Sustentabilidade

Eldorado paulistano – Chegou a hora do Centro?


Há 25 anos, a Associação Viva o Centro deu a arrancada para recuperar a força e a beleza da região central de São Paulo. O que ainda falta fazer para reconquistar o amor dos paulistanos


  Por Inês Godinho 18 de Outubro de 2016 às 08:00

  | Jornalista especialista em sustentabilidade e gestão, a editora atuou no Estadão, na Editora Abril e na Folha de S. Paulo


Um dos aspectos que chamam a atenção de quem circula pela região da Sé e República, em São Paulo, fortalece a esperança de quem sonha com um centro prestigiado e pulsante de novas vocações.
 
Ao lado de funcionários públicos, comerciários e advogados, circula uma leva de jovens ligados à economia criativa e à tecnologia, que elegeram o centro como nova meca cultural e produtiva da cidade. Para trabalhar, morar e até se divertir.

TEATRO MUNICIPAL, VALE DO ANHANGABAÚ E VIADUTO DO CHÁ - O CENTRO QUE VALE OURO

Todos devem um agradecimento à Associação Viva o Centro. Em 2016, a entidade comemora 25 anos de atuação. Criada em 1991 em um momento crítico para a região, tem um longo currículo de conquistas para celebrar. E mantém à mão o diagnóstico do que falta fazer.

Como procede a cada troca de gestão municipal, a Viva o Centro entregou aos candidatos a prefeito um documento com propostas para a região. As ideias reproduzem a evolução vivida pela entidade. E mostram a mudança de visão estratégica sobre São Paulo

Da defesa de preservação de um espaço vital para a cidade, que expressava um olhar nostálgico, os planos evoluíram para um entendimento do futuro e do papel da capital como uma cidade mundial. 

Ainda não se sabe quais serão levados em consideração pelo prefeito eleito João Dória (PSDB). Seu plano de governo não previa ações específicas para a região

"Desde sua fundação, a Viva o Centro defende que precisa haver vontade política do prefeito para tratar as questões do centro como relevantes e equipar sua gestão para tocá-las", afirma Milton Santos, presidente da entidade. "Esperamos que a nova administração municipal reconheça a recuperação da região como estratégica para o desenvolvimento de São Paulo".

PESADELO URBANÍSTICO

Quando grandes empresas e instituições abandonam uma região dinâmica e consolidada, como os centros das metrópoles, um pesadelo urbanístico se concretiza.

"No momento em que uma empresa sai do centro, leva consigo não apenas o acesso dos seus clientes que iam até ela. Leva também o seu corpo de funcionários, que são os clientes das lojas, restaurantes e dos outros negócios da região."

Cristalina, essa descrição do efeito dominó causador de decadência urbana foi feita por Henrique Meirelles, ministro da Fazenda e na época presidente do Bankboston.

Pode ser usada ao pé da letra para explicar as mazelas que se abateram sobre a região da Sé e da República, o coração de São Paulo, depois que importantes companhias transferiram suas sedes para outros bairros a partir dos anos 1980. 

O esvaziamento das ruas, pelo sumiço do tradicional público circulante da área, e a quebra do comércio, deixando espaços ociosos, ofereceram as condições de abrigo e renda para quem se encontrava na penúria. Camelôs, moradores de rua e a infância abandonada encontraram uma oportunidade no centro paulistano. 
  
Na época, uma das instituições que permaneceram na área foi o Bankboston (comprado mais tarde pelo Itaú). As que também ficaram, como a Associação Comercial de São Paulo (ACSP), a Bolsa de Valores e a Bolsa de Mercarias e Futuros (atual BM&F Bovespa), passaram a conviver diariamente com a nova realidade do centro.
 
Essa realidade consistia em degradação acelerada dos espaços públicos, insegurança para quem dependia da região e desmerecimento do patrimônio histórico, arquitetônico e cultural -um dos mais ricos do país. O paulistano pegou medo de andar pelo seu centro.

O inconformismo com a situação por parte de quem manteve o vínculo com a área chamou a atenção dos executivos do Bankboston, em especial do presidente.

Meirelles conhecia as experiências de recuperação da região central de cidades como Boston e o quanto repercutiram na renovação urbana dessas metrópoles. Ele usou essa inspiração para mover as pessoas interessadas em ter a beleza e a energia da região de volta.

Depois de muita conversa e articulação liderada por Meirelles, nasceu em 1991 a Associação Viva o Centro.

Durante mais de 20 anos, a entidade funcionou como o pólo indutor para as transformações ansiadas pelos moradores, comerciantes, funcionários, turistas e transeuntes da região.

EQUÍVOCO CORRIGIDO

Para escutar o coração do centro, a associação fez um estudo para averiguar as principais reclamações e as causas da crise.

O diagnóstico levantado desmontou mitos e mostrou que faltava um olhar mais generoso sobre a região. Veja alguns dos equívocos que a associação constatou:

*A debandada das empresas ocorreu pelas restrições de tráfego e urbanísticas, que impediam o acesso das pessoas a suas sedes, dificultavam o despacho de correspondência e encomendas, entre outras limitações.
 
*A fama de insegurança se devia mais a uma percepção equivocada causada pelas aglomerações de camelôs, à miséria explícita nas ruas e à sujeira e menos às estatísticas. 
 
