Burnout: a síndrome do esgotamento profissional - Vida e Estilo - Diário do Comércio
 
   

Burnout: a síndrome do esgotamento profissional


Três em cada dez brasileiros sofrem com esse distúrbio que compromete pessoas e empresas


  Por Thais Ferreira 02 de Setembro de 2016 às 13:00

  | Repórter tferreira@dcomercio.com.br


No filme Tempos Modernos, de 1936, Charlie Chaplin encarna um operário de uma fábrica. As cenas clássicas dessa obra mostram a repetição do trabalho, a cobrança do chefe e a frustração do funcionário por não conseguir realizar todas as tarefas. Tudo isso é retratado com o humor característico do genial cineasta. 

Na época em que o longa foi filmado, os teóricos ainda não tinham uma definição para o distúrbio que o personagem enfrentava.

Somente na década de 1970, o médico alemão Herbert Freudenberger utilizou pela primeira vez o termo Síndrome de Burnout para classificar o esgotamento mental e emocional relacionado à vida profissional.  Em inglês, o termo significa esgotar ou queimar totalmente até desaparecer.  

O distúrbio, no entanto, existe há mais tempo do que a data de sua classificação. Especialistas apontam esse mal como uma das consequências da aceleração do tempo na modernidade e das mudanças nas relações de trabalho após a revolução industrial. 

CENA DO FILME TEMPOS MODERNOS. /FOTO: DIVULGAÇÃO

NA PELE

Os sintomas do esgotamento se manifestam de diversas formas: cansaço constante, irritabilidade, ansiedade, dificuldade de realizar as tarefas do trabalho e isolamento.

A maioria dos especialistas enfatiza a predominância de sintomas mentais, mas geralmente é somado a manifestações psicossomáticas, como insônia, úlceras, dores de cabeça e hipertensão. 

De acordo com Doutor Mário Louzã, médico e professor da USP, a síndrome é desencadeada, geralmente, por uma situação de estresse intenso no ambiente de trabalho: metas difíceis de alcançar, excesso de tarefas e de cobrança e uma jornada intensa de trabalho sem o descanso necessário. 

O esgotamento não se manifesta do dia para a noite. É um processo cumulativo que pode demorar anos ou décadas para se desenvolver completamente. 

Estudos apontam uma maior incidência da síndrome em algumas profissões, como professores, policiais, enfermeiros e médicos. “São pessoas que têm de lidar com turnos seguidos e muitas responsabilidades”, afirma Louzã.  

Mas nenhum profissional está a salvo. Foi o caso de Helloá Regina, de 23 anos, servidora pública, que repentinamente começou a sentir uma série de sintomas, como dor de cabeça, azia e dificuldade para dormir. 

Nessa época, ela não associava essas ocorrências ao trabalho. “Os sinais foram aparecendo aos poucos. Achava que era algo passageiro e ignorei”, afirma Helloá. A situação foi piorando, até que se tornou insustentável. 

Quando ela percebeu que a rotina desgastante do trabalho estava afetando sua saúde, Helloá tentou conversar com sua chefe. 

“Ela me aconselhou mudar de profissão, apesar de elogiar meus conhecimentos, disse que eu era fraca e não aguentava o tranco”, afirma. 

A situação se agravou. Muitos colegas de trabalho também estavam sofrendo, mas tinham medo de serem penalizados caso reclamassem da pressão que sofriam.

Helloá decidiu procurar ajuda no setor de Saúde do Trabalhador. Foi encaminhada para diversos médicos até ser diagnosticada com Síndrome de Burnout. 

“O tratamento consiste em descanso. Outro ponto fundamental é tirar a pessoa do ambiente nocivo”, diz Louzã. 

Foi o que a funcionária pública fez. Ela permaneceu afastada do trabalho, foi submetida a um tratamento psicoterapêutico e, quando retomou as atividades, decidiu mudar de setor.

Hoje, ela descreve sua rotina como tranquila e garante que tem um bom ambiente de trabalho. “A síndrome permitiu meu crescimento e amadurecimento”, afirma Helloá. 

Além de suas atividades profissionais, ela estuda a síndrome e se dedica informar e auxiliar pessoas que estão passando por situação similar a que ela viveu. Ela criou a página do Facebook "Vencendo o Burnout", que funciona com um grupo de apoio e espaço de discussão sobre o tema. 

Um caso parecido é da professora G.A.S*, de 44 anos. Após oito anos de profissão, ela foi demitida assim que recebeu o diagnostico da síndrome.

Por meio de um mandado judicial, ela conseguiu ser readmitida. Hoje, ela apenas cumpre horas e espera assumir novas funções. Por recomendação médica ,ela não pode voltar para salas de aula.

A situação da professora é bastante grave porque foram somadas outras doenças, como síndrome do pânico e ansiedade.

Ela tentou o suicídio e quase foi internada numa clinica psiquiátrica. “Cada dia é uma luta pra levantar da cama e cumprir o dia”, afirma G.A.S.

Além do tratamento, ela está escrevendo um livro para difundir a Síndrome de Burnout. A obra irá trazer diversos aspectos da doença, entre eles a visão do paciente, o aspecto jurídico, as terapias e os tratamentos nutricionais. 

DR. MARIO LOUZÃ, PSIQUIATRA 

CRISE E SAÚDE MENTAL

Helloá e G.A.S. não são uma exceção. De acordo com uma estimativa do International Stress Management Association no Brasil (ISMA – BR), três em cada dez brasileiros sofrem com a síndrome de Burnout. 

Os números podem piorar nesse próximo ano devido ao agravamento da crise econômica. Equipes reduzidas - por causa de corte de custos - geram trabalho extra para diversos funcionários que começam a se sentir sobrecarregados.

Além disso, algumas empresas estipulam metas que não condizem com a situação econômica do país e muitos trabalhadores convivem com o risco eminente de perder o emprego. 

Esse cenário é propício para que doenças como depressão, ansiedade e Síndrome de Burnout se alastrem entre a população economicamente ativa.

De acordo com dados do Ministério do Trabalho, os distúrbios mentais estão na terceira posição dos males que mais afetam trabalhadores, perdendo apenas para os traumas e lesões musculares.

De acordo com o Dr. Mário Louzã, é fundamental que os empresários e as pessoas em cargos de liderança entendam o perfil de seus funcionários. “Há pessoas que gostam de  sobrecarga no trabalho e outras que toleram menos. Cabe que aos chefes saberem equacionar”, diz. 

Helloá acredita que é preciso rever modelos antigos de liderança. “Ser chefe não é só mandar, é preciso saber influenciar positivamente as pessoas”, afirma. 

*A entrevistada solicitou que não fosse identificada  

FOTO: thinkstock