São Paulo, 30 de Setembro de 2016

/ Sustentabilidade

As mulheres dispensam uma voz masculina em sua defesa
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Por que as executivas do Vale do Silício, nos Estados Unidos, preferem o silêncio deste acadêmico que prega a diversidade de gênero?

Por Farhad Manjoo/Foto: Christopher Gregory

Nos últimos tempos, o Vale do Silício acabou percebendo que não é a meritocracia que sempre fingiu ser – ao menos não quando se trata de mulheres e da maioria das minorias.

Agora, depois de anos ignorando o assunto, e de críticas pesadas de pessoas como o reverendo Jesse L. Jackson, as empresas de tecnologia dizem que farão alguma coisa quanto ao abismo na contratação entre homens brancos e asiáticos e quase todo o resto.

Contudo, o que devemos compreender do fato que uma das vozes mais francas a favor das mulheres na tecnologia tem sido – muito estranhamente – a de um homem?

Vivek Wadhwa é um empreendedor que virou acadêmico e é coautor, com Farai Chideya, do livro "Innovating Women" (mulheres inovadoras, em tradução livre). Wadhwa (na foto acima), de 57 anos, tem ligações com Stanford, Duke e o "think tank" Singularity University, com sede no Vale do Silício.

Figurinha fácil do circuito de palestras e da imprensa, em que costuma conclamar as empresas de tecnologia a abordarem a diversidade de gênero.

Ao menos era assim, até que ele jurou parar de falar a favor da diversidade de gênero depois de críticas intensas de mulheres do setor de tecnologia que não o viam nem como aliado nem como porta-voz. "Já fiz o que eu precisava fazer. Não sou mais necessário, e sei disso", declarou Wadhwa durante entrevista.

Homens que gostariam de se tornar aliados na luta pela igualdade das mulheres no setor de tecnologia aprenderão uma lição nessa história sobre como se comportar: vejam como Wadhwa agiu quando enfrentou críticas de mulheres do setor. Então, façam o contrário.

"PROSTITUTAS SIMBÓLICAS"
As mulheres do segmento o criticaram pela articulação desastrada a seu favor. Para elas, ele tinha a propensão de cometer gafes indignantes, incluindo se referir às mulheres em empresas de tecnologia como "prostitutas simbólicas", frase que mais tarde Wadhwa atribuiu ao seu inglês ruim.

Ainda de acordo com as críticas, a mensagem de Wadhwa às mulheres – que deveriam se tornar mais confiantes para sobreviver no duro mundo da tecnologia – estava ultrapassada e poderia surtir o efeito contrário para as que o seguissem.

E quando foi questionado sobre esses pontos, ele reconheceu ter a "cabeça quente", adotando um tom defensivo, até mesmo ofendido no Twitter. Wadhwa disse estar sob o ataque de "feministas radicais", alegando que "fez mais pela causa das mulheres na tecnologia do que ninguém". O estudioso costuma responsabilizar as críticas ao seu modo de se expressar ao fato de ser um imigrante que não entende a gíria da internet.

"Ele recorre ao fato de ser imigrante, de ser vítima e isso complica a objetividade", afirmou Mary Trigiani, consultora de administração que teve alguns arranca-rabos com Wadhwa.

O episódio como um todo poderia ser descrito como uma mera confusão motivada pelo Twitter, mas as mulheres que o criticaram argumentam que a batalha tem um significado maior.

Para elas, o fato de ele se tornar porta-voz das mulheres na tecnologia apesar de seu questionamento quanto à sua mensagem é sintomático de um setor que parece inclinado a ouvir os homens e não as mulheres, mesmo quando estes não são muito qualificados para comentar.

"Não acho que ele tenha feito muita coisa de bom", afirmou Karen Catlin, ex-consultora de Engenharia de Programação e vice-presidente da Adobe Systems que agora trabalha como consultora e defensora das mulheres no segmento. "Ele fechou muitas portas com a comunidade feminina."

Wadhwa começou a escrever sobre as mulheres na tecnologia em 2010, depois que sua esposa destacou que poucas mulheres estavam no Crunchies, premiação anual para empresas novatas. Ele investigava empreendedorismo e imigração, mas viu que a questão das mulheres no segmento era um nicho inexplorado.

