São Paulo, 04 de Dezembro de 2016

/ Tecnologia

Um pedaço do Vale do Silício em Heliópolis
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Visitei o laboratório de inovação do Facebook em Heliópolis, um projeto pioneiro no mundo que ensina pequenos empreendedores a utilizarem a rede social

Desde que participei da matéria especial Os Negócios da Quebrada em fevereiro deste ano, o tema empreendedorismo nas periferias começou a despertar meu interesse. Durante a apuração, conhecemos tantas pessoas inspiradoras e histórias interessantes que fiquei mais atenta ao que acontecia nas comunidades paulistanas.

Por isso, quando o Facebook anunciou um laboratório de inovação na comunidade da zona sul de São Paulo, meus olhos brilharam: era a oportunidade de tratar sobre esse assunto mais uma vez. 

O espaço foi inaugurado em março, em parceira com a UNAS, a União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região. O evento de abertura teve pompa e circunstância com a presença de figurões, como Aldo Rebelo, Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação; Roberto Agune, coordenador de Inovação em Governo da Secretaria do Planejamento e Desenvolvimento Regional do Estado de São Paulo; Nádia Campeão, vice-prefeita de São Paulo.

Não perdi a oportunidade de conhecer o projeto com meus próprios olhos. Marquei de assistir uma das aulas. A grade horária é dividida entre cursos ministrados pelo próprio Facebook e por instituições parceiras como o IAB (Interactive Advertising Bureau) e o Sebrae. Os temas são relacionados a empreendedorismo, marketing e sobre as próprias ferramentas do Facebook. 

Chegar em Heliópolis não foi uma tarefa fácil, o taxista não conseguia localizar o endereço da sede da UNAS – lugar marcado para que eu fosse levada até o laboratório – no GPS. Tivemos que procurar por locais próximos. Ao nos aproximarmos da região, o motorista ficou com medo de entrar nas ruelas. Sai do carro e decidi ir caminhado. Para minha sorte, estava a menos de cinco minutos do local.  

Ao entrar na UNAS, fui recebida por Weslly Santos, de 26 anos, morador da comunidade, estudante de marketing e um dos jovens escolhidos para trabalhar no projeto do Facebook. Ele me acompanhou até o laboratório. Durante a caminhada por ruas estreitas e íngremes, Weslly foi me contando que os moradores estavam adorando as aulas e que algumas turmas ficam lotadas. 

Após observar a paisagem, ficou evidente a veia empreendedora de Heliópolis – a cada cinco casas uma tinha comércio. Passei por inúmeros açougues, quitandas, cabeleireiros, manicures, lojas de roupas e lanchonetes. 

“Tem muita gente abrindo negócios aqui, mas falta uma visão mais profissional. A maioria dos comerciantes fica sentando assistindo televisão e esperando os cliente virem até ele”, disse Weslley. 

Fachada do Laboratório: o projeto é pioneiro no mundo

A AULA

O Laboratório de Inovação do Facebook fica no alto de uma ladeira, num espaço cedido pela UNAS. A sala do laboratório é equipada com 15 computadores e um projetor e foi decorada com quadros coloridos e com o logotipo do Facebook.  

Ao chegar, fui apresentada para os alunos: um grupo heterogêneo formado por pessoas de várias idades. Muitos deles eram donos de pequenos negócios, como Cirlene Rodrigues do Nascimento, do Charmys Cabelereiro, que decidiu fazer o curso para aprender a divulgar seu salão de beleza. Além dela, conheci também Dayse Vilela Duarte, que faz artesanatos e que quer vender seus produtos através do Facebook. 
 
O tema da aula, ministrada por Camila Fusco, diretora de empreendedorismo do Facebook, era sobre os perfis pessoais na rede social e o uso das ferramentas de privacidade. As explicações alternavam entre noções básicas e configurações mais avançadas. Confesso que, mesmo sendo usuária ativa do Facebook, desconhecia algumas das funções mostradas. Os alunos prestavam atenção a cada detalhes, tiravam dúvidas e interagiam. 

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Enquanto Camila fazia as explicações, os participantes repetiam os ensinamentos nos computadores. De repente, o conteúdo teve que ser interrompido: a aula de 2 horas chegava ao fim. Todos os alunos pegaram um cartão de presença e, no final do curso, eles receberão um certificado que será entregue na sede do Facebook no Brasil. A próxima aula era sobre marketing, mas tive que correr para conseguir entrevistar a Camila antes que ela fosse embora. 

Camila Fusco, diretora de empreendedorismo do Facebook e uma das professoras do curso

O PROJETO 

Durante o caminho de volta até a sede da UNAS, Camila Fusco me contou que o Brasil foi pioneiro na criação desse projeto. Nenhum dos escritórios do Facebook ao redor do mundo tem um programa similar. 

A ideia surgiu após a equipe do Facebook percorrer diversas feiras de empreendedorismo. Durante uma dessas viagens, um comerciante de uma comunidade carioca apareceu com o dinheiro na mão pedindo para anunciar na rede social. “Percebemos que existe um grande potencial dentro das periferias, muitos empreendedores querem usar o Facebook, mas não sabem como”, disse Camila. “Decidimos fazer esse projeto para ensinar o uso dessas ferramentas e também para incentivar o empreendedorismo dentro das comunidades.”

Após uma pesquisa em diversas comunidades paulistas e cariocas, Heliópolis foi a escolhida. De acordo com o levantamento feito pelo Facebook, 90% dos cerca de 190 mil moradores da região utilizam a rede de relacionamentos. No entanto, 86% dos 5.000 comerciantes da comunidade não têm uma página de seu negócio. Além disso, a maioria ainda não sabe como utilizá-la para alavancar suas vendas.

Mas não foram apenas os números que levaram o Facebook até Heliópolis, a própria dinâmica da comunidade foi fundamental para essa escolha. “Alguns locais que visitamos serviam apenas como dormitório, ou seja, as pessoas trabalham ou estudam fora e só voltam para dormir. Em Heliópolis, tem muita gente que realiza todas as suas atividades aqui dentro, ou seja, elas têm mais tempo para realizar esses cursos”, afirmou Camila. 

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O Facebook não foi o único que enxergou o potencial da favela da zona sul de São Paulo. A Coca-cola também tem um projeto que oferece cursos para capacitar jovens da região para o mercado de trabalho. Ao fim do programa, alguns alunos são selecionados para terem o primeiro emprego dentro da própria Coca-cola. Essa iniciativa já está presente em diversas periferias brasileiras. 
 
A empresa de Mark Zuckerberg tem as mesmas pretensões. Se o projeto tiver bons resultados em Heliópolis, o laboratório de inovação vai ser levado para outras comunidades.  

Veja mais detalhes do laboratório: 



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