Opinião

Uber se torna parte do debate político


O Uber, na verdade, traz duas questões para o mercado de táxi: a revolução do smartphone e o distanciamento das leis de proteção aos empregados


  Por Paul Krugman 13 de Agosto de 2015 às 16:11

  | Economista americano, 62 anos, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, é professor e autor de 21 livros (c)2015 The New York Times


Talvez você jamais imaginasse que um serviço de táxi pudesse chegar a ocupar um lugar central no palco das nossas grandes discussões políticas. E, no entanto, o Uber se tornou uma questão política surpreendentemente importante nos EUA. Por quê?

Bem, o Uber, na verdade, traz duas questões para o mercado de táxi. Uma delas é a revolução do smartphone: agora basta tocar em uma tela para conseguir um carro. É melhor do que ficar em pé na chuva balançando o braço e xingando o sujeito que aparece do nada a meio quarteirão de distância e pega o carro que você estava tentando chamar.

A outra questão é que o sujeito que trabalha para o Uber é, supostamente, autônomo, e não um funcionário da empresa, o que a isenta da maior parte das regulações criadas para proteger os interesses dos empregados.

É esse segundo aspecto que provoca tanta discórdia na política em torno do serviço. De um lado, os republicanos estão ansiosos para desmantelar o maior número possível de proteções que puderem. Portanto, da perspectiva desses indivíduos, a estratégia adotada pelo Uber em relação aos seus motoristas — eles não são problema nosso — seria desejável, independentemente da tecnologia utilizada.

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Por outro lado, presenciamos recentemente o surgimento do chamado "novo consenso liberal", segundo o qual (com base em inúmeras evidências) os salários são determinados muito menos rigidamente — ao contrário do que se imaginava —pela oferta e pela procura, portanto as políticas públicas podem, e devem, insistir com os empregadores para que paguem mais. Se você é legislador, e defende essa política, não vai querer ver de jeito nenhum os empregadores sabotá-la com o argumento de que não são, de fato, empregadores.

Sem dúvida é possível separar essas duas questões — promover o uso de novas tecnologias sem prejuízo para os interesses dos trabalhadores. É nesse sentido que os progressistas devem trabalhar, e não se deixar rotular de inimigos da inovação. Hoje, Wall Street odeia os democratas.

Em um artigo na Vox, Jonathan Allen observou recentemente que Hillary Clinton, às vezes ridicularizada pela esquerda por fazer o jogo de Wall Street, tem recebido menos dinheiro de Wall Street do que as pessoas pensam. Em seu artigo, Allen assinala que durante o governo do seu marido, Hillary era conhecida por sua relativa antipatia por tipos ligados às finanças, o que talvez explique parte da história. Contudo, é importante também situar isso no contexto da guinada radical do segmento financeiro que passou a se opor aos democratas de modo geral.

Em 2004, diante de uma eleição presidencial cujo resultado era incerto, a indústria das finanças e as seguradoras acabaram por dividir quase que igualmente sua contribuição entre os partidos. Contudo, em 2012, contribuíram com um montante mais do que duas vezes maior para os republicanos em detrimento dos democratas. A razão, é claro, era a reforma financeira. Quem quer que diga que essas reformas não resultaram em nada e que não há diferença alguma entre os partidos políticos deveria seguir o dinheiro, para o qual a diferença, na verdade, é muito grande.