Vida e Estilo

Período sabático: hora de dar uma pausa


As histórias de empresários que mudaram suas trajetórias profissionais quando decidiram parar com todas as atividades para viajar pelo mundo


  Por Thais Ferreira 16 de Junho de 2016 às 13:00

  | Repórter tferreira@dcomercio.com.br


O livro Comer, Rezar, Amar relata a história verídica da jornalista Elizabeth Gilbert. Após enfrentar problemas pessoais, ela vendeu todos os seus bens e passou um ano viajando pela Itália, Índia e Indonésia. A obra foi um grande sucesso mundial com mais de oito milhões cópias vendidas.

A prática de pausar todas as tarefas para repensar a vida pessoal ou profissional se tornou mais comum nas últimas décadas. No mundo acadêmico e empresarial, essa interrupção é conhecida como período sabático.

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O termo deriva da palavra shabat ou sabat, que significa a pausa semanal feita pelos judeus. Durante o pôr do sol da sexta até o pôr do sol do sábado, os praticantes da religião se abstêm de fazer qualquer tarefa para repousar e refletir.

O período sabático não significa necessariamente fazer uma viagem, pode ser também um hiato para realizar uma atividade diferente ou para não fazer nada.

Algumas empresas, como o Google e a 3M, oferecem essa oportunidade para alguns funcionários. Mas elas são uma exceção. A maioria dos contratados acaba pedindo demissão para conseguir realizar uma pausa.

MIRA: SAIU FUNCIONÁRIO E VOLTOU EMPREENDEDOR

DE FUNCIONÁRIO A EMPREENDEDOR

Aos 26 anos, Jorge Mira achava que tinha uma vida profissional confortável: trabalhava numa multinacional na área de vendas de listas telefônicas. Mal ele sabia que esse negócio estava fadado a desaparecer.

Quando a empresa fechou o setor onde ele trabalhava e decidiu transferi-lo para área de logística, Mira recusou. Ele tinha um sonho maior: viajar.

Hoje, aos 40 anos, Mira – sócio da Planet Partners, empresa que presta serviços jurídicos e ajuda empresas estrangeiras a estabelecerem negócios na América Latina – não se arrepende de ter largado tudo.

Quando quis tirar um período sabático, não tinha muitos planos. “Na época, o filme Senhor dos Anéis tinha estreado nos cinemas e eu adorei as paisagens”, diz Mira.

"Descobri que ele tinha sido gravado na Nova Zelândia e decidi que esse seria meu destino.”

Em uma semana, ele comprou a passagem e arrumou as malas. Durante os quase dois anos em que esteve no país se dedicou a um de seus hobbies: cozinhar.

Mesmo sem experiência, conseguiu um emprego num restaurante neozelandês. “Durante esse período aprendi muito sobre trabalhar sob pressão”, afirma Mira. “Foi um período difícil, mas de muito aprendizado.”

Voltou para o Brasil com 29 anos, decidido a exercer algo relacionado com sua formação de administrador de empresas. “Queria empreender e ter o controle da vida profissional”, afirma Mira.

Dessa forma, surgiu a Planet, empresa fundada em sociedade com seu pai. Mira acredita que esse período sabático foi fundamental para ter uma visão mais humilde.

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SCHOLL: SABÁTICO AJUDOU VENDER UMA EMPRESA E FUNDAR OUTRA

SABÁTICO: NOVAS OPORTUNIDADES 

Nascido na Áustria, Hans Scholl, hoje é sócio fundador da MetroFit, empresa que aluga boxes para armazenamento no Brasil.

Mas ele já teve outros negócios. Quando ainda estava em seu país de origem, ele e a irmã tinham uma empresa no setor de construção civil. Há sete anos, ele vivia uma situação difícil: estava preso às funções operacionais desse negócio e se sentia exausto. Para piorar a situação, o relacionamento com a irmã não estava indo bem.

Foi quando ele optou por fazer uma pausa e viajar por cinco meses. O destino escolhido foram os países do sudoeste asiático, como Laos e Vietnã. “Não há muito tempo para pensar estrategicamente quando você está preso a uma rotina”, diz Scholl.

O empresário passou experiências que o fizeram refletir sobre seu negócio. “É um período que te faz pensar fora da caixa”, afirma.

Quando voltou para Áustria, decidiu vender a empresa que tinha junto com a irmã.

“Além de um momento de reflexão, o sabático traz o conhecimento de outras culturas e isso ajuda a inovar dentro das empresas”, afirma Scholl. Ele é a prova disso. A ideia para seu negócio atual começou durante uma viagem pelos Estados Unidos.

Os americanos têm o hábito de guardar objetos em depósitos – quando eles não cabem mais dentro de casa ou quando não são usados no dia a dia.  Esses boxes são alugados por uma quantia mensal e apenas o proprietário tem acesso.

Por motivos pessoais e oportunidades de negócio, Scholl decidiu morar no Brasil e trazer esse formato de armazenamento para São Paulo – cidade na qual os preços do metro quadrado são altos e há falta de espaço disponível.

Ele acredita que realizar um período sabático é fundamental para os empresários. “Sair da zona de conforto é algo que promove muito crescimento”, diz Scholl.

DANIEL AGRELA USA SUA EXPERIÊNCIA NO PERCURSO PARA ENSINAR EMPRESÁRIOS

CAMINHO DE SANTIAGO: ROTA PARA EMPRESÁRIOS

O período sabático não precisa durar anos. Há empresários que tiram curtos períodos, mas têm experiências profundas. Um dos destinos escolhidos para esse tipo de viagem é o Caminho de Santiago de Compostela – uma das rotas de peregrinação mais antigas.

Todos os anos, entre 30 a 50 mil peregrinos percorrem as rotas que levam até a catedral espanhola. Alguns têm motivos religiosos ou místicos, mas muito vão apenas pelo desafio.

O jornalista Daniel Agrela fez o caminho duas vezes. Após essa experiência, ele escreveu o livro O Guia do Viajante do Caminho de Santiago e hoje ministra um curso que ajuda pessoas que querem fazer o percurso. “É um período em que tudo fica suspenso, a única preocupação é caminhar”, afirma Agrela.

O perfil do público é bastante variado, mas de acordo com Agrela o número de empresários que escolhem fazer essa viagem é bastante grande. “São pessoas que sofrem grande pressão e precisam de momentos para refletir”, diz.

NÁGELA DURANTE O CAMINHO DE SANTIAGO

Nágela Franccini faz parte desse grupo. Formada em administração e biomedicina, ela fundou a empresa Fran Pesquisa e Informação, que recruta pessoas para pesquisas de mercado.

Em dezembro do ano passado, foi incentivada por uma amiga a fazer o Caminho de Santiago. Realizou o percurso em abril deste ano.  Como parte do planejamento, ela diminuiu a quantidade de projetos que iria pegar no mês da viagem e delegou algumas tarefas para funcionários.

“Neste período consegui esvaziar a cabeça, diminuir o stress e a cobrança. Foi uma experiência de vida”, afirma Nágela.

Desde que voltou de Santiago de Compostela, a empresária decidiu diminuir o ritmo de trabalho. “Costumava ficar à disposição da empresa 24 horas por dia. Agora quero ter mais tempo para mim”, diz.

A empresária está planejando fazer mais viagens como essa. A próxima deve ser a caminhada na Chapada Diamantina, na Bahia.  

Foto: Thinkstock