Sustentabilidade

Construção sustentável traz novo fôlego ao mercado imobiliário


A oportunidade de passar de "predadoras" a "benfeitoras" agita o mercado de construtoras e incorporadoras. Melhor para os pequenos negócios, que terão papel essencial nesta transformação, simbolizada pela reforma do Maracanã


  Por Inês Godinho 06 de Dezembro de 2014 às 00:00

  | Jornalista especialista em sustentabilidade e gestão, a editora atuou no Estadão, na Editora Abril e na Folha de S. Paulo


Nas entranhas do mercado de construção civil está sendo gerado um movimento que pode resultar em uma mudança radical para o setor. Veja estes dados:

Desde 2005, o mercado da construção sustentável nos Estados Unidos disparou de U$ 10 bilhões para U$ 236 bilhões. O país lidera o ranking mundial do Green Building Council (GBC), rede de organizações, presente em 150 países, dedicada a estimular e certificar obras mais eficientes, saudáveis e feitas para durar.

Nesse ranking, o Brasil ocupa a terceira posição, com 70 prédios certificados com o selo internacional LEED, do GBC, (entre os quais os estádios da Copa, como o Maracanã) e mais de 500 em processo de certificação . As práticas pregadas pelo GBC e outras instituições do setor começam a se transformar em lei em muitos países, inclusive no Brasil.

Para completar, o Banco Mundial elegeu como prioritário para seus investimentos o setor de construção verde. O organismo de fomento prevê que este movimento representará pelo menos 20% do mercado imobiliário brasileiro até o final da década.

Por que estas informações são importantes para quem tem um pequeno negócio? Indicam que há um movimento irreversível e rápido a caminho em um dos setores com o maior número de fornecedores na cadeia produtiva. E quanto mais cedo alguém se adaptar, melhor proveito terá das oportunidades abertas pelo setor. E menos riscos correrá de sofrer sanções, que tendem a ficar cada vez mais duras em relação à construção descuidada, seja grande ou pequena.  

Entre o céu e inferno

Em uma grande obra, há mais de mil fornecedores envolvidos. Desde corporações fabricantes de cimento e aço a pequenas empresas de produtos e serviços.

Encarado como vilão e objeto de desejo nos grandes centros urbanos, o mercado de construção civil vive entre o céu e o inferno.

Mesmo sendo uma das locomotivas do desenvolvimento, convive com a fama de campeão de informalidade, desperdício exagerado de materiais, práticas ilícitas e, principalmente, predador do equilíbrio ambiental do planeta. De acordo com dados do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS), a cadeia produtiva do setor consome quase metade das matérias-primas extraídas da natureza.

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A reação a este cenário veio combinada com o movimento pela sustentabilidade, o sistema de gestão que leva em conta a integração da economia com a responsabilidade social e ambiental. Desde o início de 2000, os princípios da construção sustentável vêm aos poucos ocupando luga nos projetos ou reformas de habitação, espaços públicos e edifícios comerciais.

Estes cuidados se tornaram mais urgentes com a entrada em vigor da Política Nacional de Resíduos Sólidos, a Lei 12.305/2010, que traz uma série de obrigações para as empresas e cidadãos cumprirem em relação à destinação correta do lixo.

As práticas de construção sustentável são caracterizadas por tornar uma edificação mais funcional e integrada ao lugar em que está erguida. Inclui fatores ambientais e sociais, como o uso racional e o reuso da água e o aproveitamento da água da chuva, preferência pela iluminação natural, uso de materiais menos agressivos ao meio ambiente, economia de energia e uso de energia renovável, encaminhamento corretodos resíduos, conforto térmico e acústico, tratamento justo dos trabalhadores e cuidados com a vizinhança durante a obra, entre outros pontos.

Um mercado em expansão

Como sabe todo empreendedor, onde há mais riscos há mais oportunidades. No alto da cadeia produtiva, as grandes construtoras, como Even, Cyrela e Camargo Corrêa, têm movido suas redes de fornecedores com as premissas da construção sustentável e passaram a planejar boa parte de suas obras para receber uma das certificações à disposição no mercado.

Contribui para a iniciativa a pressão de clientes e investidores, que não abrem mão da exigência de eficiência e custos controlados nos prédios corporativos de alto padrão (chamados de Triplo A).

Na outra ponta da cadeia, o escritório de arquitetura Ecohabitar adota desde 2007 várias práticas de construção sustentável. Instalado na Granja Viana, em Cotia/SP, a empresa é comandada pelo administrador Gonçalo Soares e a arquiteta e bióloga Maria Martha Nader.

“Existem elementos que podem e devem ser utilizados”,diz Gonçalo, “como o aproveitamento dos ventos, a seleção de materiais que exigem baixa manutenção e menos resíduos, a captação da água e seu reuso e a utilização de madeira certificada e materiais de demolição.”

Uma das pragas da construção civil - o desperdício de materiais, que pode chegar a 40% segundo o CBCS – é enfrentado pela Ecohabitar com o uso de tecnologia. Os sócios adotam o programa Modelagem Inteligente, que proporciona uma visão 3D do projeto e, com isso, conseguem calcular com antecedência todas as necessidades e custos da obra.

Em seus projetos residenciais e comerciais, eles propõem a eficiência energética e adequação ambiental a um custo similar a um projeto convencional.

O dilema do custo

As dúvidas com os custos ainda são um dos maiores empecilhos para a difusão da construção sustentável no país. De acordo com Érica Ferraz de Campos, diretora do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS), fórum de empresas e profissionais dedicado à divulgação técnica sobre o tema, acreditar que o gasto excessivo faz parte de obras verdes é uma concepção equivocada.

“O conceito de construções sustentáveis associa-se diretamente aos espaços racionais e eficientes. Significa apresentar um potencial de menor consumo de insumos, tanto na fase do projeto quanto na execução”.

O diretor da Ecohabitar reforça esta visão: “O melhor jeito de economizar em uma obra sustentável é pensar na forma como será a sua utilização futura. Recursos como o aproveitamento de água da chuva, o aquecimento solar e uso de telhados verdes, além de gerar uma economia muito grande após dois a três anos de utilização, ainda fazem com que o cliente consiga melhores vantagens ao fazer um financiamento bancário”.

Para a consultora do Sebrae Dórli Martins, no entanto, o grande entrave para as pequenas empresas que desejam entrar nesse mercado é a falta de informação técnica. “O pequeno empresário acredita que só as grandes empresas têm acesso à sustentabilidade e que tornar o seu negócio mais verde será muito custoso”, diz. 

Conduzida pelo próprio conselho, a pesquisa Aspectos da Construção Sustentável no Brasil e Promoção de Políticas Públicas, que ouviu 381 pessoas do setor este ano, confirma a carência de conhecimento técnico e de capacitação. E revela o que mais está por trás da dificuldade de assimilar as vantagens da construção sustentável.

A maior parte das respostas aponta também como limitadores a falta de campanhas de esclarecimento à população e de demanda por maior grau de capacitação técnica dos envolvidos; a necessidade de criação de ferramentas específicas; a inexistência de incentivos e linhas de financiamentos; e a melhora da legislação e regulamentos específicos. 

Os americanos levaram oito anos para consolidar um caminho sustentável para a construção civil, e hoje o setor está 20 vezes maior. Ao fazer isto, desbravaram um novo mercado para grandes e pequenas empresas do país. Mesmo demorando um pouco mais, o Brasil caminha para chegar lá. 

(Com reportagem e pesquisa de Bianka Saccoman)