São Paulo, 29 de Setembro de 2016

/ Sustentabilidade

É hora de sair do hospital
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Cresce no Brasil a tendência de trocar a internação hospitalar pelos cuidados em casa. É um mercado difícil, resistente à crise e repleto de oportunidades para os empreendedores

Gargalo é uma das palavras mais usadas no setor de saúde no Brasil. Falta leito, falta profissional e falta infra-estrutura. Há uma enorme dificuldade para dar sustentabilidade às operações.

Para começar a resolver o problema, calcula-se que sejam necessários R$ 7,3 bilhões. Por conta própria, o mercado vem testando uma saída que espanta pela simplicidade - e se, em vez de levar milhares de pacientes aos hospitais e clínicas, não se levassem os serviços de saúde para a casa de cada um desses pacientes? 

O serviço de atenção domiciliar em saúde (antes conhecido como home care) é antigo no Brasil. Nova é maneira com que passou a ser avaliado. Consultores, investidores e associações setoriais tratam o segmento como uma nova fronteira para os negócios na saúde, assim como vem ocorrendo com as clínicas de baixo custo. Chamada de desospitalização, a tendência é vista como solução para problemas cruciais para o sistema - as internações prolongadas, as reinternações desnecessárias e os atendimentos de urgência que lotam os pronto-socorros. 

LEIA MAIS: Atendimento em casa: o serviço que pode solucionar o nó da saúde

Os especialistas calculam uma economia de até 80% para os envolvidos na questão - os próprios hospitais, as empresas contratantes, os planos e seguradoras e até o sistema público. Na outra ponta, a medida traz conforto e segurança ao paciente por mantê-lo longe dos altos riscos hospitalares e por diminuir a fragilidade da sua posição no mercado. 

MERCADO EM MATURAÇÃO
O serviço de atenção domiciliar foi regulamentado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2006. Prevê dois tipos de cuidados, de acordo com o quadro clínico do paciente: 

Atendimento domiciliar para procedimentos pontuais como exames regulares, curativos e receber medicação intravenosa e até treinamento de cuidadores
Internação domiciliar, que reproduz o atendimento hospitalar na casa dos pacientes, com equipamentos e equipe multidisciplinar.

Ainda há muito por fazer para institucionalizar o serviço, mas criou-se um raro ambiente de consenso entre os players do mercado sobre a sua importância para diminuir os gargalos da saúde. Investidores e associações setoriais estão na expectativa de medidas reguladoras, depois de avaliar o alto potencial de expansão do segmento.

Os dados indicam que o home care é uma das atividades que mais crescem no setor de saúde no mundo e no Brasil, onde se mantém resistente aos sintomas da recessão.

As causas que impulsionam a demanda por home care são as mesmas que fizeram explodir os custos com saúde – avanços tecnológicos, acesso mais amplo ao sistema de saúde e, principalmente, envelhecimento da população, com maior incidência de doenças crônicas (diabetes e insuficiência cardíaca, por exemplo) ou complexas, como câncer, que exigem mais recursos e tempo de internação. Doentes crônicos e estáveis necessitados de cuidados especiais, são o público-alvo do serviço.

ACESSO AMPLIADO
Silenciosamente, em dois anos, os serviços de atenção domiciliar em saúde saltaram de 78 empresas em 2012 para 239, em 2014, em todo o país, de acordo com o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), do Ministério da Saúde. Especialistas do setor calculam que tenham chegado a 400. 

Os números no Brasil ainda são modestos, mas crescem acima de dois dígitos anualmente. Pesquisa realizada pelo Núcleo Nacional das Empresas de Serviços de Atenção Domiciliar (Nead), com dados de 2013, estima que 310 mil pacientes fiquem internados em casa no país e 620 mil estão na categoria atendimento (o novo censo deve mostrar que o atendimento chegou a 1,5 milhão). Há 230 mil profissionais atuando no setor, entre médicos, enfermeiras, assistentes sociais e outros profissionais de saúde.  

