São Paulo, 29 de Setembro de 2016

/ Sustentabilidade

Pequenas e responsáveis: por onde começar a melhorar os hábitos de sua empresa?
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Quem já aprendeu o caminho conta como transformou a gestão sustentável em lucro, cliente fiel e boa imagem

Palavra difícil e exaustivamente repetida nos últimos anos, “sustentabilidade” ainda não entrou completamente no vocabulário dos micros e pequenos empresários de varejo e serviços. Vista como um jeito de administrar com eficiência e responsabilidade os recursos – seja o talento das pessoas, dinheiro ou a água –, tem tudo a ver com o sucesso de um negócio, embora não seja perceptível a olho nu. Prova disso é que muitos empreendedores, sem saber, adotam ações sustentáveis no dia a dia e que resultam em menores gastos e maior qualidade de produtos e serviços.

Entre essas ações imperceptíveis estão o controle do desperdício de água, energia elétrica e materiais, uma boa contabilidade, o pagamento pontual dos impostos, o cumprimento das regras trabalhistas, a atenção com o treinamento dos funcionários, o cuidado com o lixo produzido pelo negócio e o bom tratamento de clientes, empregados e fornecedores.

Leia mais:

2 – Um brinco de oficina!

3 - Cafezinho glamouroso e engajado

A decisão pode ser tomada por conta própria ou... imposta, o que está ficando cada vez mais comum na vida dos micros e pequenos empresários. Diz Enio Pinto, gerente da Unidade de Acesso à Inovação e Tecnologia do Sebrae Nacional: “O movimento de grandes varejistas para comportamentos mais sustentáveis tende a impulsionar os pequenos negócios, uma vez que eles passam a ter requisitos para integrar a cadeia de fornecedores de grandes empresas. Outro impulsionador é a maior exigência dos consumidores por opções de produtos sustentáveis, o que leva o varejo a ampliar as suas ofertas”.

Quem já consegue contabilizar os ganhos trazidos por atitudes recomenda a quem está começando ter paciência e persistência. Trabalhar com sustentabilidade exige disposição para mudar hábitos e isso se faz um pouco a cada dia e sempre. São investimentos que se pagam e repercutem na boa imagem da empresa. “Sustentabilidade deve estar presente em todas as áreas do varejo”, afirma o especialista. Envolve desde a estrutura física da loja até ações ambientais e sociais. Ele indica algumas medidas iniciais de gestão responsável para as microempresas em geral:

Energia elétrica – mantenha os sistemas de refrigeração regulados, pois são responsáveis pela maior parte do consumo.

Desperdício de produtos – conheça a demanda dos clientes para fazer compras na quantidade correta.

Direitos assegurados – garanta a remuneração justa e respeito à legislação trabalhista.

Bem-estar dos funcionários – promova benefícios extras, como planos de saúde e alimentação, e mantenha áreas de descanso confortáveis para os horários de intervalo.

Vizinhança – procure participar dos eventos locais, como campanhas socioambientais e de cidadania, pois inspiram confiança e ajudam a fidelizar os clientes.

Alguns empreendedores acordaram para o valor que esse tipo de atitude traz para o negócio e trataram de organizá-los como parte do esforço de crescimento. Estudaram o assunto, passaram um pente-fino no jeito de a empresa operar, buscaram ideias para melhorar a produtividade, mediram as despesas e fizeram contas para saber quanto ganhariam ou economizariam agindo assim. Eles descobriram que sustentabilidade faz bem para os negócios. Conheça suas histórias.

UM BRINCO DE OFICINA!
Francisco Severiano Alves queria ter uma oficina organizada e lucrativa. Acabou sendo um símbolo de microempresário sustentável

Processos de qualidade, controle de insumos e materiais, planilhas de custo e capacitação da mão de obra fazem parte do dia a dia do cearense Francisco Severiano Alves, 49 anos, e sua oficina Mecânica Chiquinho, em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo. Certificada e premiada, a microempresa de sete funcionários tornou-se uma vitrine para o Sebrae, instituições setoriais e grandes fornecedores na hora de demonstrar a relação entre uma administração cuidadosa e responsável e um negócio lucrativo.

A trajetória de Chiquinho tornou-se conhecida no universo de reparos de veículos, um setor que reúne 92 mil oficinas mecânicas e gera mais de 700 mil empregos diretos em todo o país. Mas o que ele aprendeu em 11 anos de esforço e persistência, iniciado com a participação no Programa Empreender (iniciativa da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil-CACB e Sebrae), tem significado para todo empreendedor determinado a dar longa vida para seu negócio.

AS PEDRAS NO CAMINHO

Chiquinho mesmo conta: “Comecei a oficina em 1994, sem saber quase nada de mecânica ou de empresa. Precisei pedir ferramenta emprestada. Trabalhava num lugar escuro, tinha aquela sujeira de oficina mecânica, as peças desorganizadas. Não conseguia controlar o fluxo de serviço e pagamento, levava calote de cliente. Sobrevivia a custo com a família”.