*A decadência como pólo de entretenimento, em especial da agitada cinelândia da avenida São João,  ocorreu na mesma época em que a indústria do cinema sofria sua pior crise. Não era um fenômeno particular do centro de São Paulo. 

*O excesso de prédios desocupados decorria da falta de uma lei de ordenação urbana que estimulasse a requalificação dos prédios antigos e a construção de novos para atrair pessoas e empresas. E não à má vontade de proprietários com a região.

Na ânsia de proteger o centro, os legisladores e burocratas o sufocaram com medidas restritivas, como as limitações de construção e a proibição de novas garagens.

Eles trabalhavam com a ideia de que a região não tinha mais condições de absorver pessoas, veículos, prédios e atividades e precisava ser protegida. 

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A Viva o Centro apontou exatamente o contrário – a área mantinha a vitalidade, não estava decadente, incentivava a diversidade de funções e pessoas e tinha um enorme potencial de adensamento. Faltava reordená-la, adaptá-la aos novos tempos sem perder a identidade histórica e cultural. 

PODER DE PERSUASÃO

Inicialmente preocupada com o chamado triângulo histórico, a associação logo estendeu sua área de atuação para o centro ampliado.

Colocou sob seus cuidados  os bairros do Bom Retiro, Santa Cecília, Consolação (reúne Higienópolis, Pacaembu e Vila Buarque), Bela Vista, Liberdade, Cambuci, Brás e Pari.

Quem primeiro se beneficiou do apelo da Viva o Centro foi o patrimônio histórico e cultural, com o apoio de agentes culturais e das empresas.

Tomaram a iniciativa de restaurar ou transformar tesouros como a Pinacoteca e o Parque da Luz, o Pátio do Colégio, a estação Júlio Prestes (sede da Sala São Paulo) e a da Luz, o Mercado Municipal e a Biblioteca Mário de Andrade, entre muitos outros.
 
As ações de convencimento da Viva o Centro podem ser identificadas também na decisão de reformar o Viaduto do Chá, remodelar áreas estratégicas, como o Vale do Anhagabaú e organizar a Virada Cultural.

Teve repercussão na implantação de organismos de ensino e pesquisa e fortaleceu a confiança da iniciativa privada para usar o retrofit para dar novo destino a prédios deteriorados. Propôs e conseguiu mudanças na legislação e assim atraiu investimentos do setor de construção civil e hoteleiro (caso do empreendimento Residencial Ca d'Oro) e influenciou a valorização do metro quadrado e dos aluguéis.
 
A Viva São Paulo se destacou em motivar as empresas a financiar representações culturais e educacionais com suas marcas, como o Espaço Porto Seguro, e mostrar a importância da integração da estrutura de atendimento social pública para fortalecer o cuidado com a população carente.

Finalmente, o poder público reconheceu a solidez das propostas da associação, dando início a um movimento considerado decisivo para dar credibilidade à iniciativa.

Tido como o ano da virada para a requalificação do centro, 2001 registrou a transferência da maioria das repartições municipais e estaduais para a região, a começar pela Prefeitura de São Paulo.

PRONTO PARA BRILHAR 

O melhor de tudo, defende a Viva o Centro, é que a requalificação representa uma meta relativamente fácil de ser atingida. O centro tem a melhor infraestrutura entre as regiões paulistanas e ocupa 4,4km2 (menos de 0,3% da área do município).
 
A qualidade do sistema de transporte público não tem igual na capital. Só estações de metrô, são 10. Tudo fica ao alcance de uma caminhada a pé – parques, escolas e universidades, equipamentos culturais, comércio, gastronomia e vida noturna, além de uma grande número de vagas de trabalha. 

Ali se concentram a maioria dos órgãos públicos do município e do estado e alguns dos mais importantes marcos culturais e históricos do país.
 
Nesse espaço minúsculo, residem 85 mil habitantes e circula diariamente cerca de 700 mil pessoas. Se contabilizar o Centro Estendido, há 1,5 milhão de moradores e 2,2 milhões de transeuntes.
  
Faltam os moradores para dar vida à região 24 horas por dia. "O centro representa uma grande oportunidade de desenvolvimento para São Paulo por qualquer ponto que se olhe", disse o presidente da associação. "Seus problemas estão diagnosticados, as soluções propostas e o interesse está crescente." 

QUATRO ANOS PERDIDOS?

Muito se fez e muito falta fazer. A sequência de melhorias só foi interrompida pela última gestão municipal. De acordo com Santos, presidente da Viva o Centro, Fernando Haddad foi o primeiro prefeito a não ter interesse em conversar com a entidade e aproveitar sua capacidade de articulação. 

A inapetência fica visível na queda de atuação da entidade e no retrocesso de ganhos de qualidade duramente conquistados, como o descaso com ruas e monumentos.

"Houve uma piora muito expressiva da região nos últimos anos", lamenta Santos. Ele aponta os sinais de negligência citando a limpeza, iluminação, crescimento de pessoas ocupando as ruas, pichações. "A gente vê claramente a insatisfação da população com o Centro."

A esperança reside em um documento contendo uma exortação ao poder público. A Carta aos Candidatos 2016, agora nas mãos de João Dória, propõe quatro linhas de atuação com prioridades detalhadas. É o fruto de quem há 25 anos estuda e batalha pelo centro. Não precisa inventar a roda.

FOTOS: Divulgação