Trump acertou na mosca de seu eleitorado


Com o ataque de mísseis à base síria, em resposta ao uso de armas químicas, o presidente americano jogou para a galera e sabe que receberá dela – são seus eleitores – gestos de aprovação


  Por João Batista Natali 07 de Abril de 2017 às 19:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Donald Trump partiu para um jogo solitário ao bombardear a Síria na madrugada desta sexta-feira (07/04), sem consultar o Conselho de Segurança da ONU ou ao menos informar o Congresso norte-americano.

A lógica por trás do lançamento de 59 mísseis Tomahawk sobre a base militar síria de Al Shayrat foi basicamente a de dar uma satisfação ao coração amolecido dos eleitores que se comoveram, em redes sociais, com as imagens de crianças asfixiadas, na terça, com as armas químicas lançadas pelo ditador Bashar Al Assad sobre uma cidade síria contrrolada pelos rebeldes.

Criou-se, no entanto, uma dinâmica internacional, favorável a curto prazo à Casa Branca. O Reino Unido, a França e a Alemanha aplaudiram a punição da ditadura síria, que está hoje em posição favoravel na Guerra Civil de seis anos.

Trump também se curtou à lógica que consiste em fazer tudo ao contrário da suposta herança maldita deixada por seu antecessor, Barack Obama.

O ex-presidente não interveio diretamente no conflito sírio, mesmo depois que, em agosto de 2013, as armas químicas de Assad mataram 1.400 civis que abrigavam forças revoltadas contra o governo.

Cabe lembrar que o então empresário Donald Trump apoiava o comportamento do presidente democrata. Durante sua campanha presidencial, em 2016, reiterou que os Estados Unidos não deveriam intervir na Síria.

Até a semana passada, sua embaixadora na ONU, Nikki Haley, afirmava que para o governo norte-americano o afastamento de Assad não era uma prioridade. Mas na última quarta-feira o Departamento de Estado passava a argumentar no sentido contrário.

Era uma reviravolta significativa. A exemplo do que pensava Obama, a diplomacia americana sabia que a queda de Assad criaria um vazio que os grupos radicais muçulmanos procurariam ocupar. Melhor, então, não criar caso maior com a manutenção da ditadura, mesmo com o apoio aos grupos rebeldes.

A questão era bem mais complexa por envolver a Rússia. Vladimir Putin é um aliado incondicional de Assad pela simples razão de que a Síria cedeu um pedacinho de litoral para que os russos construissem a única base naval que têm no Mediterrâneo.

As embarcações militares em águas quentes permitem monitorar Arábia Saudita, Jordânia, Iraque e Emirados do Golfo que têm sólidas alianças com o governo norte-americano.

Na madrugada da chuva de dez minutos de mísseis sobre Al Shayrat o Pentágono sabia que os militares russos não corriam nenhum risco. Eles não estavam presentes naquela base, escolhida porque foi de lá que decolou o caça sírio que bombardeou na terça, com armas químicas, a cidade síria em poder de forças rebeldes.

Os russos têm para seus caças uma outra base em terra firme, a de Hmeimim, que é protegida por mísseis antiaéreos. Aliás, na tarde desta sexta o Kremlin anunciuou que forneceria a partir de agora esse mesmo sistema militar de proteção às bases da aviação de Assad.

A única precaução tomada pelo Pentágono, minutos antes da operação da madrugada desta sexta (4h40, hora local) foi avisar a Rússia, para que ela liberasse o espaço aéreo e evitasse qualquer incidente com suas aeronaves.

Em verdade, desde setembro de 2016 Washington e Moscou têm um acordo mútuo de divisão do espaço aéreo sírio, justamente para evitar o confronto entre suas aeronaves.

Os objetivos das duas potências era e continua a ser diferente. Os russos atuam  como força auxiliar de Assad no bombardeio a forças rebeldes, enquanto os Estados Unidos auxiliam esses mesmos rebeldes, preferencialment no confronto que mantêm com o Estado Islâmico.

O resultado, no entanto, é que Donald Trump azedou suas relações com Moscou. O que, de certo modo, tinha para ele alguma conveniência imediata.

Trata-se de jogar água fria na fervura criada pela sensação de que os russos foram em parte responsáveis por sua eleição nos Estados Unidos, por meio de operações de espionagem pela internet, que desvenderam e-mails da candidata democrata Hillary Clinton.

Ou ainda contatos constantes da Embaixada russa em Washington com executivos da campanha republicana de Trump, nos meses que precederam a votação de novembro último e da qual o atual presidente foi o vencedor.

Mas as relações internacionais são bem mais complexas. Ao se contrapor à Rússia, os Estados Unidos também intervêm indiretamente no conflito intra-muçulmano no Oriente Médio.

O Kremlin e Assad são aliados do Irã, país de maioria xiita, que intervem na Guerra Civil da Síria por intermédio das milícias xiitas do Hizbollah, baseadas no Líbano.

E os xiitas são maioria no Iraque, onde o equilíbrio com a comunidade sunita foi sempre precário, e de onde sunitas radicais debandaram das Forças Armadas para criar há três anos o Estado Islâmico.

Há dúvidas sobre a possibilidade de Trump ter levado tudo isso em conta. Ele não tem um pensamento voltado para a cena internacional. Seu comportamento errático e impulsivo não esconde nenhuma doutrina com consistência reconhecida.

Por exemplo, ao defender há meses a suspensão das sanções econômicas contra a Rússia, pelo fato de ela ter invadido a Ucrânia e anexado a península da Crimeia, Trump praticamente inocentava Moscou de um intervencionismo condenado pelo conjunto da comunidade internacional.

Trump não se dava conta de que, no caso da Crimeia, Vladimir Putin quis pura e simplesmente dissuadir o Leste Europeu de prosseguir sua proximação com a União Europeia e com a Otan, a aliança militar ocidental que tem no Pentágono sua principal pilastra.

O fato é que o bombardeio de Al Shayrat, nesta madrugada, não modificará o curso da Guerra Civil na Síria, que já dura seis anos e que, pelos cálculos conservadores, já mataram 360 mil civis e provocaram o caos humanitário de refugiados – na Jordânia, no Líbano e, em menor escala, na Europa.

Mas Trump jogou para a galera e sabe que receberá dela – são seus eleitores – gestos de aprovação. Foi apenas nisso que ele pensou ao determinar que a Marinha americana disparasse essa batelada de mísseis a partir de embarcações ancoradas no Mediterrâneo.

A Rússia vai reclamar no Conselho de Segurança, como já o está fazendo nesta sexta ? Obviamente que sim. Mas Trump pouco liga para a ONU, onde na véspera sua embaixadora anunciou aos demais membros – os cinco permanetes e os dez com mandatos provisórios – que pouco ligava para a possibilidade de se aprovar uma resolução.

O que interessava, para os Estados Unidos, era ser desta vez o mocinho contra os bandidos que utilizam armas químicas, condenadas por acordos internacionais.