BOA GESTÃO DÁ DINHEIRO

O Programa Empreender entrou na vida do microempresário em 2002, quando foi convidado a participar de um grupo de capacitação em gestão, organizado pelo Sebrae para donos de oficinas do interior de São Paulo. Ali, ele começou a entender a importância de gerenciar de verdade um negócio, com controle de receita e despesas, plano de investimento, metas definidas, pessoal qualificado, atendimento ao cliente, ambiente organizado e limpo. Quando mudou para um novo endereço, em 2004, estava decidido a investir e inovar o negócio.

Com o tempo, informatizou os controles e mantém um registro rigoroso e detalhado do movimento da oficina, como a descrição dos carros e do serviço a ser feito. Padronizou os processos de trabalho para acabar com os atrasos de entrega. Há um cuidado especial com os dados dos 900 clientes cadastrados, que incluem a informação de quem indicou. “Desde então, consigo saber de quanto será o movimento de caixa do próximo mês”, conta Francisco. “E sobra dinheiro para investir.”

MAIS LUZ NATURAL, MENOS ÁGUA E LIXO

O novo conhecimento reavivou um incômodo antigo de Francisco. Ele sempre se ressentira da falta de luminosidade da velha oficina, além do lixo e da sujeira causados pelos produtos e da quantidade de água gasta com a limpeza. Por tabela, com o custo excessivo das contas de luz e de água. Nos cursos de capacitação, começou a ter uma nova visão do problema. Além do peso no bolso, passou a se preocupar com o desperdício que isso significava para os serviços públicos e para a natureza.

Com a oportunidade de construir uma nova oficina, resolveu aplicar o que havia aprendido para economizar luz, água e materiais e dar um jeito na sujeira, nas sobras e nas embalagens. Instalou telhas translúcidas para ter mais claridade e ganhou luz natural por todo o período de funcionamento. Com a instalação de duas calhas no telhado e uma cisterna, pôde captar água de chuva, que passou a responder por 90% do consumo da oficina, cujo maior uso se destina à limpeza de peças e do próprio espaço.

Antes de voltar à rede de esgoto, a água suja passa por um sistema de separação de impurezas e resíduos do óleo, armazenado para reciclagem em caixas separadoras. Também o papelão das embalagens e as peças descartadas nos consertos vão para recipientes especiais. Tudo vira dinheiro, depois de encaminhado semanalmente para as empresas de reciclagem credenciadas. O que não dá para aproveitar ou representa um risco de contaminação para o meio ambiente é retirado por uma empresa especializada. Todo o processo, além de obedecer às leis ambientais do Estado de São Paulo, recebe uma certificação pela retirada correta.

Depois de muita orientação, Francisco conseguiu implantar uma cultura de manutenção e limpeza na oficina. Cada membro da equipe cuida da limpeza de suas ferramentas e tem uma obrigação quanto à retirada do lixo e dos materiais para reciclagem. O dia de trabalho se encerra com esse ritual. E cada um sabe o que fazer. O ganho gerado por esse movimento se destina à compra de ferramentas, investimentos no negócio e extras para a turma.

CLIENTES E FUNCIONÁRIOS SATISFEITOS

As melhorias no ambiente e na forma de trabalhar repercutiram no espírito do pessoal. Hoje, há ferramentas na quantidade necessária. Um cuidado que não existia antes, o cumprimento da jornada normal de trabalho, passou a ser regra, e a implantação de um sistema de serviço programado permitiu liberar o pessoal de trabalhar no sábado. Na nova oficina, sobrou espaço para uma cozinha e uma área de descanso, que pode ser dedicada a um cochilo ou a uma navegada na Internet. Depois do Programa Empreender, Francisco nunca mais parou de buscar conhecimento para ele e seus mecânicos. A cada três meses, a equipe se dedica a algum curso entre os promovidos regularmente pelas empresas parceiras do setor ou os do Sebrae e Senai. O cumprimento de metas é sempre comemorado.

Também os clientes ganharam mais conforto. Uma área de espera com mesinhas e cadeiras, TV e cafezinho dá oportunidade de conhecer melhor cada um. As melhorias não passaram despercebidas para um público muito exigente e cada vez mais numeroso, as mulheres. “Hoje, elas são 25% da minha clientela”, informa Francisco.  

Ao cuidar do bom funcionamento econômico, ambiental e social da sua oficina, Chiquinho terminou reconhecido como um empresário que incorporou os princípios da sustentabilidade ao seu negócio.


Infográfico: Odilon Queiroz

Com um olho no lucro e outro na lata de lixo, Elias Freire recria o ritual do cafezinho com seus cupcakes

Paulistanos gostam de café expresso. Existem centenas de cafeterias em São Paulo. A DeliCake poderia ser mais uma entre tantas, se não fosse a determinação do dono, Elias Freire, 40 anos, de buscar o coração dos clientes e aplicar princípios de gestão responsável que considera essenciais para um negócio ser considerado bom. Cinco anos depois da abertura da primeira loja, no bairro do Brooklin, têm duas unidades franqueadas, além da própria (que toca pessoalmente), prepara a abertura de mais uma (em outubro de 2014) e sua marca se destaca pela capacidade de inovação, usada como uma vantagem competitiva para conquistar a fidelidade dos clientes.

