Vida e Estilo

Proibição gera corrida de paulistanos por foie gras


Em uma semana, a Casa Santa Luzia vendeu 25 quilos da iguaria, volume que demorava dois meses para comercializar. No restaurante Le Casserole o prato será servido até que a lei entre em vigor, em agosto


  Por Fátima Fernandes 03 de Julho de 2015 às 20:00

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


O prefeito Fernando Haddad (PT) muito  provavelmente não imaginava, mas sua decisão de proibir a produção e a comercialização de foie gras (fígado gorduroso de ganso ou pato) na capital paulista levou um seleto grupo de consumidores a correr atrás do produto antes de 10 de agosto, quando a lei passará a vigorar.

Um dos principais fornecedores de foie gras em São Paulo, a Casa Santa Luzia comercializou em uma semana 25 quilos do produto, volume equivalente ao que comercializava em até dois meses. “Acabou o estoque”, disse ao Diário do Comércio Carlos Gonçalves, gerente da loja, no início da noite desta sexta-feira (3).

Um dos pratos mais conhecidos da gastronomia francesa, o foie gras é obtido a partir da alimentação forçada de gansos e patos, prática condenada atualmente por ativistas defensores de animais.

Assim que a medida foi anunciada, no final do mês passado, a Casa Santa Luzia identificou aumento na demanda pela iguaria, que é importada da França. Antes disso, a loja vinha comercializando entre 4 quilos e 5 quilos de foie gras congelado por semana, vendido a R$ 308 o quilo.

O projeto de lei que veda a produção e comercialização do foie gras foi proposto pelo vereador Laércio Benko (PHS). Em sua justificativa, ele qualificou o alimento como “simples aperitivo das classes abastadas, que não traz nenhum benefício à saúde humana”.

A Casa Santa Luzia comercializa foie gras (de pato e de ganso) há cerca de 40 anos. Nos últimos dez, vendia cerca de 100 quilos do produto anualmente.

Mais recentemente, a loja importava da França foie gras de pato, que custa cerca de 30% menos que o de ganso, segundo Gonçalves.

Na avaliação da diretoria da Casa Santa Luzia, a decisão do prefeito Haddad pode não ter um efeito muito significativo na cidade, pois nos municípios vizinhos não existe a proibição nem de produção nem de venda da iguaria.

O La Casserole, um dos mais tradicionais restaurantes franceses de São Paulo, registrou aumento de 300% na procura por dois pratos que utilizam foie gras.

Leo Henry, sócio-proprietário do restaurante, diz que, por enquanto, não tem tido dificuldade para encontrar a iguaria, que é produzida no Brasil. “Vamos manter o prato até o dia que entrar a proibição”, diz. O restaurante ainda estuda o que vai substituir o foie gras que acompanha o filé mignon.

O CHEF ERICK JACQUIN: CONTRA A PROIBIÇÃO/Foto: J.F.Diorio/Estadão Conteúdo

Quando a lei passar a valer, o restaurante ou a loja que comercializar o produto fica sujeita a uma multa de R$ 5 mil. Se for reincidente, o valor pode dobrar.

PROIBIÇÕES NO MUNDO

O foie gras tem sido objeto de controvérsias e proibições parciais em outros países. No Reino Unido, Alemanha, Itália e Argentina a produção ou a comercialização da iguaria sofreram limitações adotadas por grupos que se afirmam defensores dos patos e gansos submetidos à engorda forçada.

Mesmo na França a questão vem sendo levantada. O país que criou o foie gras e permanece como o principal produtor mundial foi este ano objeto de um primeiro processo judicial contra produtores. Mas nenhuma decisão ameaça os criadores das aves nas regiões do Périgord ou da Gascogne, os principais centros de produção.

Um produtor francês disse que, de atividade artesanal, a produção do foie gras cresceu em dimensão e crueldade, na medida em que num só ano teriam sido engordadas 82,7 milhões de aves. As autoridades do Ministério da Agricultura não confirmam esse número.

Para satisfazer o mercado, outros países também produzem a iguaria, como a Espanha, a Bulgária e a Hungria.

Tanto quanto a França, eles em princípio deveriam seguir uma recomendação recente da União Europeia, que estipula que cada ave deve ocupar uma gaiola. Na prática, no entanto, cada gaiola abriga até dezenas de aves.

A mídia francesa citou com relativo destaque a proibição do foie gras em São Paulo e citou declarações do chef francês radicado no Brasil. Erick Jacquin, que se opõe à proibição do fígado de ganso ou de pato. Era um dos pratos de seu restaurante La Brasserie, que fechou as portas há dois anos.

Nos Estados Unidos, o foie gras foi proibido em 2004 na Califórnia, mas a proibição só entrou em vigor em 2012. Uma cadeia de restaurantes interpelou a Corte Suprema, argumentando que a medida era ilegal. Mas a decisão da Justiça beneficiou os partidários da proibição.

*Com João Batista Natali