Finanças

Ciclo de flexibilização dos juros está perto do fim


Para analistas em Londres, taxa Selic, de 8,25% ao ano, deve cair para 7,5% em outubro


  Por Estadão Conteúdo 07 de Setembro de 2017 às 06:57

  | Agência de notícias do Grupo Estado


Com o corte dentro do previsto da Selic ontem em mais um ponto porcentual, o Banco Central do Brasil se aproxima do fim do ciclo de flexibilização da sua política monetária, conforme avaliação feita por analistas em Londres.

Ontem (06/09), o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC ajustou a taxa básica de juros para 8,25% ao ano e a previsão na city londrina agora é de redução da intensidade de cortes.

"A decisão de ontem à noite confirmou nossa visão de que o fim do ciclo de flexibilização não está longe", escreveu em relatório a clientes, divulgado nesta manhã (07/09). o economista para América Latina da Capital Economics, Adam Collins.

Segundo ele, a autoridade monetária promoverá mais uma redução, de 0,75 ponto porcentual na taxa, para 7,50% ao ano, na reunião de outubro. "O panorama geral é que o ciclo de flexibilização agressivo do Copom está agora chegando ao fim."

Collins destacou que a decisão do Copom de ontem era "amplamente esperada" por causa do contínuo mergulho da inflação e a melhora dos mercados financeiros locais desde a reunião anterior do comitê.

Ele enfatizou que o comunicado que acompanha a publicação da nova taxa sugeriu uma redução no ritmo de flexibilização, embora tenha observado que a evolução da inflação continua a ser favorável.

Para o analista, esta sinalização não reflete uma mudança importante nas perspectivas econômicas, já que vinha sendo considerada, depois de o BC ter cortado a taxa de juros a "passos grandes".

Ele lembra que, se sua projeção for confirmada, a Selic ficará muito próxima do recorde de baixa que atingiu no fim de 2012 (7,25% ao ano). Além disso, comentou que o processo de desaceleração da inflação deve estar chegando ao fim e que os dados de atividade começam a melhorar no país.

É possível, no entanto, segundo o economista da Capital Economics, que o juro brasileiro continue a ser cortado no ano que vem mais "uma ou duas vezes".

"Ainda não há sinais de que a crise política, que entrou em erupção em maio, tenha algum impacto na recuperação econômica e há menos justificativas para continuar com um ritmo tão rápido de flexibilização", disse.

Na Pantheon Macroeconomics, também com escritório na city londrina, o economista-sênior internacional, Andres Abadia, disse que o comunicado apontou para uma recuperação gradual da economia em meio a um cenário global favorável.

Ele também enfatizou a percepção do BC sobre a inflação, além das expectativas, também contidas, para o índice de preços oficial. Destacou, no entanto, o risco para as projeções para a inflação no caso de as reformas estruturais propostas pelo governo não serem implementadas.

Abadia lembrou em relatório para clientes divulgado na manhã desta quinta-feira que este foi o quarto corte consecutivo de um ponto porcentual promovido pelo Copom e citou o trecho em que o comunicado fala de "uma redução moderada do ritmo de flexibilização monetária" como "apropriada".

Ele também projeta uma diminuição na intensidade dos cortes, para 0,75 ponto porcentual em 25 de outubro.

Ao contrário do seu colega, porém, ainda enxerga um espaço para uma redução adicional em dezembro, de 0,50 pp, o que levaria a Selic a 7,00% ao ano.

"Isso provavelmente será o fim do ciclo de flexibilização, mas a estabilidade na frente política e os progressos nas reformas, em particular a da Previdência Social, estão reduzindo o equilíbrio de riscos para uma maior flexibilização", disse.

NO BRASIL

A forte turbulência no cenário político nos últimos dias contrasta com dados cada vez mais positivos vindos da economia. O IPCA, índice oficial de inflação do país, fechou o mês de agosto em 0,19%, abaixo das estimativas do mercado, segundo dados divulgados ontem (06/09), pelo IBGE.

Em 12 meses, a inflação está em 2,46%. E, também ontem, 06, o Banco Central reduziu a Selic, taxa básica de juros da economia, de 9,25% para 8,25% ao ano.

Até ontem, as apostas majoritárias do mercado financeiro apontavam para uma Selic de 7,25% ao final do ano. Com isso, igualaria o nível mais baixo da taxa de juros no Brasil, registrado em 2012, no governo Dilma Rousseff.

Mas, com a inflação em níveis tão baixos, economistas começam a apostar em uma taxa ainda menor, até abaixo dos 7%.

E, diferentemente da época do governo Dilma, quando a queda da Selic foi mais uma questão política, sem amparo nas condições macroeconômicas (quando o ex-presidente do Banco Central Alexandre Tombini deixou o cargo, no ano passado, os juros já estavam em 14,25% ao ano), a avaliação agora é de que há condições para o país, finalmente, manter tanto a inflação quanto a Selic em níveis baixos, o que tem um efeito benéfico tanto na vida das pessoas quanto das empresas.

"A nossa expectativa é que a inflação se mantenha baixa pelo menos nos próximos dois anos", disse o economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados.

"E, com a inflação em níveis mais comportados, a Selic pode cair e se manter, o que não é usual no Brasil."

O senão nesse quadro, diz, é a questão fiscal, ainda muito complicada, e que só vai se resolver com a aprovação das reformas econômicas, especialmente a da Previdência.

Para o economista, a inflação deve ficar este ano em torno de 3%, o que pressionará o Banco Central a baixar ainda mais os juros, talvez até abaixo dos 7,25% previstos atualmente.

A meta de inflação perseguida pelo BC é de 4,5% ao ano, com margem de tolerância de 1,5 ponto porcentual para cima ou para baixo. Quando essa meta é descumprida, o presidente do banco precisa enviar uma carta ao Ministério da Fazenda explicando porque isso ocorreu.

Além da sazonalidade - Para Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC e sócio-diretor da Schwartsman & Associados, a surpresa com o IPCA de agosto mostra que o resultado vai além de questões puramente sazonais e da queda nos preços dos alimentos.

Segundo ele, as condições para o IPCA fechar até abaixo de 3% este ano são crescentes.

Além disso, o ambiente desinflacionário que tende a persistir em 2018 - ainda que em menor magnitude - deve permitir que a Selic continue caindo em 2018, a despeito dos sinais de retomada da atividade econômica.

"A possibilidade de aumento de juros no ano que vem é remota. O desemprego ainda está muito elevado", afirmou.

Conforme o economista, a ociosidade elevada dá espaço para que a taxa Selic caia abaixo do nível histórico de 7,25%. Por ora, ele prevê a taxa de juros fechando este ano em 7%, mas não ignora a possibilidade de a Selic terminar em 6,75%.

Para ele, o principal risco desse cenário favorável em termos de juros e inflação é o quadro fiscal, ainda bastante complicado.

"Há vários argumentos da inflação que sugerem que há espaço para mais reduções (da taxa de juros). Dá a impressão de que a Selic teria condições de terminar este ano mais perto de 6% do que de 7%", disse o economista Hélcio Takeda, da consultoria Pezco.

Após o anúncio do BC, o porta-voz do presidente Michel Temer, Alexandre Parola, fez um pronunciamento para comentar o "conjunto amplo de notícias que confirma o bom momento que atravessa a economia brasileira e sua plena recuperação".

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