Ainda são poucas as empresas de médio porte, com faturamento estimado de R$ 90 milhões, com equipes de 700 pessoas e carteira de 500 pacientes. Uma das maiores do mercado, a Home Doctor trabalha com 2.500 profissionais. A maioria é de pequeno porte, como a ADS Home Care, com cerca de 100 profissionais na equipe. Em 2013, o setor obteve um faturamento estimado de R$ 3 bilhões. 

O serviço sempre existiu para pessoas de alta renda. A diferença do que vem acontecendo é a abertura para uma parcela muito mais ampla de pacientes. “Cerca de 90% das indicações de atendimentos vem pelas operadoras de saúde”, diz Luiz Claudio Rodrigues Marrochi, presidente do Núcleo Nacional das Empresas de Serviços de Atenção Domiciliar (Nead). “Eles avaliam caso a caso o custo-benefício para autorizar a desospitalização.”

A MULTIPLICAÇÃO DOS LEITOS
O cenário no Brasil reproduz com algum atraso o que vem ocorrendo com o home healthy care nos países desenvolvidos. Até 2020, prevê-se um crescimento anual global de 8,1%. Em 2013, o setor registrou uma receita de US$176,1 bilhões e trabalha com a estimativa de atingir US$303,6 bilhões em 2020. 

Os Estados Unidos representam metade deste movimento e entre as tendências que já se verificam no país está a oferta do serviço por meio de redes de franquias e a participação dos fundos de pivate equity para alavancar a expansão.  O impacto do modelo sobre o sistema de saúde pode ser dimensionado pelos dados da entidade americana Associação Nacional de Home Care e Cuidados Paliativos - o custo médio entre pacientes tratados em ambiente hospitalar e os que são tratados em casa cai de U$ 559 para U$ 44 diários.

Uma reportagem do New York Times registrou o mais recente movimento desta tendência. Sob pressão para reduzir os custos e, ao mesmo tempo, aumentar a qualidade, importantes hospitais, como o Mount Sinai, em Nova York, e o John Hopkins, em Baltimore, estão testando levar o atendimento em domicílio ao extremo, oferecendo tratamentos em casa com o mesmo nível do hospitalar para pacientes que exigem cuidados durante as 24 horas, inclusive em emergências. A experiência vem sendo acompanhada de perto por hospitais e sistemas de saúde de todo o país.

Parte dos resultados da experiência foi publicada em uma revista científica e confirmaram o que já se presumia. A maioria dos pacientes tratados em casa exigiu cuidados por períodos mais curtos a um custo menor. Eles apresentaram menor tendência a sofrer delírios ou receber sedativos e não voltaram à emergência nem foram readmitidos com a mesma frequência. Um dos indicadores de controle usados para medir a qualidade de um hospital americano é exatamente a taxa de readmissão de paciente. 

INVISÍVEL PARA A ANS 
Então, se tem tudo para dar certo, o que falta para o serviço deslanchar no Brasil? Trata-se de mais gargalos. Embora tenha sido regulamentado há nove anos pela Anvisa, falta a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) se mover para criar uma legislação que inclua o serviço na cobertura obrigatória das operadoras de saúde. 

Por enquanto, os planos têm agido por conta própria, pois já mensuraram quanto podem deixar de gastar com a desospitalização e o atendimento preventivo, e respondem por quase a totalidade das contratações. Há muito espaço para crescer – o serviço responde por pouco mais que 1% do total de 7,4 milhões de internações custeadas por operadoras.

Para a Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), as empresas de atenção domiciliar tendem a ocupar um espaço cada vez mais estratégico no sistema de saúde brasileiro e se tornar parceiros importantes dos hospitais. Talvez tenha razão o pesquisador ouvido pela reportagem do New York Times: "minha impressão é que, com o tempo, os hospitais se tornarão lugares onde alguém vai apenas para conseguir um cuidado muito especializado, com alta tecnologia."

Imagem: Thinkstock



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