São Paulo, 27 de Julho de 2017

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Febre entre jovens, Musical.ly alcança 7,5 mi de brasileiros
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O aplicativo, que permite compartilhar vídeos curtos e com efeitos, desbancou Instagram, Snapchat e Facebook na preferência de adolescentes

Responda rápido: qual rede social é o grande sucesso do momento entre os adolescentes? Se arriscou Instagram, Snapchat ou Facebook, você passou longe. Atualmente, o aplicativo que mais chama a atenção dos jovens - e que é totalmente desconhecido para os pais - é o Musical.ly.

O serviço, que permite compartilhar vídeos curtos e com efeitos, já conquistou mais de 7,5 milhões de usuários no Brasil.

Mistura de várias redes sociais populares, o Musical.ly surgiu em 2014 como um aplicativo para dublagem - assim como o Dubsmash, outro sucesso da época.

A ideia é simples: coloque sua música preferida de fundo e finja que está cantando. Antes de compartilhar o vídeo de 15 segundos, adicione efeitos especiais, de filtros a transições.

Para quem não quer gravar, mas só se divertir, a plataforma permite encontrar vídeos de humor, comportamento, maquiagem, dança e até gravações divertidas com animais de estimação. A maioria deles foi gravado por meninas da mesma idade dos espectadores.

Independente do assunto tratado, vídeos óbvios não têm vez na rede: os mais assistidos são produções com muitos efeitos visuais, que deixam o conteúdo mais dinâmico e leve de assistir.

Quem consegue o feito, viraliza rápido e começa a circular entre os mais de 200 milhões de usuários globais.

"Todo mundo que eu conheço estava usando o Musical.ly", conta a estudante Fernanda Popp, de 16 anos, que entrou na rede social em 2016.

"É um aplicativo diferente porque você tem de ser criativo do seu próprio jeito, deixar o aplicativo mais divertido para conquistar as outras pessoas. É disso que eu gosto numa rede social."

Segundo ela, muitos usuários que ficaram "órfãos" quando os aplicativo Vine e Dubsmash foram cancelados acabaram migrando para o Musical.ly.

Quem gosta de usar o Snapchat, outro app popular entre os jovens, também acaba se interessando. Essa onda fez o aplicativo se popularizar mais rapidamente entre os adolescentes e também entre celebridades, como a cantora Selena Gomez.

"A gente pensou em atrair os jovens com uma plataforma que reunisse música, dança e interação", diz o fundador e presidente executivo do Musical.ly, Alex Zhu, em entrevista ao Estado.

A partir de agora, Zhu tenta ampliar o público que se interessa pelo aplicativo - majoritariamente adolescentes e jovens, entre 13 e 23 anos, do sexo feminino.

"As pessoas estão começando a descobrir o aplicativo", afirma Karen Oliveira, diretora geral do app para a América Latina. "As crianças e pré-adolescentes que já estão no aplicativo nos ajudarão a ampliar os usuários do Musical.ly".

FAMA

Não é apenas de pessoas comuns que vive o Musical.ly. Influenciadores digitais, como os youtubers, são chamados de "musers" na rede social. Eles se destacam por produzir conteúdos originais e muito bem editados. Alguns já chegaram à marca de mais de 1 milhão de seguidores.

A paulistana Luara Fonseca, de 12 anos, se tornou um dos fenômenos na rede. A estudante do sétimo ano já tem 5 milhões de seguidores e, geralmente, ganha mais de 250 mil curtidas em cada publicação. "Gosto de fazer comédia, dublagem", conta a menina, que também é embaixadora da rede. "Só não canto porque não sei." Questionada sobre a fama e o status de celebridade na rede, Luara se mostra surpresa: "É incrível".

Alguns "musers" também já perceberam que dá para ganhar dinheiro. Para isso, o app permite que usuários comprem moedas virtuais - vendidas em dólares - para adquirir e enviar presentes aos influenciadores durante as transmissões ao vivo.

Cada presente é revertido em um valor para o "muser", enquanto parte do dinheiro vai para o próprio Musical.ly.

"As crianças mandam presentes, que aparecem na nossa tela enquanto fazemos um vídeo ao vivo", explica a "muser" Calú Spallicci, de 23 anos, e que é seguida por mais de 680 mil pessoas.

"Elas mandam para ter destaque e receber atenção, já que o "muser" pode conversar com a gente, mandar recados. Cria interação com os nossos seguidores." O Musical.ly e os influenciadores, porém, não revelam quanto ganham.

PEDRAS NO CAMINHO

Apesar do sucesso, a plataforma precisa superar alguns entraves para se consolidar. O principal é garantir que os usuários mantenham o aplicativo instalado em seus smartphones - ele exige muita memória e consome muitos dados.

