Sustentabilidade

Justiça francesa acusa empresa por dezenas de suicídios de funcionários


Pedido de julgamento contra France Telecom e seu antigo presidente vira exemplo e torna o molestamento moral um risco concreto para as empresas


  Por Inês Godinho 07 de Julho de 2016 às 18:28

  | Jornalista especialista em sustentabilidade e gestão, a editora atuou no Estadão, na Editora Abril e na Folha de S. Paulo


O suicídio de 60 funcionários em menos de 10 anos levou a Justiça francesa a pedir o julgamento da antiga France Telecom e de seu ex-presidente Didier Lombard. A estatal de telecomunicações foi privatizada após a compra pela inglesa Orange em 2004 e é a maior fornecedora de serviços de telecomunicações do país, com 100 mil empregados.
 
A medida da Procuradoria de Paris foi tomada após quatro anos de investigação do que está sendo considerado o primeiro caso de assédio moral em larga escala envolvendo uma grande empresa.
 
A principal conclusão do processo se refere à implantação intencional de um programa destinado a criar um “clima de extrema tensão” para forçar os empregados a pedirem demissão. E assim, poupar a empresa do pagamento das verbas rescisórias para cumprir a meta do plano de reestruturação, de eliminar 22 mil vagas após a privatização. A decisão sobre a implantação do processo será tomada nos próximos dias.

“PELA PORTA OU PELA JANELA”

Principal acusado, o ex-presidente comandou o programa pessoalmente. Lombard ficou famoso por frases que expressavam sua total insensibilidade à tragédia. Em uma declaração pública após as primeiras mortes, disse que “o número de suicídios estava dentro da média normal do país”.

Durante uma reunião com executivos, declarou: “eles (os funcionários) sairão de uma forma ou de outra, pela porta ou pela janela”. Em outra ocasião, respondeu a jornalistas que “o suicídio estava na moda”. A última frase levou à sua renúncia do cargo, em 2010.

Entre as provas colhidas no processo, estão planilhas de Excel, apresentações em Power Point, vídeos gravados secretamente e até o conteúdo de cursos na universidade corporativa destinados a preparar os gestores em técnicas de manipulação psicológica. 

O plano previu o recebimento de bônus proporcionais ao número de postos suprimidos por este método. Quem se recusava a participar também passava a ser visado.

AUTOIMOLAÇÃO POR FOGO

Do total de suicídios, 35 ocorreram entre 2008 e 2009, e causaram intensa comoção entre os franceses. Várias vezes advertida pelas autoridades de Saúde e do Trabalho, a empresa não tomou providências para interromper o ciclo de suicídios, tentativas e aumento expressivo dos casos de doenças mentais como depressão.

Duas novas ondas de suicídios envolvendo mais de 20 pessoas levaram ao início do processo. Uma das mortes, em 2011, ocorreu por autoimolação por fogo nas dependências da empresa. A investigação encontrou inúmeras provas ligando diretamente as mortes às condições degradantes implantadas no ambiente de trabalho.

Entre as técnicas de assédio moral utilizadas para levar ao esgotamento físico e emocional, são citadas: interrogatórios sistemáticos e rigorosos, recriminações infundadas, definição de metas inatingíveis, isolamento social ou físico, transferência consulsória para locais isolados, determinação de tarefas degradantes, viagens contínuas sem finalidade objetiva, sobrecarregar com tarefas ou deixar a pessoa sem atribuições.  

Além do ex-presidente, foram incluídos no pedido de julgamento por assédio moral outros dois altos executivos da antiga France Telecom. Mais quatro foram apontados por cumplicidade.  As penas prevêem prisão e multa.

Uma das conseqüências de um eventual julgamento seria criar parâmetro para um tema em grande discussão hoje no mundo. Para a empresa, atualmente sob o nome de Orange, existe o risco de se criar justificativa para uma enxurrada de processos de indenização por parte de milhares de ex-funcionários atingidos pelas medidas. 

Imagem: Thinkstock