São Paulo, 22 de Maio de 2017

/ Sustentabilidade

Enfeia a cidade e pesa no bolso e no faturamento do comerciante
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Tormento para os cidadãos, as pichações se tornaram prejuízo certo para o comércio. Enquanto não chega a nova lei contra os pichadores, os lojistas pagam caro para apagar a sujeira

Na parede da loja, o aviso: “Sr. Pichador, o dinheiro economizado com a limpeza das paredes é doado para a AACD. Obrigado”. 

Avisos como este estão espalhados por toda a cidade, mas são ignorados pelos pichadores. Segundo especialistas, importa para eles demarcar território. Para deixar marcas em prédios, lojas, muros e monumentos históricos, fazem o impossível, como escalar prédios se equilibrando nas alturas com o spray na mão.

Bandeira da atual gestão municipal, o tema está prestes a ser regulado por lei. No dia 14 de fevereiro, a Câmara de Vereadores aprovou o projeto que prevê multa de R$ 5 mil para pichadores e comerciantes que vendem tinta spray na capital a menores de 18 anos.

Os pichadores não se importam com os avisos dos lojistas

O aviso relatado acima está exposto nas paredes e nas portas de uma das unidades da Bongusto, loja de sapatos femininos e masculinos na região central. Há 20 anos gerente da loja, Marta Rodrigues perdeu a conta das vezes em que teve de mandar pintar as paredes, após os estragos feitos pelos pichadores.

“Cada vez que mandamos pintar, gastamos em torno de R$ 500,00 com tinta e mão-de-obra”, disse. Somam-se a isto as doações feitas às instituições como a AACD, de R$ 200,00 por mês.

Na opinião de Marta, o apoio da população paulistana ao prefeito João Doria se deve justamente por apertar o cerco sobre os pichadores. “Ao pichar um monumento histórico ou o que for no espaço público ou privado, o pichador mostra que não tem o menor respeito pela cidade”, ela diz, indignada.

SEM DÓ

A ação dos pichadores chega a todos os cantos da cidade, como bem sabem os paulistanos. Na Vila Maria, Zona Norte, o gerente da Padaria Vista Alegre, Luís Humberto Rosa, também tem gastos para reparar os estragos causados pelos grupos armados com spray, que agem principalmente à noite.

Já é rotina para Luís chegar de manhã à padaria, uma das mais tradicionais do bairro, e se deparar com as paredes e portas repletas de palavras e símbolos indecifráveis.
 
“Além de ter que escalar um funcionário para consertar o estrago, gasto em média R$ 50,00 em cada lata de tinta”, conta. Entre as providências tomadas por Luis para tentar impedir a ação dos pichadores, está a contratação de um segurança particular, ao preço de R$ 200,00 mensais. 

Não adiantou, a padaria continuou a amanhecer pichada. O segurança que faz a ronda no quarteirão disse, segundo o gerente, que “não percebeu a chegada dos pichadores. Sei que eles sempre estão em turma”. 

O comércio vizinho da padaria, também sofre com os rabiscos. No entanto, o gerente Antônio Ermínio, da Mega Esporte, não se preocupa em apagar o estrago. “As pichações só ficam visíveis à noite”, diz ele, que se mostra muito mais irritado com os furtos na loja. 

O gerente também contratou um serviço de segurança, sem resultado. “Pago R$ 100,00 por mês, mas quando os grupos querem agir, ninguém consegue impedir”, diz ele.

EXPECTATIVAS COM A LEI

Embora a questão esteja causando muita polêmica, do ponto de vista jurídico, não há espaço para a dúvida. De acordo com Alexandre Damásio, diretor jurídico da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Estado, “pichação não é expressão artística. Trata-se de crime ambiental e crime de dano. Na prática, é uma expressão de desrespeito”.

Especialista em direito autoral e direito público, o advogado explica que é possível quantificar os prejuízos causados pelos pichadores no comércio varejista.

Em um estudo que fez que para o setor, constatou que pichação provoca queda nas vendas e na qualidade do consumidor, com prejuízo certo para o lojista atacado por este mal urbano. No imaginário popular, segundo o especialista, áreas pichadas são relacionadas com degradação, lugares que não se deve frequentar.

Antes e depois dos restauros feitos pela Arte Nuclear

Na mensuração dos prejuízos para um possível ressarcimento, o advogado não se limita a somar a limpeza do local. Ele enumera também os gastos fiscais e de licenças que o comerciante é obrigado a pagar para conseguir fazer seu estabelecimento funcionar. No total, o estudo chegou a um valor aproximado de R$ 3.700 para a documentação e mais de R$ 2 mil por limpeza.

“Não podemos confundir pichação com arte ou com expressão urbana. Pichação é sinônimo de prejuízo e quem paga a conta é o lojista”, ele conclui.

SOLUÇÃO PELA CRIATIVIDADE

Seguindo a máxima de que todo problema traz junto uma oportunidade, há seis anos, os artistas plásticos Mônica Carabolante e Olímpio Travitzky encontraram um ofício a partir das pichações. 

Com tinta látex, corante e pincel, eles utilizam uma técnica de pintura, que chamam de hiper-realista, por cima dos rabiscos, principalmente quando feito sobre pedras. A técnica também funciona quando a pichação atinge portas de ferro em estabelecimentos comerciais.

O estilo de trabalho dos dois chamou a atenção e eles já possuem uma carteira de clientes na cidade. São pessoas que tiveram seu patrimônio transfigurado e degradado por causa da ação dos pichadores. “Usamos a arte para limpar a pichação”, define Mônica. 

Ao custo de R$ 180,00 a R$ 200,00 por metro quadrado de área pichada, os restauros já rendem em torno de R$ 3 mil mensais à dupla de artistas. Eles criaram a empresa Arte Nuclear para atender melhor a demanda. 

Mônica não se ilude com um possível idealismo dos pichadores. Para ela, eles são movidos pela vaidade e vontade de ser observados. “A pichação acontece onde há grande movimento de pessoas. Quem picha, faz isso para ser notado.”

FOTOS: Wladimir Miranda/Diário do Comércio e Divulgação



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