Sustentabilidade

Nesse ranking, limpeza é documento e vale ouro


Lançado o primeiro índice para avaliar a qualidade da gestão do lixo das cidades brasileiras - São Paulo decepcionou, Santos (foto) e Campinas se saíram bem


  Por Inês Godinho 02 de Julho de 2016 às 08:00

  | Jornalista especialista em sustentabilidade e gestão, a editora atuou no Estadão, na Editora Abril e na Folha de S. Paulo


Para uma cidade, não basta ser limpa, é preciso sujar menos. Este é o conceito moderno de gestão do lixo que está por trás do novo Índice de Sustentabilidade da Limpeza Urbana (Islu). 

A ideia tira do governo o papel de único responsável pela gestão de resíduos para dividir os cuidados com a sociedade, como prevê a Política Nacional de Resíduos Sólidos.

Desenvolvido pela consultoria PwC para o Sindicato das Empresas de Limpeza Urbana (Selur), o Islu é um sistema de avaliação (ou termômetro) que vem suprir uma imensa lacuna de informação em um setor nevrálgico para a qualidade de vida dos brasileiros e da economia da país.

Participaram do estudo mais de 1,7 mil municípios, com dados de 2014. Segundo informações do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) e do Tesouro Nacional, em média, 5% do orçamento municipal é gasto com limpeza urbana.

SUJEIRA À VISTA

O raio-X do Islu é implacável: apenas 10 cidades chegaram perto da nota máxima. Todas são pequenas e estão no Rio Grande do Sul, Santa Catarina ou Paraná.

A maior, Nova Esperança/PR, tem 27 mil e é a número 1 do ranking geral (0,900). Essas cidades são boas em varrição, reciclagem, destinação correta do lixo e uso de recursos financeiros. Resumindo, estão engajadas em resolver o problema. 

A mensuração do índice, inspirado no método do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), da ONU, varia de zero a 1 um. Quanto mais próxima de 1, mais avançada é a cidade.  São cinco estágios de desenvolvimento, de A a E.

Sobrou para as grandes capitais. A gestão ineficiente de recursos financeiros para o serviço jogou São Paulo (0,683) na categoria C, considerada ruim.

Brasília (0,643), mesmo vista como uma cidade de ruas limpas, teve o mesmo destino, por não se livrar de um enorme lixão, com graves riscos para a saúde.

No ranking das cidades com mais de 250 mil habitantes, entre as 17 que conseguiram a classificação B, cinco estão no Estado de São Paulo: Santos (0,737) em primeiro lugar, Campinas (0,729), Sorocaba (0,722), Santo André (0,717) e Limeira (0,702). 

Entre os municípios avaliados em todo o país, apenas 16% estão na categoria A ou B, cerca de metade está na categoria C e 30% nas categorias D e E. 

MEDIR PARA SOLUCIONAR

Com o estudo feito pela PwC e a metodologia criada, pela primeira vez, foi possível transformar em dados numéricos e comparáveis as impressões desagradáveis que saltam aos olhos e aos narizes de quem anda pelas ruas do país. 

Melhor ainda: a partir dos dados, dá para saber em quais aspectos cada cidade está pecando e como pode concentrar recursos para resolver.

Se incomoda ver lixo na rua, catadores desprotegidos, moradores mal educados e saber de lixões ao léu, desvio ou falta de verbas para limpeza e desperdício de lixo valioso, o assunto diz ainda mais respeito às empresas, em especial ao comércio. 

Geradoras de lixo, as empresas de varejo são também vítimas do estrago que um sistema ruim de limpeza causa à imagem de uma cidade, de um bairro e de uma rua.

DÁ PARA RESOLVER 

Na lista, as cidades grandes e pequenas do Sul se destacam. A região tem um histórico de boa gestão, comprovando que investimento contínuo, educação ambiental e uso eficiente de recursos é um caminho de sucesso. 

No estudo, o Estado do Paraná ganhou destaque especial. Presente com várias cidades nas categorias A e B, inclusive Curitiba (0,708), Londrina (0,704) e Maringá (0,730), o estado se dedica desde os anos 80 à educação ambiental e conscientização da população com relação ao tema resíduos sólidos. 

Como se deduz do estudo, ainda há muito a fazer em relação à destinação dos resíduos sólidos no Brasil. Para o setor, a meta é criar um nível de consciência na sociedade para que os resíduos deixem de ser vistos como rejeitos e ganhem status de recursos a ser recuperados.

Imagem: Thinkstock