São Paulo, 28 de Setembro de 2016

/ Tecnologia

Tente resistir à sedução da gaiola da Apple‏
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Ecossistema da Apple é como uma prisão - uma vez que você se registra, talvez nunca mais possa sair

No final de 2012, Tim Cook trabalhava havia pouco tempo como diretor-executivo da Apple, e fez uma súbita e potencialmente arriscada mudança na hierarquia executiva da empresa. Cook demitiu Scott Forstall, o responsável pelo sistema operacional móvel da Apple, a mais importante peça de software produzida pela empresa. Forstall era há tempos um dos preferidos de Steve Jobs, mas além de ser o responsável por algumas falhas históricas – incluindo o aplicativo de mapas da Apple – ele era conhecido por sua combatividade dentro da empresa.

Cook tinha pouca paciência com esse tipo de atitude. Como mais tarde explicou em uma entrevista concedida à Bloomberg Businessweek, a reformulação teve como objetivo “nos levar a outro nível de colaboração”. Em aparições públicas desde então, Cook tem repetidamente retornado a essa ideia de coesão. A Apple, ele gosta de frisar, é a única entre as empresas do setor a produzir toda a coleção de tecnologia digital que as pessoas usam diariamente: os dispositivos que todos desejam, os sistemas operacionais que lhes dão poder e os aplicativos e serviços que os tornam úteis.

Agora, estamos começando a ver os frutos da visão que Cook teve de uma Apple mais coesa. Nos últimos meses, a empresa lançou uma série de dispositivos que funcionam melhor como parte de uma linha integrada. A Apple já não faz mais produtos que funcionam individualmente. Seus telefones, tablets, computadores, celulares e os sistemas operacionais que os fazem funcionar estão se misturando em um único conjunto indissociável.

No minuto em que você usa um deles, faz mais sentido começar a usar vários outros. E quanto mais coisas da Apple você usar, melhor será a sua experiência.

Mas, tome cuidado. O maravilhoso ecossistema da Apple é um pouco como o Hotel Califórnia (da música do Eagles): uma vez que você se registra, talvez nunca mais possa sair. Como expliquei em fevereiro, isso pode ser um problema. É sensato dividir seu tempo no computador e seu dinheiro entre as plataformas tecnológicas dominantes, pois se qualquer uma delas morrer ou começar a agir de maneira estranha, não vai ser tão difícil escapar para outra. A melhor estratégia é sempre a mesma: comprar hardware da Apple, usar serviços do Google e obter material de mídia da Amazon. Dessa forma, você está no melhor dos mundos – o hardware da Apple é ótimo, os serviços do Google são onipresentes e as mídias vendidas pela Amazon são baratas e funcionam em qualquer lugar – mas você nunca vai ter de se comprometer totalmente.

Durante uma semana, para testar a Apple, ignorei meu próprio conselho e mergulhei totalmente no seu ecossistema. Usei seu mais recente iPhone, seu mais recente iPad e o brilhante computador novo, que começou a ser vendido em outubro, o iMac com uma tela de Retina 5K. Usei também a versão mais recente do sistema operacional do Mac, o Yosemite, e o iOS 8.1, o sistema operacional móvel da Apple para telefones e tablets.

E, tanto quanto era possível, tentei adaptar a maior parte do meu trabalho para os aplicativos da Apple. Deixei de lado o navegador Google Chrome para testar o Safari, passei do Gmail para o aplicativo Apple Mail, e comecei a escrever meus artigos no Pages, o aplicativo de processamento de texto da Apple em vez de usar o Microsoft Word. Também paguei minhas compras com o Apple Pay.

O que descobri foi, na maior parte dos casos, exatamente o que a Apple prometeu: uma integração de hardware e software que funciona intuitivamente à medida que você transita entre os magníficos dispositivos.

No passado, os dois sistemas operacionais da Apple eram ilhas distintas. O sistema executado no Mac e o sistema dos dispositivos móveis tinham uma aparência visual totalmente diferente, e o que acontecia em cada um geralmente permanecia por lá. Agora, com o Yosemite, o Mac compartilha a estética geral do iPhone, com vários ícones bastante semelhantes nas duas plataformas.

