São Paulo, 11 de Dezembro de 2016

/ Sustentabilidade

Um alerta do cientista brasileiro que defende um mundo sustentável
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Em entrevista ao Diário do Comércio, o professor Alcides Lopes Leão, representante do Brasil em órgão da ONU que financia projetos sociais, explica como as microempresas podem deixar de ser as vilãs do meio ambiente

Alcides Lopes Leão, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), assumiu, na semana passada, seu terceiro mandato à frente do Fundo Comum por Commodities, braço da Organização das Nações Unidas (ONU) que concede financiamento para projetos de natureza sustentável voltados ao combate da miséria. Em sua nova gestão pretende implantar, em Moçambique, casas populares “feitas de lixo”, como plástico reciclado e fibras de eucalipto. O professor também defende uma abordagem mais sustentável por parte das empresas de menor porte, consideradas por ele as grandes vilãs do meio ambiente. Leia entrevista concedida ao Diário do Comércio.

Diário do Comércio - As práticas da sustentabilidade cabem na estrutura de uma pequena empresa?

Alcides Lopes Leão - Deveriam caber. São os microempresários que causam o maior impacto ao meio ambiente. Não é difícil imaginar: pense na quantidade de lavanderias, niquelarias, marcenarias. Um litro de óleo jogado por uma oficina mecânica no esgoto causa um impacto brutal no tratamento de água. E esse pequeno empresário não costuma ser abrangido pelas autoridades, que talvez acreditem não valer à pena multá-lo. Eu tenho uma proposta que mudaria isso: a criação de um selo, uma espécie de ISO, voltado às microempresas.

Quais seriam os critérios para receber essa certificação?

ALL - Seria um ISO simplificado, até porque as empresas de menor porte não têm condições financeiras, nem corpo técnico, para se adequarem ao selo padrão. O ISO que proponho demandaria uma auditoria nas microempresas para verificar se elas utilizam lâmpadas econômicas, se possuem torneiras com temporizador, se instalaram caixa de efluentes. Enfim, são processos simples, mas que dão aval a uma estratégia de regularizar as pequenas empresas que são poluidoras. E a empresa certificada tende a ganhar consumidores.  

E por que essa proposta ainda não foi implantada?

ALL - É que a Unesp não pode certificar empresas. Precisamos de apoio de alguma entidade ou órgão que possa certificar a empresa e dizer que ela trabalha com processos que não agridem o meio ambiente.  

A certificação seria um incentivo, mas requer investimento. Isso não assusta o empresário?

ALL – Sim. A implantação de algumas tecnologias voltadas para a sustentabilidade é custosa. Acredito que faltam estímulos, que poderiam vir do governo por meio de desonerações. Veja só, trabalho com empresas que processam aparas de papel. Elas separam o papelão, secam, retiram grampos, pedras e outros sólidos que poderiam danificar os equipamentos e só então podem reciclar o papel. Mas no final, elas são tributadas de maneira semelhante a uma empresa que fabrica o papel virgem. O governo cobra a aplicação da reutilização dos resíduos sólidos, mas não incentiva sua prática, com redução do imposto. 

O empresário brasileiro, de maneira geral, tem consciência ecológica?

ALL –  Essa, infelizmente, não é a maior preocupação deles. Quando chego a eles pra falar sobre economia de água, escuto que o impacto que essa redução do desperdício traria para sua folha de custo seria mínimo. Isso só muda taxando quem desperdiça. Infelizmente o bolso é um meio para se criar a consciência ecológica. E essa realidade não vale apenas para o Brasil.

O senhor acabou de assumir o terceiro mandato à frente do Fundo Comum por Commodities, da ONU. Quais são suas novas metas?

ALL – Meu principal objetivo será implantar moradias para a baixa renda em Moçambique e no Haiti. São casas populares feitas com plástico reciclado e fibras de eucalipto. Elas terão 51 metros quadrados, a um custo de U$S 15 mil. Como parâmetro, uma casa nos mesmos padrões, mas de alvenaria, custaria mais de R$ 100 mil no Brasil. Essas casas feitas de lixo reciclado são modulares, com isolamento térmico e paredes com retardante de chamas. Moçambique tem meio milhão de pessoa morando em tendas. Quero tornar a ideia das casas populares mais palatável à ONU.    

Esse projeto pode ser trazido ao Brasil?

ALL – Não. Para essas questões habitacionais, a ONU considera o Brasil um país rico.

 

 

 

 



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