"Cada região possui desafios específicos", afirma Zhu. "Na América Latina, nosso desafio é a qualidade do sinal de internet e a memória mais restrita do celular." 

Para o analista da consultoria Nielsen, José Calazans, outra desvantagem do app é ser uma rede específica. "O aplicativo não consegue criar outras funções, não pode se reinventar", diz.

"Isso torna difícil a competição. Se o Facebook criar uma funcionalidade parecida, usuários vão abandonar o Musical.ly."

Usado principalmente por crianças, adolescentes e jovens entre 13 e 23 anos, o Musical.ly tem a responsabilidade de criar um ambiente seguro dentro da rede social, para que os menores de idade possam produzir vídeos e buscar conteúdos de outros usuários com tranquilidade e sem preocupar os pais e responsáveis.

No entanto, a plataforma de vídeos rápidos ainda tem dificuldades que precisam ser superadas, como a criação de mecanismos para impedir crianças de se cadastrarem e vetar a publicação de imagens de nudez.

Ao utilizar a busca de tags disponível dentro da plataforma, a advogada Chiara de Teffé, pesquisadora do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS-Rio), encontrou conteúdos de garotas nuas na plataforma.

Em um vídeo de pouco mais de 15 segundos, uma mulher exibe partes íntimas para a câmera, ao som de músicas do funkeiro MC Kevinho.

Em seu perfil, a usuária que postou os vídeos alega ter 17 anos e tem pouco mais de 100 fãs e 200 curtidas em seu perfil e em seus vídeos. Nos comentários, jovens usuários das redes sociais comentam frequentemente os vídeos postados e pedem novos conteúdos.

"Bastou uma busca um pouco mais aprofundada para conseguir encontrar vídeos com conteúdo adulto", afirma a advogada.

"Deveria haver uma forma mais fácil para que usuários denunciassem conteúdos impróprios. Não é uma plataforma fácil de usar."

Para conseguir denunciar conteúdos inapropriados, usuários precisam entrar nas opções do vídeo e procurar o botão "reportar abuso". Assim, o conteúdo será analisado. Para a especialista, uma opção mais visível e de fácil acesso para crianças e pais seria o ideal.

Em nota enviada ao Estado, o Musical.ly afirma que trabalha para impedir que tais problemas aconteçam e que está sempre atento às denúncias de usuários.

"O Musical.ly não tolera a veiculação de nenhum tipo de conteúdo adulto ou obsceno no aplicativo. A plataforma possui uma equipe exclusiva dedicada 24 horas por dia para identificar e retirar esse tipo de material, além de realizar o bloqueio das contas. O aplicativo ainda possui um botão para que os próprios usuários reportem e notifiquem conteúdo impróprio", disse a empresa.

O fundador e presidente executivo da companhia, Alex Zhu, afirmou que impedir a veiculação de conteúdo adulto é uma das principais preocupações da plataforma. "Da nossa parte há uma grande preocupação em oferecer o conteúdo certo e que esteja direcionado para a idade dos jovens", disse o executivo ao Estado.

VIOLAÇÃO

Além dos problemas com conteúdo impróprio veiculado na rede social, o Musical.ly enfrenta um problema cada vez mais comum para as redes sociais: ter usuários menores de 13 anos cadastrados.

De acordo com os termos de uso do Musical.ly, o cadastro de crianças menores de 13 anos é vetado, mas, em uma rápida busca na plataforma, facilmente são encontrados usuários que declaram idade menor do que a permitida na descrição do perfil.

"A maior parte dos usuários do Musical.ly tem entre 8 e 15 anos de idade", explica a "muser" Calú Spallicci, uma das principais celebridades da rede social.

"No Musical.ly, a gente se acostumou a fazer uma comédia sem palavrões, mais leve e familiar. As coisas hoje estão sendo feitas mais para as crianças. Afinal, elas têm mais tempo para usar o celular e ficar mexendo nas redes sociais."

Por causa deste público específico, especialistas apontam que é essencial que a rede aprimore o detalhamento no cadastro e, principalmente, promova uma política de educação digital mais constante em escolas e sociedade.

"A rede social precisa de um acompanhamento mais intenso por parte dos pais e dos responsáveis dos usuários", afirma a advogada Chiara de Teffé.

"Mas, mais do que isso, é preciso promover a educação digital dos jovens e dos pais em escolas, entidades e na própria internet. Só assim para termos um uso mais responsável das redes sociais. Este é um caminho para que todo mundo use suas redes de maneira mais responsável."

IMAGEM: Reprodução



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