estudos globais, a chegada da empresa chinesa BYD, especializada na fabricação de baterias recarregáveis, aproximou a Região Metropolitana de Campinas de opções urbanas sustentáveis.

PARA MARCOVITCH, CAMPINAS LIDERA EM MOBILIDADE LIMPA NO ESTADO

Com parte dos equipamentos importados da China, a sede da empresa em Campinas produz chassis para os modelos K7 (midi) e K9 (convencional, de 12 metros), que recebem carrocerias nacionais.

Embora seja mais caro, o investimento em veículos elétricos é recompensado pela economia com a operação e a manutenção, além de ser ecologicamente correto. 

De acordo com Aldalberto Maluf, diretor de marketing e sustentabilidade da BYD, todos os investimentos nesses veículos se pagam entre cinco e sete anos.

O custo do veículo é equivalente ou chega a ser até 5% mais caro que um modelo a combustão e o valor pago na bateria é compensado com a redução nos gastos com abastecimento.

Além de não poluir, os ônibus elétricos têm autonomia de 250 quilômetros, são mais confortáveis para o usuário e silenciosos, e gera uma economia de até 78% por quilômetro rodado, em relação a um veículo movido a diesel.

BRASIL SUSTENTÁVEL

Marcovith lembra que em dezembro de 2015, o Brasil assumiu o compromisso de restaurar florestas e reduzir a emissão de gases efeito estufa durante a conferência climática conhecida como Acordo de Paris. 

E a questão da mobilidade será uma peça chave nessa evolução.

Nas últimas décadas, o desafio da indústria nacional automobilística foi produzir carros mais seguros e eficientes. Porém, todos eles evoluíram baseados em motores de combustão fóssil (petróleo).

Após a adoção de energias renováveis –com o uso do etanol – Marcovitch alerta que chegou a hora de o país se valer das baterias elétricas para reduzir ainda mais as emissões de gases e providenciar uma mobilidade limpa por meio de novos modelos de ônibus e carros.

FUTURO 

A tecnologia trazida pelos chineses e que está sendo em Campinas é parte do longo caminho a ser percorrido pelos brasileiros até que seja possível produzir veículos nesses moldes em larga escala.

Para Marcovitch, as empresas chinesas estão apostando no Brasil levando em consideração os recursos naturais e suas condições climáticas.   

“Percebemos claramente que as estratégias de investimento das empresas chinesas se dão no longo prazo. Principalmente, num momento em que outros investidores internacionais estão aguardando esse momento de incerteza para definir seus investimentos", diz. 

O especialista diz acreditar que independente da crise que o País atravessa, esses investimentos continuarão acontecendo e se expandindo, gerando novos empregos e competências.

Por isso, é necessário que as universidades discutam o assunto e preparem profissionais para a realidade da governança de empresas chinesas.

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