Vida e Estilo

Não suporta nem olhar para as contas? Pode ser fobia financeira


Conheça os sintomas antes que as dívidas se transformem em uma bola de neve


  Por Rejane Tamoto 19 de Abril de 2016 às 13:00

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


A fatura do cartão está na caixa de correio, mas dá um arrepio só de pensar em abrir essa correspondência?

Em tempos de crise e de encolhimento da renda de consumidores e empreendedores, essa sensação pode parecer comum e até compartilhada por muitas pessoas. Quem nunca ouviu o bordão "de conta eu só quero distância"?

A situação real ajuda e os indicadores negativos relacionados a emprego e renda reforçam esse medo de encarar a própria realidade financeira.

Mas longe de ser inofensivo, o ato de ignorar o extrato bancário e as contas a pagar -por mais doloroso que seja- se torna perigoso se ocorrer repetidamente.

Adotar essa atitude de maneira recorrente que pode levar ao endividamento excessivo e à inadimplência. Isso vale para as contas de casa e da empresa, ou seja, desde olhar para o extrato bancário até fugir da conversa com o contador.

Outra consequência de ignorar as contas e extratos, deixando tudo no débito automático, é cair no limite do cheque especial e pagar juros altíssimos. Quem não toma as rédeas da situação, acaba se endividando até não ter mais condições de quitar o débito.

Especialistas dizem que essa aversão para encarar a própria realidade financeira -que traz um forte sentimento de medo embutido -pode ser fobia financeira, que traz diversos sintomas e deve ser tratada, em casos extremos, com terapia.

A fobia financeira foi tema central da pesquisa Investment Phobia (Fobia de Investimentos), conduzida por Brendan Burchell na universidade de Cambridge, em 2003.

No estudo, que leva em consideração questionários de pessoas de diversos países, incluindo o Brasil, Burchell e outros pesquisadores mapearam os sintomas da fobia e os maiores medos das pessoas.

Eles detectaram, naquela época, que essa fobia acometia mais as mulheres do que os homens e uma a cada cinco pessoas no mundo. Para 65% dos entrevistados, o maior medo era não ter dinheiro para se sustentar no futuro.

7 SINAIS APONTAM QUE VOCÊ SOFRE DE FOBIA FINANCEIRA

1- Quando pensa nas contas e na situação financeira sente que o coração acelera e transpira de pânico;

2- Recebe o extrato do banco em casa e prefere não abrir por medo de ver que o saldo está negativo. Na verdade, o medo de encarar a realidade. O mesmo ocorre com faturas e boletos;

3- Não consegue conversar sobre dinheiro sem ficar nervoso e estressado e, por isso, não fala sobre o assunto com ninguém, nem com familiares;

4- Sente-se ansioso e apreensivo ao lidar com dinheiro;

5- Tem insônia porque fica pensando em dinheiro, dívidas e no futuro;

6- Evita ler ou assistir notícias e comentários sobre finanças. Não tem nenhum interesse pelo assunto e acha que isso é um tédio;

7- Sente dores crônicas nas costas, pescoço, ombros ou parte do corpo sem explicação razoável.

MAS HÁ DOIS TIPOS DE FOBIA...

Valéria Meirelles, psicóloga especializada na relação das pessoas com o dinheiro, diz que a fobia financeira pode fazer parte de um quadro mais amplo: o medo excessivo de controlar a conta bancária mostra que a pessoa não tem controle sobre o dinheiro, nem sobre ela mesma e nem sobre a realidade como um todo.

Assim, olhar para as contas e extratos em tempos de crise é o mesmo que encarar uma situação de instabilidade e descontrole e isso pode não ser fácil tanto para quem tem fobia, quanto para quem não tem.

Ela explica que há dois tipos de comportamentos fóbicos: o da pessoa que é descontrolada há um bom tempo, ou seja, gasta muito, se endivida, paga e sempre recomeça esse ciclo.

E há a causada pela crise, que vem acompanhada do desemprego e da inadimplência.

Essa fobia, segundo Valéria, não surge da noite para o dia. Antes de ter aversão ao assunto dinheiro, a pessoa tentou resolver a situação de diversas formas. Neste processo, perdeu a autoconfiança e a autoestima.

"A fobia é diferente de medo. Afeta fortemente o ego, trazendo a sensação de que a pessoa vai se desintegrar toda vez que abrir a fatura do colégio do filho. É uma angústia e um sofrimento real e mais forte do que a própria pessoa. Para não sentir mais isso, opta por não olhar mais e nem falar sobre o assunto", diz.

A fobia, segundo Valéria, gera uma paralisação da pessoa frente à fragilidade que ela sente. É o sentimento de que não vai dar conta do recado mesmo.

CAUSAS 

Segundo a pesquisa de Burchell, há pelo menos três causas associadas ao surgimento da fobia financeira. Uma delas é procrastinação, o ato de adiar uma ação ou atitude.

Entrevistados que evitavam tarefas relacionadas ao próprio dinheiro, por procrastinação, disseram que se sentiram culpados depois que a situação saiu de controle e virou uma fobia.

O segundo motivo é a frustração, que ocorre com pessoas que andavam na linha e tinham controle da situação financeira, mas que sofreram perdas por causa de eventos inesperados.

"É uma espécie de trauma ter passado por uma perda de dinheiro inesperada. Depois de ter essa sensação ela pode não querer mais se relacionar com as próprias finanças", diz Leandro Ferreira, educador financeiro e especialista em investimentos do DSOP.

A terceira causa é a falta de confiança, que é a dificuldade em lidar com informações recebidas de bancos e prestadores de serviços financeiros.

E isso vale na hora de compreender dados, planilhas, números, gráficos, além de siglas usadas em larga escala quando se fala em finanças.

Esse é o tipo de fobia desenvolvida pela falta de conhecimento e educação financeira. "A pessoa passa a ter medo de perder parte do dinheiro ao fazer um investimento", diz.

COMO TRATAR

Por trás de uma fobia financeira há, de um lado, a falta de educação financeira, que permite ter controle sobre o dinheiro, na opinião de Ferreira.

"A fobia pode ser uma doença mais grave se a pessoa se torna ansiosa e chegar a sofrer de outros males físicos como gastrite, intestino preso ou solto", afirma.

Para saber o quão grave é o problema, ele sugere que o primeiro passo seja tentar conversar sobre dinheiro com alguém de confiança, da família ou não, antes mesmo de buscar a ajuda de um especialista ou consultor financeiro.

Se não conseguir falar sobre o assunto, é o caso de buscar tratamento médico, como a própria psicoterapia.

Ele diz que em alguns casos, vale recorrer ao psiquiatra. "A pior etapa é a de aceitar que realmente sofre desse problema e que precisa de ajuda de alguém de fora", afirma Ferreira. Ele diz que um tratamento auxiliar aos casos de fobia, e alternativo, pode ser o de acupuntura.

Valéria avalia que pedir ajuda a alguém de fora é muito difícil para o brasileiro, que valoriza a privacidade quando o assunto é dinheiro:

"Por isso, é quase inadmissível que ele peça ajuda para a esposa, irmão ou amigos. Isso acontece mais com os homens. Eles acham que têm de resolver a situação sozinhos e acabam pedindo dinheiro no banco e a agiotas. Após diversas tentativas de resolver o problema, se sentem incapazes emocionalmente".

O tratamento psicológico depende do quadro de cada um, já que alguns têm sintomas de pânico, o que é mais grave. Outra avaliação que ela faz é em relação à duração dos sintomas. "Se é coisa de três meses não chega a ser uma fobia", afirma.

FOTO: Thinkstock