O resultado é uma bem vinda redução na nossa carga cognitiva. Quando você muda de um tipo de máquina para outro, botões e outros comandos em geral parecem ser os mesmos, assim você precisará adivinhar menos o que acontecerá quando pressionar cada um deles. Se estiver familiarizado com o botão Compartilhar no seu iPhone – um inexplicável retângulo com uma seta para cima – quando ele aparecer no seu Mac fará todo o sentido. No Finder, você clica em Compartilhar para enviar um documento ou postar uma foto no Facebook. No Safari, clique em Compartilhar para mandar um link para o Twitter. Muitos botões funcionam da mesma maneira; em todos os dispositivos, no hardware e nos software da Apple eles em geral fazem exatamente o que você acha que vão fazer.


As plataformas da Apple, em geral, permitem que você compartilhe a conexão de dados do celular entre o Mac e o seu telefone, e também que continue de onde parou quando mudar do telefone para o tablet ou para o computador

Até que isso não aconteça. O ecossistema da Apple agora está tão integrado que as coisas que ainda não foram unidas destacam-se de maneira assustadora e irritante. Agora alguns dos ícones do Mac estão desnecessariamente diferentes daqueles dos dispositivos iOS, às vezes tão diferentes que parece que os designers estavam mal-intencionados. No iOS, o ícone do aplicativo de mensagens é verde e branco. No Mac, ele é azul e branco. Nos novos iPhones, o botão Liga/Desliga é do lado direito do aparelho. Nos novos iPads, na parte de cima. Essas não são grandes falhas, mas a Apple é uma empresa obcecada por detalhes, e alguns detalhes foram deixados de lado.

O mais evidente esforço para promover a integração entre os dispositivos móveis e o Mac é um conjunto de recursos que a Apple chama de Continuidade. Em geral, eles permitem que você compartilhe, por exemplo, a conexão de dados do celular entre o Mac e o seu telefone, e também que continue de onde parou quando mudar do telefone para o tablet ou para o computador. Numa primeira olhada, isso não parece ser muito novo. A maioria dos smartphones, incluindo o iPhone, há muito tempo têm a capacidade de compartilhar suas conexões com computadores. O Google já permite que você sincronize seus dados entre vários dispositivos; você pode ver no seu PC a noite as abas do Chrome que abriu no seu telefone de manhã. E uma grande variedade de programas de terceiros, com destaque para o Dropbox, permitem o compartilhamento de arquivos.

Mas a maneira como a Apple programou todas essas funcionalidades destaca-se pela sua simplicidade e facilidade de utilização. Por exemplo, o recurso Instant Hotspot. Quando você vai para o menu do Mac para escolher uma conexão Wi-Fi, verá o seu telefone listado, se o celular estiver perto do computador. Em geral, não há nenhuma senha ou configuração necessária; basta selecionar a opção e está tudo pronto, o computador agora pode se conectar à internet através de seu telefone.

A mesma coisa acontece com as chamadas e as mensagens. Quando o telefone toca ou você recebe uma mensagem, surgirá uma notificação no seu Mac, e você pode até mesmo atender e conversar no chat a partir do computador. Ou procurar caminhos no aplicativo de mapas da Apple. Quando você pegar seu telefone, poderá ver um pequeno ícone do Mapas na parte inferior direita da tela de bloqueio. Deslize-o para cima e pronto, as direções que você procurou também estão no seu telefone (a maioria desses recursos deveria funcionar automaticamente. Mas, se isso não acontecer, você talvez tenha que ligar alguns deles manualmente).

A Apple abriu algumas dessas funcionalidades para os desenvolvedores, de modo que, em breve, aplicativos de terceiros também poderão migrar facilmente entre Macs e dispositivos móveis da Apple.

Os esforços de integração da Apple trazem várias promessas para aliviar um dos mais difíceis desafios da era digital: gerenciar a transição entre as diferentes telas que encontramos todos os dias.

Ainda assim, fiquei um pouco desconsolado em ver como a Apple trabalhou bem. Eu não quero ter que migrar para um único ecossistema. Mas a bela prisão da Apple pode ser confortável demais para resistir.

Por Farhad Manjoo/The New York Times 



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