Como assim? Inovação em cafezinhos? Não exatamente. “Desde que deixei a carreira corporativa em grandes empresas para ser empreendedor”, conta Freire, “estava decidido, fosse qual fosse o setor escolhido, a iniciar um negócio onde pudesse ser inovador, criativo e atraente para a clientela.” Formado em uma cultura empresarial na qual as boas práticas ambientais tinham vez, sabia que a sustentabilidade faria parte dessa busca da inovação.

A inspiração surgiu em uma viagem aos Estados Unidos, onde conheceu o cupcake, hoje uma febre entre microempreendedores. O modelo de negócios da cafeteria foi desenhado tendo o minibolo decorado como atrativo. A quantidade de invenções promovidas por Freire em torno do charmoso bolinho, acompanhadas por muito estudo e treinamento em gestão, fizeram do negócio uma referência no varejo de refeições, como atestam o Sebrae e a cobertura da mídia especializada.

INOVAÇÃO NA ALMA DO NEGÓCIO

A primeira loja estava instalada e fazendo sucesso quando Freire sentiu que precisava se fortalecer na parte administrativa e financeira. O aprendizado tornou possível franquear a marca, estabelecer metas de faturamento e expansão, ter controle de fluxo de caixa e prever investimentos no negócio. “Planejo ter 10 lojas em cinco anos e lanço no mínimo dois produtos por ano”, diz.

Como todo empreendedor, o aprendizado se faz por tentativa e erro – das sete unidades que já abriu, duas foram fechadas e outras duas nem chegaram a abrir: tiveram desistência dos franqueados. As que estão em funcionamento são consideradas exemplos de operação e rentabilidade. Desde a fundação, a DeliCake vem crescendo em média 10% a cada ano.

O laboratório de Freire é a loja própria, cuja saúde financeira se apoia, segundo ele, em regras básicas para qualquer empreendedor. “Tenho uma retirada mensal estipulada, não misturo o meu rendimento pessoal com o do negócio e faço um investimento mensal programado na empresa para garantir as melhorias”, diz. Um dos aprendizados mais importantes foi sobre a escolha do ponto comercial. “Minha marca está profundamente identificada com o fluxo do público corporativo, por isso priorizo a instalação nos corredores empresariais, muito perto de prédios de escritórios e restaurantes comerciais”.

Na linha de frente, as inovações acontecem na formulação dos bolinhos, na seleção de sabores inéditos, na decoração, em novos produtos, no desenvolvimento de linhas para presente (que se tornou ponto forte do modelo), na variedade de embalagens para viagem e presente e em sacadas do atendimento, como oferecer champagne no cardápio de bebidas. Nos bastidores, ficam os cuidados ambientais e sociais, mas que Freire fez questão de trabalhar para incorporar à imagem da DeliCake.

DE OLHO NA LATA DE LIXO

As iniciativas ambientais do negócio começam pelo modelo arquitetônico da loja, com o uso de teto de vidro para evitar ao máximo a necessidade de luz elétrica. Na cozinha, a produção é programada para racionalizar o aquecimento do forno. A economia de água se faz na boca da torneira, pela regra de só abri-la quando houver um número determinado de louça para lavar. Plásticos foram abolidos com a adoção de misturadores de café feitos de madeira de reflorestamento, copos de vidro e pratos de louça, além de haver um acordo com fornecedores para ter as bebidas em embalagem de lata ou vidro retornável. Para os guardanapos, pesquisou um sistema de impressão para economizar tinta.

O lixo é meticulosamente separado em quatro caçambas, monitoradas todos os dias pelo dono para ver se o descarte está sendo feito corretamente. Nas embalagens, usa apenas papel e papelão reciclados e com certificação. E ainda transformou as sacolas em fonte de renda ao criar um sistema de devolução, pelo qual paga R$ 0,25 a cada sacola devolvida e a coloca em circulação novamente, economizando na reposição. “Trazer de volta a sacola ou reusá-la tornou-se um hábito entre os frequentadores”, ressalta Freire.    

SABOROSO E SAUDÁVEL

As inovações chegaram à receita do cupcake motivadas pela preocupação do empreendedor com a alimentação saudável. “Depois de muita pesquisa, diminuí drasticamente o uso de açúcar e aboli manteiga, leite e gemas, o que permitiu oferecer um bolinho livre de colesterol e lactose”, explica. Segundo ele, os clientes aprovaram o sabor.

Freire reúne semanalmente os funcionários para um reforço dos procedimentos da empresa, que incluem uma permanente estimulação das práticas ambientais e de qualidade. Para os franqueados, embora não interfira na condução do negócio, procura incentivar a adoção das experiências bem-sucedidas da matriz. Uma receita empreendedora capaz de convencer os clientes a pagar com gosto R$ 9,50 por um minibolo.


Infográfico: Odilon Queiroz



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