São Paulo, 28 de Abril de 2017

/ Opinião

Simples assim
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É um disparate, para não dizer má-fé, atribuir originalmente os acontecimentos dessas semanas à superlotação carcerária ou à lentidão judicial

Qualquer discussão sobre o quadro de desorganização social no Brasil há de começar pelo Estado. Não discussão ideológica sobre tamanho, regime ou feição do Estado, mas pelo entendimento do que ele é: a sociedade politicamente organizada.

O Estado somos todos nós, nunca é demais insistir. Onde ele não nos alcança estamos nus, indefesos e expostos, a nós mesmos. E isso tanto no sentido positivo, das obrigações, quanto no negativo, das liberdades.

 Parece pouco sensato que nós brasileiros cansados de impostos, corrupção e violência, agarremo-nos ao Estado mínimo do século XIX ou nos quedemos perplexos diante do Leviatã totalitário que assolou o XX. Estamos no Brasil do século XXI, grande e complexo, com os pontos fortes e fracos de sua democracia.

É neste Brasil que aportou mais uma crise, das tantas que enfrentamos e das outras que virão. Crise de segurança, pouco importam os adjetivos - nacional ou pública – ela se trata, na verdade, de um espasmo da profunda doença moral que enfrentamos: a da perda de valores e do esquecimento de compromissos.

Do Carandirú, em 1992, chegamos aos massacres nos presídios no Norte e Nordeste do País neste início de 2017. Em vinte e cinco anos fomos da insuficiência tática numa situação sem precedentes à falência de um Estado que não tem ordens a dar diante de situações que se repetem.

É um disparate, para não dizer má-fé, atribuir originalmente os acontecimentos dessas semanas à superlotação carcerária ou à lentidão judicial. Isso equivale a dizer que o alagamento do piso do banheiro da casa se deve à pia cheia ou ao ralo entupido, sem que ninguém se anime a consertar a torneira quebrada que continua vazando.

Revival mal requentado do esquerdismo que atribui tudo ao “sistema”, essa ideia  esconde uma realidade mais simples e chocante. Não há sistema carcerário brasileiro. Se houvesse, lá o Estado imporia as regras e os procedimentos que se esperam de uma sociedade tida como tal: a começar por civilizada.

Há no máximo uma cerca carcerária, além da qual o crime continua a impor sua regra e lógica brutais, exatamente como faz diariamente a milhões de brasileiros acometidos por violências de toda sorte, sem qualquer distinção e em números cada vez maiores.

O principal vetor da criminalidade no Brasil é, sem dúvida, o tráfico de drogas, e o seu principal estímulo é a impunidade.

Mas por incrível que pareça há quem veja como panaceia para essa hecatombe social a legalização das drogas, como se fosse razoável defender que à sombra do Estado consume-se alucinógenos que custarão muitas vezes o seu preço em vidas e em reabilitações duvidosas. Os mesmos que, por sinal, têm um código penal próprio para esvaziar cadeias ao seu bel prazer. Só esqueceram de um detalhe simples: perguntar aos narcotraficantes se eles topam.

Positivamente não é isso que a sociedade brasileira deseja. Ela quer viver mais segura, sem ser ameaçada ou pautada por bandidos.
Algo muito distante das utopias descabeladas dos ideólogos da maconha que pregam a zumbização do País. E bem diferente dos sonhos dos juristas da terra de ninguém, onde não há mais certo e errado.

O que a sociedade quer e espera do Estado é algo simples, mas perturbadoramente desafiador. Que ele combata o crime.
Em todas as situações, sem exceções. Em qualquer lugar, da cidade ao sertão. Por todos os meios, dentro da Lei. Além de nossas fronteiras, em conjunção com os governos dos países amigos. E por que?

Por que o Estado que não combate o crime convive com ele. Está condenado a ser tomado por ele. Como a todos nós. 
Simples assim.

* Historiador



Na comparação com igual mês do ano passado, a queda de junho foi menor que a registrada em maio, de acordo com levantamento ACVarejo, da Associação Comercial de São Paulo

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Mesmo na mais louvada das democracias, o Estado é hoje o mediador e juiz soberano de todas as ações e relações humanas, até as mais particulares e íntimas

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Comparado à organização estatal, mesmo o conjunto das ciências existentes não passa de uma mixórdia de teorias contrapostas, grupelhos em disputa e preferências irracionais

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