São Paulo, 25 de Setembro de 2016

/ Sustentabilidade

Yunus, Nobel da Paz, investe em negócios sociais no Brasil
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Conhecido mundialmente como "banqueiro do microcrédito", o bengalês Muhammad Yunus vai financiar duas startups entre oito selecionadas por sua incubadora e lança uma rede com 12 universidades para desenvolver projetos em parceria com empresas brasileiras

“Não vou brigar por uma definição”, diz o economista bengalês Muhammad Yunus, Prêmio Nobel da Paz de 2006, à plateia atenta de professores, economistas e administradores que prestigia o lançamento da Rede Yunus de Universidades na Fundação Dom Cabral de São Paulo, em pleno feriado de 1º. de maio.

“Para mim, a empresa social é aquela que trabalha sem fins lucrativos para resolver problemas sociais. Mas há vários tipos de negócios sociais e todos são válidos desde que sejam eficientes. Não me ocupo com controvérsia acadêmica”.

De fato, deve haver dezenas, talvez centenas, de aproximações possíveis para o ancestral desafio que interpela a economia capitalista desde as origens: devem as empresas concentrar-se no negócio indiferentes à realidade social que as envolve, ou devem contribuir para a resolução de problemas sociais situados fora da agenda empresarial?

Adam Smith, o pai do capitalismo, achava “natural” conciliar prosperidade e solidariedade. Já o professor Milton Friedman, da Universidade de Chicago, afirmava que a responsabilidade social do negócio é aumentar o lucro.

Há inúmeros pactos empresariais, ações filantrópicas, selos de sustentabilidade e parcerias institucionais disponíveis às empresas que aderem às causas sociais.

Há alianças como o Pacto Global da ONU e o Conselho Empresarial Mundial para Desenvolvimento Sustentável, certificações como FSC, Leed e Fair Trade, métodos para relatar compromissos como Global Reporting Initiative e Indicadores Ethos e associações globais de empresas com crenças comuns como a aliança Empresas-B e os adeptos do “Capitalismo Consciente”.

Tamanha diversidade, periodicamente renovada com o surgimento de novos pactos, tendências e modas, já indica que o esforço para reformar a sociedade está enraizado em grande parte das empresas mundiais.

BANQUEIRO DOS POBRES

O empreendedorismo social de Yunus, sem dúvida, é um dos mais idealistas. “A teoria econômica é um conceito vazio se não tiver utilidade prática e ignorar as pessoas à sua volta”, diz o professor de 74 anos, cabelos grisalhos, calça imaculadamente vincada, bata xadrez azul e colete de linho, com fala mansa e baixa eloquência. Yunus não corresponde à imagem tradicional do líder carismático.

Em 1976, quando lecionava Teoria Econômica na Universidade de Chittagong, em Bangladesh, numa região devastada pela pobreza, o economista resolveu emprestar 27 dólares do próprio bolso a uma jovem de 21 anos que pagava 10% de juros ao dia a um agiota para comprar bambu e confeccionar tamboretes na vila de Jobra. Para o economista a resiliência e a persistência são as grandes qualidades dos pobres. “As pessoas resistem, lutam e enfrentam os problemas como podem, e raramente desistem”.

O economista encontrou 42 mulheres nas mesmas condições na vila e resolveu emprestar-lhes dinheiro a taxas de juros normais. Para sua surpresa, recebeu tudo de volta, com pontualidade, e passou a fornecer pequenas quantias a agricultores, artesãos e pequenos empresários. “Os bancos negavam empréstimos a quem não se qualificava. As pessoas não valiam nada porque não podiam fornecer garantia de retorno. Nesse contexto é fácil virar anjo”, disse à plateia.

Seu próximo negócio foi vender pacotinhos de sementes de vegetais e legumes a 1 centavo de dólar para ajudar a enfrentar os surtos de fome que assolavam a região.

“Eu me sentia ajudando a resolver problemas imediatos, mas também comecei a ficar sem dinheiro”. Convertido em maior vendedor de sementes na área, e sob persistentes críticas de colegas professores e banqueiros, em 1983 Yunus fundou o Grameen Bank, o primeiro banco de microcrédito do mundo, que rapidamente expandiu as operações para as vilas vizinhas. Os bons resultados foram replicados na Malásia e no Paquistão, viraram um “case” e inspiraram inúmeras experiências similares em vários países.

