São Paulo, 04 de Dezembro de 2016

/ Sustentabilidade

Atendimento em casa: o serviço que pode resolver o nó da saúde
Imprimir

Preparado para zelar por pacientes fora dos hospitais, o mercado de homecare ainda precisa superar entraves operacionais e legais para se expandir

Poucas coisas são tão invasivas da vida em família quanto os cuidados de saúde no domicílio. Um doente grave em casa significa conviver 24 horas com estranhos e equipamentos. Mas poucas coisas trazem tanto alívio quanto ter a opção de cuidar de um parente ou ser cuidado em casa, bem longe de um hospital.

É a profissionalização desta alternativa, chamada de atenção domiciliar à saúde ou home care, que começa a movimentar um mercado com enorme potencial de crescimento, visto como uma das melhores soluções para desatar o nó da saúde. 

Os especialistas calculam que a transferência dos cuidados do hospital para a residência, tendência conhecida por desospitalização, reduza em de até 80% os gastos para o sistema de saúde.

Acompanhando uma tendência mundial, em dois anos o número de empresas especializadas em atenção domiciliar à saúde (home care) no país saltou de 78 para 239 e pode chegar a 400 em 2015.

É uma atividade que mobiliza 230 mil profissionais, entre médicos, enfermeiras e assistentes sociais, entre outros especialistas. O Núcleo Nacional das Empresas de Serviços de Atenção Domiciliar (Nead) estimou o faturamento do setor em R$ 3 bilhões, dois anos atrás.

LEIA MAIS: É hora de sair do hospital

Duas empresas baseadas em São Paulo são emblemáticas das possibilidades que este mercado oferece: a Home Doctor, de porte médio, e a pequena ADS. Elas atuam nos dois tipos de serviços previstos para a atividade, regulamentada pela Anvisa em 2006: atendimento domiciliar e internação domiciliar, a que reproduz o ambiente hospitalar na casa dos pacientes, com equipamentos e equipe multidisciplinar.

VENCENDO OS DESAFIOS

Uma das maiores do Brasil, a Home Doctor montou uma grande estrutura de logística e atendimento, com 2.500 profissionais de saúde, para cobrir todas as demandas necessárias para os casos complexos de internação hospitalar, a área em que se concentrou. A ADS, com 100 funcionários, se especializou no cuidado personalizado e treina seus profissionais para que sejam reconhecidos pela família atendida. 

Para as duas empresas, no entanto, os problemas são iguais: precisaram desenvolver procedimentos para minimizar o impacto de sua presença na intimidade das famílias, fazer gestão de pessoas em condições complicadas e controlar custos e processos em um ambiente pouco favorável aos negócios. O risco de processos trabalhistas ronda permanentemente o setor.

De acordo com Luiz Claudio Rodrigues Marrochi, presidente do Nead, “a atividade depende da terceirização para ser viável”, o que faz as empresas esperarem com expectativa a aprovação da lei que regulamento o tema.

As relações de trabalho seguem diferentes formatos –-CLT, Pessoa Jurídica, cooperativas, dependendo da categoria. A maioria adota o sistema de cooperativa para contratar os serviços de auxiliar de enfermagem, que constitui o maior contingente de mão de obra. 

É o caso da Home Doctor, fundada em 1994 em São Bernardo, por três médicos que trabalhavam para as montadoras de veículos da região.

“Recomendamos às empresas que alguns pacientes incapacitados fossem cuidados em casa ao constatarmos que não precisavam do hospital”, conta José Eduardo Ramão, cofundador da Home Doctor. A proposta de fornecer uma estrutura completa de suporte profissional e equipamentos para atendimento em domicílio foi oferecida a outras empresas.

RAMÃO, COFUNDADOR DA HOME DOCTOR: 2,5 MIL PROFISSIONAIS CADASTRADOS

 

Foram sete anos de trabalho duro para catequizar o mercado, de acordo com o médico. “Havia muita desconfiança”, diz. O ponto de virada foi a adesão de uma operadora influente do setor, o que abriu as portas para as outras.

Hoje, a empresa atende a Grande São Paulo e boa parte do interior, além de possuir unidades em Brasília, Rio de Janeiro e Salvador. A maioria absoluta dos contratos provém das operadoras.

ESCALA OU CUSTOMIZAÇÃO

Criar escala é um dos grandes desafios para a área. Muitos consideram isso impossível, devido às características do negócio. A Home Doctor necessita de 2,5 mil profissionais para atender a carteira de 730 pacientes em internação domiciliar (que exigem cobertura de 24 horas, sete dias por semana) e 3,3 mil de atendimento domiciliar. 

O porte reduzido da ADS, de acordo com a administradora Rosângela Almeida, sócia-diretora, faz parte do modelo escolhido. Mesmo assim, a proporção entre o tamanho da equipe e o número médio de atendimentos se equipara ao da Home Doctor. A empresa, fundada em 1993, foi comprada por Rosângela em 2005, quando trabalhava no mercado financeiro. 

“Sempre desejei ter uma empresa e sempre fui apaixonada pela área de saúde”, explica. “Saúde exige trabalho duro, mas poucos setores são tão gratificantes para empreender”.

