Opinião

Sobreviver é preciso!


Historicamente, após um período de recessão, segue-se outro de crescimento. A questão não é se mas quando iniciaremos a retomada e quão sustentável ela será


  Por Enéas Pestana 28 de Dezembro de 2016 às 10:13

  | Ex-presidente do Grupo Pão de Açúcar, é presidente da Enéas Pestana & Associados


O cenário macroeconômico atual não é o único desafio que temos para enfrentar: as necessárias reformas, tributária, trabalhista e a urgente retomada dos investimentos em infraestrutura podem ser gargalos importantes para o crescimento sustentável.

Além disso, existem outras questões que precisam ser consideradas e que trarão, ainda mais, efeitos para o segmento de Varejo.

Não há dúvidas de que o país irá superar esse cenário desafiador e portanto não há duvidas de que a retomada do crescimento vai acontecer, mesmo que mais tarde do que gostaríamos.

Historicamente, depois de um período de recessão, temos (sempre) um período de crescimento. Dessa forma, a questão não é se mas sim quando iniciaremos um período de retomada do crescimento e quão sustentável ele será.

Exatamente essa dúvida é que determina a prioridade da atual agenda de trabalho para o varejista brasileiro que deve, em primeiro lugar, garantir a sua sobrevivência até que a retomada da economia aconteça.

O objetivo de garantir a sobrevivência, implica em diversas ações urgentes e profundas para: (1) permitir a aceleração da geração de caixa operacional, através do ganho sustentável de eficiência e produtividade;

(2) Liberar Capital de Giro, sem prejudicar o nível de serviço;

(3)  Adequar o perfil das dívidas (alongar os prazos e renegociar os custos), buscando o equilíbrio da estrutura de capital.

Seguindo na agenda, o Varejo terá que enfrentar a acelerada transformação do consumidor, que já apresenta alterações substanciais em seus hábitos de consumo e na decisão de compra, buscando cada vez mais conveniência e praticidade.

Um consumidor muito mais informado, exigente, infiel e intolerante com baixo nível de serviço. Isso implicará na revisão de vários pontos fundamentais para se conseguir responder a esse “Novo Consumidor”.

O Cenário Econômico brasileiro:
Estamos vivendo a maior recessão da história de nosso país e acredito que a mais longa também! A conjunção de fatores negativos é algo, simplesmente, jamais previsto! Os indicadores demonstram a profundidade e seriedade da crise econômica que estamos vivendo.

Segundo o relatório FOCUS do Banco Central Brasileiro, em 2016 o PIB deve regredir ao redor de 3,5% (para 2017 as previsões já apontam para um crescimento abaixo de 1%), a inflação deve fechar este ano próxima a 6,5%, a produção industrial deve encerrar o ano com uma regressão de 6,7%, com uma taxa de ocupação da capacidade industrial instalada no mais baixo nível da série histórica, em 76,6% e a taxa SELIC média em 2016 deve ficar próxima a 14,2%.

Com juros tão altos, as operações de empréstimos ou financiamentos podem custar  algo em torno de 20% ao ano no conceito “all in” (considerando spread bancário e imposto).

Só para se ter uma ideia, se considerarmos uma empresa com índice de alavancagem (Dívida Líquida sobre EBITDA) de 5 vezes, essa empresa teria a sua geração de caixa operacional de um ano inteiro dedicada ao pagamento dos juros da dívida (difícil suportar um custo tão alto!).

Apesar disso, hoje o principal problema não é o custo das operações, mas sim o fato de que o crédito para as empresas desapareceu, secou, especialmente para as pequenas e médias empresas, consequência dos índices de inadimplência que dispararam nos últimos tempos.

Diante desse cenário, os bancos tornaram-se, evidentemente, muito mais seletivos e rigorosos na concessão de crédito.

Olhando mais especificamente para o Varejo, os principais indicadores são: (1) Emprego; (2) Renda; (3) Confiança do Consumidor; (4) Disponibilidade de Crédito.

(1)Emprego: De acordo com os cálculos do Bradesco e do Goldman Sachs, a taxa de desemprego, descontados os efeitos sazonais, já supera 12% e continua subindo.

Com isso o número de desempregados deve estar próximo a 12 milhões de pessoas e se considerarmos o desalento (pessoas que já desistiram de procurar emprego) o número pode ser 50% maior.

Além disso, aqueles que estão empregados estão inseguros, em razão da possibilidade de também perderem seus empregos. Juntos, esses fatores, implicam em maior racionalidade na decisão de compra por parte do consumidor.

(2)Renda: A queda de renda atual só perde para o período entre 1981 e 1983, quando o PIB per capita caiu 12,4%.

