São Paulo, 04 de Dezembro de 2016

/ Sustentabilidade

Igreja apoia criação do maior fundo de investimento social no Brasil
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A Oblate International Pastoral Investment Trust, dirigida por frei Seamus Finn (na foto), investe em fundo de impacto que promoverá melhorias sociais de maneira lucrativa

Por Vinod Sreeharsha

Um fundo de investimentos brasileiro está levando a sério o pedido do Vaticano de utilizar as ferramentas do capitalismo para acabar com a desigualdade.

A administradora First está prestes a criar o maior fundo de investimento de impacto do país, com o objetivo de promover melhorias sociais de forma lucrativa. E a ideia está sendo apoiada por grandes nomes, como o JPMorgan Chase e o braço de investimentos privados do Banco Mundial.

A First também está sendo apoiada por uma força ainda maior: um truste criado por uma ordem internacional de Igreja Católica Apostólica Romana de 199 anos de idade.

O capital fornecido pelo Oblate International Pastoral Investment Trust foi o primeiro investimento do grupo em um fundo de impacto brasileiro.

O valor total, cerca de US$ 7 milhões, pode parecer pequeno, mas reflete o crescente interesse no setor por grupos católicos de todo o planeta. E para a Igreja Católica, o conceito parece estar em consonância com o foco do Papa Francisco no combate às desigualdades sociais.

Garantir que investimentos baseados na fé estejam de acordo com os valores católicos sempre foi uma dificuldade. Porém, muitas pessoas veem o que chamam de investimento de impacto – medido tanto no aspecto financeiro, quanto no social – como uma das formas de resolver esse problema.

O fundo não avalia apenas os ganhos financeiros, mas também a capacidade dos investimentos para gerar melhorias sociais, seja na educação, na saúde, ou no meio ambiente. Essa classe de ativos começa a ganhar força no Brasil, onde vive a maior população de católicos do planeta.

Se a arrecadação de fundos realizada pela First for bem sucedida, ela representará um momento importante de mudanças no Brasil, apesar dos anos de demora.

Espera-se que o fundo supere em breve os 300 milhões de reais, ou US$ 98 milhões, chegando até o fim do ano à marca dos US$125 milhões, de acordo com uma fonte ligada às atividades do fundo.

Esses US$ 98 milhões representam mais da metade do total de US$177 milhões arrecadados por outros fundos de impacto no Brasil entre 2004 e 2013, de acordo com um relatório publicado no ano passado pela Aspen Network of Development Entrepreneurs.

INVESTIMENTOS DE IMPACTO

A empresa atraiu a atenção do fundo Oblate, que foi criado pelos Missionários Oblatos de Maria Imaculada. A organização gerencia os ativos de mais de 230 congregações católicas em 53 países, totalizando mais de 400 milhões de dólares.

O diretor do fundo de investimentos é o frei Seamus Finn, um irlandês de 65 anos que realiza as missas de domingo em uma paróquia de Washington, onde vive. Finn, que viaja ao Brasil cerca de uma vez ao ano, afirmou que a participação do fundo refletia o interesse crescente no investimento de impacto.

Eles investiram US$35,5 milhões nesse tipo de fundo no ano passado, mais que o dobro dos US$15,5 milhões investidos em 2013. O percentual alocado também praticamente dobrou no mesmo período e Finn afirmou esperar que ambos os números continuem a crescer ao longo dos próximos dois anos.

"Acredito que estamos muito mais próximos dos nossos princípios do que de uma multinacional", afirmou.

O investimento de impacto está crescendo em todo o planeta. O número de organizações que prestam serviços a investidores interessados nesse tipo de ativo cresceu 17 por cento este ano e espera-se que o total investido na área supere os US$12,2 bilhões, o que representa um aumento de 16 por cento em relação ao ano passado, de acordo com o relatório anual de 2015 sobre o investimento de impacto publicado pelo JPMorgan e pela Global Impact Investing Network. O Bain Capital e o Blackstone Group anunciaram novas iniciativas este ano.

