São Paulo, 23 de Julho de 2017

/ Tecnologia

Brasil está vários passos atrás na adoção de novas tecnologias
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Para Carlos Carnevali Júnior (na foto), presidente do grupo IHC, o déficit na formação de profissionais, a instabilidade do real frente ao dólar e a rede de telecomunicações precária são algumas das razões que explicam o atraso

No século passado, uma nova tecnologia demorava décadas para ser adotada no Brasil. Foi assim com as primeiras transmissões para a televisão a cores, por exemplo.

Em 1954, os Estados Unidos foi o pioneiro. Os brasileiros demoraram 18 anos para ver as primeiras imagens coloridas na telinha.

Hoje, com a velocidade das inovações cada vez mais acelerada, acreditamos que a defasagem praticamente não existe mais. Mas não é bem assim.  

De acordo com Carlos Carnevali Júnior, presidente do grupo IHC - composto pelas empresas de tecnologia da informação inLearn, HighCast e CYLK - , o Brasil está entre três e cinco anos atrás de países com alto grau de desenvolvimento tecnológico.

Se para os consumidores esse período já faz diferença, para as empresas, esses anos podem ser cruciais na competição pelo mercado mundial.

Com mais de 20 anos de experiência no mercado de tecnologia, Carnevali voltou recentemente de feiras e encontros nos Estados Unidos.

Nesta entrevista ao Diário do Comércio, ele discorre sobre os motivos e as consequências dessa defasagem tecnológica.

Quanto tempo, em média, o Brasil leva para adotar novas tecnologias em relação a outros países com maior de grau desenvolvimento tecnológico?

Este é um tema muito discutido entre os profissionais do mercado de tecnologia brasileira. Meu cálculo é baseado em diversas experiências anteriores, como das migrações dos mainframes para os computadores pessoais ou das mudanças de rede proprietárias para redes de internet.

Acredito que o mercado brasileiro está defasado entre três e cinco anos em relação aos mercados maduros.

Quais são as causas desse atraso?

Três fatores importantes causam essa defasagem. O primeiro está relacionado com a formação dos profissionais.

Embora o Brasil tenha mais de 13 milhões de profissionais desempregados, há vagas abertas dentro do setor de tecnologia, principalmente devido à lacuna de formação.

O segundo motivo é histórico. Temos uma rede de telecomunicações ainda bastante precária. A penetração da banda larga ainda é muito baixa e a concentração nos principais polos econômicos ainda é muito alta.

Uma empresa com filial no centro-oeste do país certamente vai encontrar dificuldades para se conectar. E mesmo que ela encontre uma solução, o custo é muito caro. A conta nem sempre não fecha.

O terceiro ponto é cenário o macroeconômico. Principalmente, devido à instabilidade do real frente ao dólar e dos altos impostos de importação.

Temos uma carga tributária muita alta no setor. Um orçamento de TI no Brasil custa duas ou três vezes mais do que nos Estados Unidos.

Todos esses fatores colaboram para criar uma dependência. Os ciclos tecnológicos no Brasil não se renovam com a mesma velocidade que em outros outros países. Vamos ficando para trás.

A segurança também é uma barreira? Os empresários brasileiros ainda estão preocupados com essa questão?

Acredito que a segurança da informação deixou de ser uma preocupação. O Brasil não é um  foco de grandes ataques.

Esses crimes acontecem, geralmente, por motivações políticas e econômicas e, por isso, estão mais focados nos Estados Unidos, China e Europa. Não acredito que a segurança seja algo que tire o sono dos gestores de TI.

Como o comportamento dos brasileiros pode impedir adoção dessas tecnologias?

Eu ainda vejo muitos profissionais com um perfil antigo. Muitos gostam de criar uma dependência para garantir suas posições dentro das corporações.

As empresas costumam brincar que a TI é o “grupo do não”: não dá para fazer, não tem tempo e não tem verba.  

Vejo mudanças, principalmente na geração millennials. Mas ainda existe um nível de conservadorismo muito grande.

O mercado financeiro é um exemplo. São instituições com muito dinheiro e com profissionais interessados em manter o status quo. 

Quais são as consequências desse atraso.  O Brasil tem um potencial que não é aproveitado hoje?

A economia mundial está mudando. Já vivemos numa economia digital. Hoje, o setor de tecnologia de uma empresa não é mais encarado com um centro de custo, mas como um centro de eficiência.

A tecnologia está mudando o modelo de negócio das organizações. Empresas com uma visão antiga irão sofrer dentro da competição de mercado mundial.

Isso pode gerar uma baixa competitividade de vários setores nacionais num cenário mundial. Isso pode atrapalhar o crescimento do Brasil nos próximos anos.

O que o sr. acha que falta para o Brasil dar salto e se tornar um criador de inovações tecnológicas?

Em inovação falta o básico: investimento em educação. Os centros de inovação nascem nas universidades.  

O Vale do Silício se tornou efetivamente um lugar de inovação mundial, porque universidades como Stanford, Berkeleye e UCLA (Universidade da Califórnia) resolveram investir massivamente em capacitação, pesquisa e desenvolvimento.

Foi criado um ambiente favorável para que empreendedores e inovadores frutifiquem suas ideias. Enquanto, não tivermos um ambiente como esse, nosso poder de inovação vai continuar muito baixo.

A tecnologia se renova muito rápido, e o mercado brasileiro está muitos ciclos atrás em termos de criatividade, inovação e desenvolvimento.

Nesse cenário, pode ser muito difícil para o Brasil se tornar um fornecedor relevante no cenário mundial.

FOTO: Divulgação



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