Vida e Estilo

Já não se faz felicidade como antigamente


Oito décadas depois, bom humor e lazer ocuparam o lugar de educação e religião como fatores essenciais para ser feliz. Sinal dos tempos


  Por Inês Godinho 03 de Outubro de 2015 às 08:00

  | Jornalista especialista em sustentabilidade e gestão, a editora atuou no Estadão, na Editora Abril e na Folha de S. Paulo


O mundo mudou radicalmente nas últimas décadas --mas será que nossa ideia de felicidade também se transformou? A resposta a essa questão foi encontrada em 2014 por Sandie McHugh, uma pesquisadora inglesa da Universidade de Bolton. 

Quase 80 anos depois, ela repetiu uma experiência conduzida na cidade inglesa de Bolton em 1938, realizada na época como uma tentativa de dar consistência científica a um tema até então cativo dos filósofos. O resultado, publicado há alguns meses, mostrou que, sim, nós mudamos. E o que pensamos da felicidade também.

Em 1938, os entrevistados apontaram três fatores como os mais importantes para ser feliz – segurança, educação e religião. Em 2014, apenas segurança permaneceu no podium. Em primeiro e segundo lugar apareceram bom humor e lazer. Religião se deslocou para a última posição no ranking de 10 fatores prioritários. Esses resultados dizem muito sobre os seres humanos que nos tornamos. 

REFERÊNCIA UNIVERSAL

Embora a tese tenha sido testada em apenas uma cidade, a primeira e a segunda pesquisas foram tratadas como uma amostragem importante, dentro do crescente interesse dos cientistas pelo tema.

Por seu perfil, Bolton pode ser universalizada. De uma próspera cidade industrial, com 180 mil habitantes, o lugar se reinventou como um centro de serviços e tecnologia. 

A metodologia do estudo atual manteve a mesma simplicidade do original. Um anúncio em um jornal local convidou a população a responder a pergunta “o que é felicidade?”. Em 1938, 226 pessoas responderam. Em 2014, 489. 

Aos interessados, foi apresentado um questionário com 10 aspectos para que dissessem o peso de cada um no que consideravam uma vida feliz. As principais diferenças confirmam que caminhamos para uma sociedade mais hedonista, auto-indulgente, individualista e descrente dos marcos tradicionais de poder, como política, religião e economia.

Na primeira pesquisa, a importância do bom humor, visto como possibilidade de compartilhar bons momentos com pessoas próximas, tinha peso médio para os antigos pesquisados. Por outro lado, religião, relegada ao último lugar no ranking, expressa o declínio das crenças tradicionais. 

Em 1938, a maioria estava feliz em morar na própria cidade. Na segunda, 63% seria mais feliz longe de Bolton. O peso dado à educação se tornou bem menor, como um indício de que deixou de ser uma aspiração com o maior acesso ao ensino que temos hoje. 

FELICIDADE NÃO SE COMPRA

Surpreendentemente, a ligação de riqueza e felicidade continuou distante para os dois grupos de respondentes. Eles coincidiram também no papel da sorte – 40% de cada grupo acreditaram que boa sorte é essencial para ser feliz. 

A importância da segurança se manteve, associada à garantia de um emprego e de renda para suprir as necessidades básicas da vida. E também a desconfiança com políticos e lideranças em geral, vistos como dispensáveis quando se fala de  viver uma boa vida.

Para a pesquisadora, as respostas indicam que a concepção de felicidade saiu do âmbito da vida doméstico e fechada na comunidade para a valorização da convivência com familiares e amigos em um universo mais amplo. Embora não tenha sido textualmente citada, pode se pensar no peso das redes sociais nessas respostas. 

OBJETO DE DESEJO

Entre as surpresas da comparação entre os dois estudos, a extrema valorização do lazer é sintomática dos nossos tempos. Em algumas sociedades, como a americana, o aumento da carga de trabalho criou um paradoxo, segundo os especialistas. Ao mesmo tempo em que o lazer se tornou o sonho dourado da maioria, traduzido na pesquisa como “mais tempo para fazer as coisas que eu gosto”, ocorreu uma espécie de desaprendizado do descanso

Segundo pesquisa da American Psychological Assocation, a maioria não consegue mais se desconectar do trabalho quando sai de férias. Seja por se considerar insubstituível ou por medo de ser trocado ou simplesmente não ter poder para dizer não, muitas pessoas mantêm-se ligadas no principal vilão do lazer, o email no celular.
 
Talvez os antigos moradores de Bolton tivessem razão em não colocar o lazer como indispensável à felicidade. O descanso era parte natural da vida, ao contrário do que acontece no nosso mundo frenético.

 

IMAGEM: ThinkStocl