FREI SEAMUS FINN, DIRETOR DO FUNDO OBLATE: ATIVOS FINANCEIROS EM 53 PAÍSES/Fotos: T.J. Kirkpatrick/The News York Times

O Vaticano fala há muito tempo sobre a necessidade dos mercados de reduzir a desigualdade, desde o Papa Leão XIII em sua encíclica Rerum Novarum sobre o Capital e o Trabalho, de 1891, e o Papa Paulo VI com a Populorum Progressio, de 1967.

PAPA FRANCISCO

O Papa Francisco, primeiro pontífice latino-americano, fez dessa sua maior prioridade. No ano passado ele afirmou que “é cada vez mais intolerável que os mercados financeiros estejam definindo o destino dos povos, em vez de servir suas necessidades”.

Além disso, o papa discutiu o investimento de impacto com um grau de especificidade bastante incomum.

Ele fez um discurso privado em junho do ano passado para um grupo que participava de um encontro de dois dias em Roma sobre o investimento de impacto, organizado com a ajuda do  Pontifício Conselho Justiça e Paz. Os tesoureiros da igreja e pesos pesados das finanças, incluindo executivos da Goldman Sachs e do Bank of America Merrill Lynch, participaram da reunião.

Em seus comentários, o Papa Francisco elogiou o setor, afirmando que "os investidores de impacto são aqueles que tem consciência da existência de situações extremamente injusta, instâncias de profunda desigualdade social e condições inaceitáveis de pobreza que afetam comunidades e povos inteiros".

O investimento baseado em fé existe em muitas religiões. O financiamento islâmico existe há séculos e cresceu nas últimas décadas. Os Índices de Mercados Islâmicos da Dow Jones que garantem o respeito à sharia foi criado em 1999. A Igreja Metodista Unida conta com US$21 bilhões em ativos e investe em 5 mil empresas.

Entretanto, as estratégias de investimento mudaram recentemente, deixando de lado uma velha política de exclusão.
Por exemplo, o fundo Oblate – que no geral investe em ações públicas e fundos de renda fixa – utiliza o que chama de exame negativo.

São proibidos os investimentos em empresas que desenvolvem armas de assalto e de fogo, ou que tenham se envolvido em controvérsias sobre os direitos do trabalhador. Contudo, essas regras não estabelecem um guia sobre onde o dinheiro deve ser investido. O investimento de impacto ajuda nesse sentido.

"O investimento de impacto está mais de acordo com nosso desejo de sermos construtivos e buscar investimentos com impacto positivo, ao invés de simplesmente excluir determinadas empresas", afirmou Finn.

Existem também motivos menos grandiosos. Finn afirmou que o investimento de impacto é uma classe de ativos cada vez mais importante para a diversificação e a gestão do portfólio de investimentos do grupo.

A Ascension Investment Management, que faz a gestão dos ativos do maior sistema de saúde sem fins lucrativos da igreja católica nos EUA, está criando seu primeiro fundo de investimento de impacto e busca arrecadar entre 50 e 100 milhões de dólares. O grupo deseja se concentrar na produção de alimentos, em projetos de saúde e moradia.

Os Catholic Relief Services também acabam de separar 5 milhões de dólares para investir em fundos de investimento de impacto pela primeira vez e espera começar este ano. Até o momento, o grupo se encontrou com seis fundos de investimento, de acordo com Patricia M. Dinneen, antiga gestora da empresa de private equity Siguler Guff & Co., à frente da iniciativa.

Os Catholic Relief Services também têm um papel importante em congregações norte-americanas que discutem o investimento de impacto.

O Brasil – onde vivem 123 milhões de católicos apostólicos romanos, a maior população católica do mundo, de acordo com o Pew Research Center – é o lugar ideal para esse tipo de investimento.

DIFERENÇAS SOCIAIS

"Eu vejo o Brasil como uma parte fundamental dessa iniciativa", afirmou Dinneen, que ajudou a criar o fundo de private equity dos BRICS na Siguler Guff antes de se aposentar.

Embora o país conte com um setor financeiro maduro e tenha progredido muito nas últimas duas décadas, ainda é palco de graves diferenças sociais. Setores importantes para os investidores de impacto são justamente algumas das maiores fraquezas do Brasil. E uma série de problemas macroeconômicos continuam a aprofundar essas fraquezas.

"Temos uma boa oportunidade", afirmou Finn, destacando que “as pessoas vão precisar desses serviços no dia a dia".



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