Assim, o acadêmico assumiu o bastão, explorando a questão do desequilíbrio em dezenas de artigos para a imprensa, bem como em palestras. Em pouco tempo, tornou-se uma referência no assunto, a fonte a ser procurada por jornalistas interessados em conhecimento renomado.

Wadhwa foi entrevistado há pouco tempo por uma repórter da "Newsweek", Nina Burleigh, para uma reportagem de capa publicada em fevereiro sob o título de "O que o Vale do Silício pensa das mulheres".

Stuart Goldenberg/The New York Times

 

Na matéria, para a qual entrevistou mais de 30 mulheres, Nina parafraseou as ideias do estudioso desta maneira: "Wadhwa afirma que as mulheres relutam em exagerar suas conquistas e metas; elas costumam minimizá-las".

A frase não caiu bem para Amelia Greenhall, web designer e diretora executiva da Double Union, oficina comunitária para mulheres em San Francisco, que escreveu uma postagem de blog amplamente compartilhada condenando Wadhwa.

Algumas das acusações de Amelia foram exageradas. Em sua postagem e em um podcast produzido pela estação de rádio pública WNYC (mais tarde removido e substituído por uma continuação porque, segundo a rádio, a princípio os produtores não solicitaram comentários de Wadhwa), Amelia especulou que o criticado obtivera lucros financeiros com sua defesa, acusação que ele refuta com veemência e sobre a qual não existe muita evidência.

Ela também sugeriu que havia algo de inapropriado em convidar uma crítica a seu escritório para discutir suas ideias sobre mulheres que trabalham com tecnologia. Embora não tenha sido direta, Amelia deu a entender que questionava os reais motivos do estudioso.

Ela não quis comentar a postagem comigo, mas Wadhwa insiste ter interesse sincero em ver mais mulheres conquistando sucesso na tecnologia. Muitas delas que o conhecem e que trabalham com ele suportam essa afirmativa, respaldando suas boas intenções. Outras culparam os críticos por não lhe darem o benefício da dúvida.

REPÚDIO

"Eu não acho que o movimento feminista, como um todo, tenha um dia se interessado em descobrir como lidar com Vivek", disse Elissa Shevinsky, cofundadora da empresa de troca de mensagens Glimpse.

Todavia, nessa questão complexa e delicada, não basta simplesmente ter boas intenções.

"Eu o considero bem-intencionado, mas sua mensagem e sua voz estão prejudicando as mulheres. Isso não tem nada a ver com seu gênero ou identidade étnica, mas com o que está dizendo, e como ele está se expressando", declarou Sarah Szalavitz, diretora-presidente da 7 Robot, agência de design.

Tome a afirmativa de Wadhwa segundo a qual as mulheres que trabalham com tecnologia costumam subestimar suas conquistas e deveriam adotar um tom arrogante.

Em artigo respondendo ao podcast da WNYC, o acadêmico escreveu que suas constatações eram produto de duas pesquisas, mas estas não mencionam o problema da confiança. Quando lhe indaguei a respeito, ele respondeu que a ideia nasceu de muitas entrevistas com mulheres.

As críticas reconhecem que as mulheres às vezes subestimam seus pontos fortes, mas ressaltam outra preocupação: estudos demonstram que quando elas falam em negociações ou outras reuniões, costumam ser penalizadas. Será que as mulheres deveriam macaquear o ar de bravata e a confiança excessiva que caracterizam os homens que mais fazem nos encolher de medo do Vale do Silício?

"Acho que em 2015 nós podemos dar às mulheres um conselho melhor do que 'comportem-se mais como homens'", declarou Cate Huston, engenheira de software que trabalhou no Google e na IBM.

Pelo contrário, a resposta de Wadhwa às mulheres que questionavam suas ideias costuma reforçar sua crença de que os homens não gostam quando elas se expressam.

"Acho que existe valor em homens que tocam nesse assunto, acredito mesmo. Porém, se você diz que é preciso ser durona, intervir, se manifestar, nós vamos fazer isso", afirmou Melinda Byerley, consultora de marketing que trabalhou em várias empresas de tecnologia.



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