Ela ainda conciliou durante dois anos as duas atividades. Hoje, tem dedicação integral à gestão, profissionalizada para dar conta de uma equipe de 100 pessoas e uma carteira de, em média, 20 pacientes em internação domiciliar e 50 em procedimentos e gerenciamento de rotinas. O jogo de cintura e o controle de custos são essenciais para lidar com a oscilação natural do setor e os imprevistos.

Em cada residência, a customização é inevitável. As fronteiras existentes nos ambientes de saúde caem por terra e os profissionais passam a ser avaliados por critérios pessoais. Há casos de famílias que trocam mais de 10 vezes o pessoal de atendimento por incompatibilidade, disse o presidente da Nead.

Em algumas casas se espera que a auxiliar de enfermagem faça as tarefas domésticas, o que está completamente fora do escopo da atividade. “É uma relação delicada para os dois lados, daí a necessidade de se ter equipes muito grandes.”

MERCADO EM FORMAÇÃO

Encontrar o equilíbrio entre as sutilezas do atendimento e as exigências técnicas torna-se um exercício permanente para quem atua no setor. O serviço segue as condições de atendimento hospitalar, com prontuário do paciente, auditoria interna das equipes, reuniões para estudo de caso, pesquisa direta e indireta com os pacientes e familiares, canal de queixas e reuniões periódicas com as operadoras para discutir indicadores de qualidade.

Não é difícil entender porque o ponto crítico do negócio está em encontrar e manter pessoal qualificado. “Trata-se de um setor jovem, os profissionais estão se adaptando”, afirma Marrochi. Nem o meio acadêmico assimilou a modalidade, explica. Faltam ainda conhecimento acadêmico e pesquisas e só agora estão sendo estruturados os primeiros cursos de pós-graduação na área. 

Do lado do negócio, o aprendizado sobre gestão é indispensável em relação a processos e controle de custos. O investimento inicial depende da complexidade do serviço que a empresa escolher.

Para o atendimento hospitalar completo, além da montagem de uma equipe multidisciplinar de saúde e um corpo administrativo, precisará de uma estrutura sofisticada de logística, com locais de depósito de equipamentos e medicamentos e frota de transporte para as equipes e materiais. 

A Home Doctor instalou um centro operacional em uma região de fácil acesso na capital paulista. “Trabalhamos em um serviço sujeito a emergências. A logística é tão importante quando a excelência técnica”, diz Ramão. 

OPORTUNIDADES E...
O crescente interesse das operadoras não é o único indício do potencial de crescimento do home care. De acordo com a Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), as empresas de atenção domiciliar tendem a se tornar parceiros importantes dos hospitais. Instituições de referência já implantaram equipes para fazer a gestão do serviço, em conjunto com os planos de saúde. 

No Hospital Albert Einstein são feitas cerca de mil indicações por ano; no Sírio Libanês cresceram 54% entre 2013 e 2014. Na rede pública, o SUS implantou o programa Melhor em Casa e habilitou mais de 700 equipes para atender pacientes em casa. A prestação do serviço, no entanto, depende do interesse das prefeituras e estados. 

Por enquanto, o Brasil apresenta números pouco expressivos perto de alguns países, mas o ritmo de crescimento se mantém alto. Estimativas do Nead projetam cerca de 1,5 milhão de pacientes atendidos em casa em 2015.

Ainda são poucas as empresas de médio porte, com faturamento estimado de R$ 90 milhões, com equipes de 700 pessoas e carteira de 500 pacientes. Consultores especializados no mercado de saúde prevêem a repetição no país da entrada dos fundos de private equity e empresas estrangeiras interessadas em implantar redes de franquia. 

... DESAFIOS 

O potencial atrativo do mercado, no entanto, ainda esbarra nos gargalos crônicos da área de saúde no Brasil. Mesmo regulamentada há nove anos pela Anvisa, a atividade não foi incluída entre os procedimentos de cobertura  das operadoras pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

Por um lado, os planos de saúde adotaram o serviço por suas vantagens. De outro, estão sujeitos à prática da justicialização, o caminho drástico dos processos judiciais seguido pelos pacientes para ter acesso a tratamentos e medicação recusados pelos planos. 

O caminho da justicialização acrescenta mais incertezas a quem empreende, segundo o co-fundador da Home Doctor, e se soma às condições de trabalho e à forte regulamentação para aumentar a complexidade do segmento. Quem tem experiência na área, como a criadora da ADS, avisa a quem quer empreender - não é simples, não é barato e especialmente, não é fácil. 

Como se vê, são condições ideais para um espírito empreendedor. Trata-se de uma atividade cada vez mais necessária para a sociedade e por isso tem seu espaço garantido no longo prazo.  Para aproveitar todo seu potencial, falta desatar os nós regulatórios, tributários e trabalhistas. 

Imagem: Thinkstock

 



Quer saber como lidar com mudanças? A Rede Ubuntu, criada por Eduardo Seidenthal, se especializou em preparar pessoas e empresas para dar o salto que o mundo exige. A própria rede é o exemplo

comentários

Prazo para alcançar a meta prevista pelo Programa 50-50 é 2030. Para a entidade, a conquista de direitos iguais para homens e mulheres tem como primeiro passo ampliar a participação feminina na política

comentários

Além do banco, Ibama multou tradings de pequeno porte. Lista de terras embargadas é pública

comentários