Segundo reportagem do site Exame.com, publicada em setembro de 2016, o PIB per capita do Brasil caiu 9,7% nos dois anos entre 2014 e 2016. O cálculo é de Alberto Ramos, líder de pesquisa em América Latina do Goldman Sachs. O tombo é maior até do que os 7,6% verificados nos 12 anos entre 1981 e 1992 conhecidos como “a década perdida”, diz a nota.

A população brasileira cresce ao redor de 0,8% por ano, o PIB precisaria crescer, no mínimo, nessa taxa para interromper a queda na renda per capita.

Segundo recente pesquisa da FECOMERCIO/SP, a proporção de famílias com renda de até 10 salários mínimos que não conseguirão pagar suas contas no próximo mês atingiu 10% em outubro, o maior valor da série histórica.

(3)Confiança do Consumidor: O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) da FGV, subiu 1,8 ponto em outubro, atingindo 82,4 pontos. Após seis altas consecutivas, o índice atinge o maior nível desde dezembro de 2014 (86,6 pontos).

Segundo a Coordenadora de Sondagem do Consumidor (FGV), Viviane Bittencourt: “A recuperação da confiança dos consumidores continua a ser comandada pelas expectativas.

Apesar da tendência ainda declinante do mercado de trabalho, as perspectivas de desaceleração da inflação e de queda das taxas de juros parecem contribuir para previsões menos pessimistas em relação à evolução das finanças familiares e para as perspectivas de compras de duráveis no curto prazo".
 Cabe ressaltar entretanto que o ICC está em patamares muito abaixo da média verificada entre os anos de 2010 e 2013, quando o índice girava em torno de 100 a 110.

(4)Disponibilidade de Crédito para o Consumo. Atualmente, em função dos elevados níveis de inadimplência, diminuiu significativamente a oferta de empréstimos bancários para Pessoas Físicas (crédito pessoal). Além disso, as taxas de juros requeridas são altíssimas.

A concessão de crédito para consumo, em função dos índices de inadimplência, também está muito mais seletiva e cautelosa.

Ainda que exista disponibilidade de crédito para o consumo, falta confiança do consumidor para contratar um financiamento que possa subsidiar sua compra, especialmente pela insegurança sobre a manutenção do emprego e das condições para honrar os pagamentos futuros.

Para alcançarmos o crescimento sustentado, precisamos eliminar os gargalos!

Além das questões econômicas que afetam diretamente o Varejo, outras questões precisam ser resolvidas, para que não venham a impedir o crescimento sustentado do nosso país e, consequentemente, do Varejo brasileiro. Vale citar:

1.Reforma tributária
A simplificação de impostos, taxas e contribuições é uma necessidade! O sistema atual onera, em muito, as empresas, não somente pela carga tributaria altíssima, mas também por conta das diferentes legislações, alíquotas, normas e regulamentos que impõem um nível muito alto de burocracia, e exige um exército de pessoas, especialistas, advogados e assessores.

2.Reforma trabalhista
A Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) - conjunto de regras que rege as relações entre empresas e trabalhadores – foi criada por Decreto-Lei em 01 de maio de 1943 (época do presidente Getúlio Vargas). É preciso que se atualize substancialmente as regras que regem as relações de trabalho em nosso país.

Os custos da aplicação de determinações desatualizadas prejudicam tanto os trabalhadores quanto as empresas, que não suportam um custo tão alto.

A falta de clareza e efetividade das regras atuais tem se refletido no tamanho, insuportável, de contingência trabalhista para as empresas, especialmente em segmentos como o Varejo que em geral convive com altos níveis de rotatividade de pessoal (“turn over”).

3.Investir em infraestrutura
A deficiência do país nas questões relacionadas a infra estrutura afeta a todos os setores da economia e a população em geral.

O agronegócio, por exemplo, sofre perdas no transporte da safra com a falta de condições logísticas no abastecimento do mercado interno e nas exportações.

O Varejo e, consequentemente, os consumidores, são obrigados a absorver os aumentos de custos de distribuição.
Outro ponto sensível se refere aos impactos nas operações de  “e-commerce” e “delivery” que tem dificuldades para entregar os produtos aos seus clientes e para atender ao combinado com o cliente no momento da venda. Além de prejudicar o nível de serviço e frustrar à expectativa do consumidor, esse fator limita o crescimento do segmento on-line.

Para alcançarmos o tão desejado crescimento sustentado, precisamos de infraestrutura, um bom exemplo de como a infraestrutura acelera o crescimento é a China que, há tempos, investe pesado nesse setor.