“Pode haver modelos diferentes de negócios sociais que usem o lucro para ampliar a escala, mas nós não geramos dividendos para acionistas ou funcionários”, diz o economista. Todo o lucro do negócio é reinvestido nele. O foco é o resultado social. “Não queremos seguir as definições da teoria econômica tradicional. O capitalismo é maravilhoso porque oferece várias opções. Não quero atuar como um robô multiplicador de lucro”.

PRÊMIO NOBEL

Em 2006, ao ganhar o Prêmio Nobel da Paz, Yunus passou a ser elogiado pelos banqueiros. “Não mudou nada. Continuamos a operar como antes e a perguntar porque eles não faziam o mesmo”. Mas o sucesso projetou mundialmente os “negócios sociais” e abriu o caminho para parcerias com empresas.

Em 2006, a Danone suíça associou-se ao Grameen para produzir um alimento capaz de suprir parte da necessidade nutricional diária das crianças de Bangladesh por preço acessível. Surgiu a Grameen Danone Ltda, empresa sem fins lucrativos, e o popular Shokti Doi (“iogurte fortificado”, em bengali), composto com proteínas, vitaminas, ferro, cálcio e zinco e vendido por 0,07 centavo de dólar o pote com 80 gramas. “A Danone apostou sem garantias. Eles recuperaram o capital investido, mas não tiveram lucro”, ressalta.

MENINO BENGALÊS COM IOGURTE FORTIFICADO DA GRAMEEN DANONE

Em 2009, outro negócio ganhou fama mundial. Na cidade de Sarabo, surgiu a Basf Grameen Ltda, uma parceria da multinacional química alemã com o grupo bengali para produzir 1 milhão de mosquiteiros impregnados com inseticida e combater os altos índices de malária do país.

“Conseguimos 10 bilhões de dólares e levamos o produto à África que também sofre com a doença. Mas não imaginávamos que o nosso mosquiteiro resistente passasse a ser usado como rede para pescar peixes. Em países carentes, os negócios sociais também precisam aprender a lidar com a corrupção”.

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O sucesso global levou a criação da Yunus Negócios Sociais, que já exportou seu modelo de negócios para oito países: Índia, Haiti, Alemanha, Tunísia, Uganda, Albânia, México e Brasil. Em São Paulo a organização instalou-se na rua Cristiano Viana, no bairro de Pinheiros, liderada pelo executivo Rogério Oliveira, com dois projetos em vista: uma incubadora de empreendimentos e um Fundo de Negócios Sociais.

Até agora 22 negócios passaram pelo crivo da equipe. Seis aguardam investimento. Os recursos deverão vir do Fundo, cuja meta é captar 40 milhões de reais até o fim de 2015, mas só captou 1 milhão até agora. Entre os parceiros da empresa, listados em seu site, figuram Casas Bahia, Boston Consulting Group, KPMG, Mattos Filhos Advogados, Elo Group, Banco Petra e Instituto Asas.

REUNIÃO DE STARTUP NA SEDE DA FUNDAÇÃO YUNUS, EM SP

Os dois primeiros negócios da Yunus que os brasileiros deverão conhecer serão o aplicativo Meu Doutor, uma espécie de Easy Taxy médico, destinado a conectar pacientes do Sistema Único de Sáude (SUS) com médicos em sua própria região, a preços módicos de atendimento, e o dispositivo Solar Ear, um aparelho auditivo movido a energia solar, trazido do Canadá, que custará 10% do preço dos aparelhos tradicionais.

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A Yunus vai investir R$1,5 milhão na Solar Ear para contratar vendedores e estruturar uma rede de distribuição. “Por enquanto, estamos privilegiando os melhores projetos em vez dos grandes projetos, mas o ideal é termos o melhor projeto com a maior repercussão social”, explica Oliveira.

Além desses empreendimentos, a empresa acaba de lançar a Rede Yunus de Universidades, integrada por 12 instituições brasileiras, que pretende desenvolver projetos em parceria com empresas, ações educacionais e conteúdos relacionados a negócios sociais. A Universidade Federal do Paraná, o Centro de Inovação em Empreendedorismo e Tecnologia da USP, a Escola Superior de Propaganda e Marketing, a Fundação Dom Cabral e a Universidade Estácio de Sá (RJ) são alguns dos associados.

“Tenho fé nos estudantes e nos jovens que não se conformam com o academicismo e buscam soluções”, diz Yunus à plateia. “Está hora de trocar “think thank” por “action thank”. Queremos levar a conceito para dentro da sala de aula mas não é preciso adotar um modelo. Qualquer um pode criar seu próprio negócio social. Estamos abertos a sugestões de como melhorar o nosso”.

 

FOTO DE YUNUS: MARCOS CREDIE/DIVULGAÇÃO

 



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