Vida e Estilo

Ele transforma viagens em megaproduções


O paulistano Robert Betenson, sócio-fundador da Matueté, já converteu uma simples pousada em hotel cinco estrelas para receber seus clientes. A viagem dos sonhos é um negócio bem real


  Por Mariana Missiaggia 18 de Agosto de 2017 às 08:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Conhecer o Brasil  em sete dias. Fazer um piquenique aos pés do Cristo sem a presença de nenhum outro turista. Passear de balão pela Chapada Diamantina.

Tudo isso pode parecer praticamente impossível, mas não é. É o que afirma Robert Betenson, 45 anos, sócio-fundador da Matueté , uma agência especializada em turismo de luxo.

Há 15 anos à frente dos negócios da Matueté, nenhum pedido soa como extravagante para Betenson.

Ele já organizou um cruzeiro exclusivo para 30 pessoas, jantares em cavernas, um roteiro de chá pela China, levou chefs renomados para cozinhar onde seus clientes estavam hospedados, entre muitas outras experiências.

Tudo para famílias abastadas e grandes executivos – CEOs brasileiros e internacionais, que Betenson prefere não identificar, e para quem sua agência oferece viagens totalmente customizadas.

PASSEIO DE BALÃO PELA CHAPADA DIAMANTINA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

COMO TUDO COMEÇOU

Paulistano filho de britânicos, Betenson se graduou na Les Roches Global Hospitality Education, localizada na vila de Bluche, em meio à paisagem alpina da Suíça.

Trata-se de uma instituição de elite, uma das quatro melhores faculdades do planeta nas áreas de gestão de hotelaria e lazer, de acordo com o ranking QS World University.

A cada semestre,  mais de uma centena de empresas enviam seus representantes ao campus para cooptar futuros funcionários, a exemplo das redes Ritz, Hyatt e Four Seasons. A maioria dos alunos recebe ofertas de emprego antes mesmo de concluir o curso.

Um dos pontos fortes do currículo são disciplinas vinculadas ao empreendedorismo e à inovação. Tanto é que, de cada cem alunos, 33 se tornam empresários, como Betenson, que ali aprendeu quão sofisticado deve ser o atendimento quando o assunto é hospedagem.

Quando voltou ao Brasil, em 1992, não encontrou nada similar ao que viu na Europa. Betenson recorda que alguns anos depois, a abertura do Renaissance São Paulo Hotel  se estabeleceria como a primeira referência de um hotel de luxo no Brasil.

Decidiu, então, especializar-se no que, a seu ver, melhor representava o turismo brasileiro: o Pantanal.

Com 22 anos, assumiu o posto de gerente de alimentos e bebidas da pousada Caiman, em seguida promovido aos cargos de gerência operacional e geral.

Ao longo de cinco anos, recebeu clientes muito diferenciados que começaram a lhe pedir roteiros mais ousados pelo Pantanal.

Desafiado pela demanda dos clientes, criou novos produtos de luxo focados em experiências oferecidos pela própria Caiman, como passeios exclusivos em iates e jantares a beira do rio.

JANTAR PRODUZIDO PELA MATUETÉ À BEIRA DE UM RIO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quase dez anos depois, o hoteleiro deixou o Mato Grosso para trabalhar em hotéis corporativos na capital paulista. Para sua surpresa, os hóspedes que ele costumava receber começaram a lhe requisitar roteiros de viagens sob medida.

Entre os pedidos, o executivo de um grande banco queria uma viagem ultraproduzida para a Chapada Diamantina, na Bahia.

Para desenvolver o itinerário, Betenson foi a campo pesquisar o destino e formatou uma programação bem diferenciada em que levou o francês Laurent Suaudeau e a baiana Dadá para cozinhar exclusivamente para seus clientes.

Após o sucesso da viagem, ele entendeu que havia no Brasil, um espaço de negócios a ser ocupado. "Como uma pessoa abastada viajava para um destino não preparado? Alguém tinha que desmistificar isso", diz.

VIAGEM À GARGANTA DEL DIABLO, NO DESERTO DO ATACAMA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi então que Betenson cogitou a possibilidade de montar uma empresa  que criasse viagens pontuais para lugares sem grandes estruturas, porém muito solicitados, em que montaria autênticas superproduções –convertendo ambientes básicos em  hotel cinco estrelas.

Depois de organizar viagens e de conhecer muita gente do ramo, Betenson se juntou a outros três sócios: Anita Besson Moraes Abreu, Susanna Lemann -mulher do empresário Jorge Paulo Lemann, do grupo 3G Capital, controlador da Ambev -e Martin Frankenberg. Com eles, fundou a Matueté, em 2002.

SERVIÇO CINCO ESTRELAS

Nos últimos 15 anos, a agência acumula viagens e histórias. Em uma das ocasiões, levou um grupo para Bonito, no Mato Grosso do Sul. Para tanto, todos os chuveiros de um hotel foram trocados, assim como toalhas e lençóis, entre outros pequenos reparos, só para receber os turistas da Matueté.

Toda a repaginada elevou em R$ 100 o preço da diária, que passou a ser de R$ 350. Um preço totalmente simbólico para esse grupo de clientes, de acordo com Betenson.

Nas primeiras viagens da Matueté para os Lençóis Maranhenses, por exemplo, Betenson levava cortina para banheiro, papel higiênico e amenities.

Depois de seis anos produzindo viagens, eles passaram a receber amigos estrangeiros desses brasileiros que se tornaram clientesda agência. Hoje, 30% da demanda da agência tem origem internacional.

Em 2016, por exemplo, a Matueté ficou responsável pela comemoração de um aniversário de 60 anos em que 30 pessoas viajaram para a Itália.

A programação incluía uma visita a Montalcino, cidade do vinho Brunello e onde o grupo pode produzir um barril de 230 litros da bebida, que daqui a quatro anos terá todas as garrafas importadas com um rótulo personalizado para ser servido em um Bar Mitzvah de um adolescente.

“Quanto custou isso? Nada. A importação daqui a quatro anos é que terá um custo, porém irrisório, pois dará continuidade a uma celebração familiar”, diz.

UMA DAS CASAS UTILIZADAS PELA MATUETÉ EM BÚZIOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

HOTEL X MANSÕES

A falta de hotéis de qualidade no país levou a agência a investir em casas particulares -grandes mansões, na verdade, para aperfeiçoar a experiência de quem viaja com a Matueté.

A primeira aconteceu em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, quando uma equipe de 22 funcionários, ficou a disposição de 10 turistas.

“Em uma casa, conseguimos personalizar tudo com mais facilidade. Em hotéis, muitos atendentes não falam inglês, dispõem de horários preestabelecidos para as refeições e engessam nosso modelo de atuação”.

Para garantir que tudo funcione com perfeição, essas viagens também são acompanhadas por uma espécie de coordenador, chamado pela empresa de anfitrião.

São profissionais freelancers de diferentes campos de atuação – de produtores de teatro a biólogos, de jornalistas a arquitetos - todos com fluência em inglês e muita experiência em viagens, além de uma imensa facilidade em se relacionar com pessoas muito diferentes.

Sem revelar o valor médio de uma dessas viagens personalizadas, Betenson diz que cada dia de viagem custa a partir de 500 dólares.

Para quem viaja pela primeira vez com a agência, a Matueté cobra uma taxa de R$ 1,2 mil para uma entrevista pessoal.

Com base em tudo o que é diagnosticado, a agência apresenta até dois roteiros com foco em experiências bem afastadas dos circuitos convencionais de turismo. E como luxo nunca é demais, o céu é o limite.

FOTO: Ana Ferriani/Divulgação