São Paulo, 09 de Dezembro de 2016

/ Opinião

Tancredo e Maluf
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Paulo Maluf não foi apenas o candidato derrotado por Tancredo Neves no Colégio Eleitoral. Ele também ajudou a construir a transição democrática

Há 30 anos, o Colégio Eleitoral criado por Ernesto Geisel se reuniu e elegeu Tancredo Neves presidente da República. Como seu vice foi escolhido José Sarney, que havia deixado pouco tempo antes a presidência do PDS, partido de apoio ao regime militar.

Os eleitores eram quase que todos parlamentares e apenas 26 dos quase 600 não votaram. O PT, partido hoje no poder, não votou e ainda expulsou três deputados que achavam que a eleição de Tancredo seria a consolidação da abertura democrática concebida pelo presidente João Figueiredo e desejada pela sociedade.

Todos sabem das qualidades de Tancredo como político hábil, equilibrado, de bom senso, avesso a radicalismos. Sua presença nacional vinha de longe. Foi o último ministro da Justiça de Getúlio Vargas e discursou em seu túmulo, em São Borja.

No entanto, o que pouco aparece no noticiário é que Tancredo tinha um oponente, que era o deputado mais votado do Brasil, Paulo Maluf, ex-prefeito e ex-governador de São Paulo e que vencera, meses antes, a convenção do PDS contra o candidato da preferência do governo, ministro Mário Andreazza, nome associado às grandes obras de transportes, saneamento e habitação dos governos Costa e Silva, Médici e Figueiredo.

O papel de Maluf na redemocratização é pouco conhecido. Negou-se a renunciar à candidatura, previamente derrotado que estava, para gerar um impacto no processo. Esteve pessoalmente com Tancredo, em encontro reservado no Rio. Eram velhos amigos, apesar da diferença de idade. Tancredo foi íntimo de seu cunhado Ricardo Jafet, poderoso presidente do Banco do Brasil, na Era Vargas. Foi Jafet quem despertou em Maluf, empresário, nascido muito rico, o gosto pela política. E sua presença no Colégio Eleitoral confirmou o sentido democrático da disputa. 

Foram dignos, exemplares até, os 180 políticos que votaram no derrotado Paulo Maluf, quando Tancredo teve 480 votos. Não houve toma lá, dá cá. E Maluf teve votos de ilustres brasileiros, como o caso de Roberto Campos, então senador pelo Mato Grosso. Mas o destino não permitiu que Tancredo tomasse posse, o mandato foi cumprido por José Sarney, que convocou a Constituinte.

Observando a lista dos eleitores, dos postulantes, verificamos que a qualidade era superior a de nossos dias. Maluf concorreu mais duas vezes, em pleito direto, e vem desempenhando, com dedicação, mandatos de deputado federal. Político controvertido e muito combativo, não é de atacar ninguém; prefere defender as obras que legou à cidade e ao Estado de São Paulo.

Pena que a intolerância e a falta de hábito de aceitar as opiniões divergentes provoquem esta cortina de silêncio sobre alguns políticos, dos quais só se pode falar mal. Por isso não podia deixar de usar este espaço, que é democrático, para lembrar um pouco da história recente do Brasil.

 



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