Opinião

Ser empreendedor no Brasil


O lamentável episódio da agressão policial ao comerciante evoca o desconhecimento de parte da sociedade, burocratas e políticos sobre o papel relevante dos empresários para o desenvolvimento econômico e social


  Por Marcel Solimeo 19 de Fevereiro de 2016 às 18:37

  | Economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo


O lamentável episódio da agressão de um comerciante por um policial descontrolado e despreparado, embora seja um fato isolado que não pode ser generalizado, permite fazer algumas considerações sobre o papel do empresário e como ele é visto por políticos, burocratas, governos e, principalmente, pela sociedade.

Ao analisarmos a origem do incidente, verificamos que uma consumidora desejava efetuar a devolução de um produto (tapete) depois de 30 dias da compra, o que não foi aceito pelo comerciante, sob o argumento de que já havia pago o fornecedor, mas se dispondo a aceitar a devolução, mediante um crédito de valor equivalente ao do produto.

Se a consumidora se desse a trabalho de ler o Código de Defesa do Consumidor, que uma lei obriga estar disponível em todos os estabelecimentos, veria que não tinha direito a exigir a troca, e que o que o comerciante propunha já era uma concessão.

Se mesmo assim ela discordasse, deveria reclamar aos órgãos de defesa do consumidor, e nunca para a polícia.

Infelizmente, muitas vezes, o consumidor procura a polícia para resolver problemas que devem ser tratados como relações de consumo, e não como assunto policial.

Isso se deve, em parte ao fato que uma parcela da população não entende a função do empresário na economia, e não valoriza devidamente sua importância para o desenvolvimento econômico e social do país.

Da mesma forma, muitos burocratas, políticos, e governantes também não entendem o relevante papel do empreendedor.

Disso resulta que a burocracia sufoca cada vez mais os empresários com controles e obrigações, os políticos aprovam projetos intervindo na atividade empresarial sem se preocupar com os efeitos de suas decisões e os governos enxergam nas empresas fontes de arrecadação de tributos, ao invés de fontes geradoras de riquezas.  

A experiência internacional mostra que, entre os fatores que explicam o crescimento econômico e social das nações, um dos mais importantes, é a existência de uma classe empreendedora dinâmica e criativa.

Ela promove a modernização da economia, propiciando o incremento constante da produtividade, condição necessária para o aumento do bem estar da população.

Somente o empreendedor, com sua criatividade e capacidade de inovar pode responder às constantes mudanças no ambiente econômico, transformando-as em oportunidades de melhorar seu desempenho e o desenvolvimento do país.

Quando cria um novo produto, um novo serviço, uma nova técnica, ou um novo mercado, um novo método de organização, com sua coragem de assumir riscos o empreendedor promove a modernização da economia.

Sem uma classe empresarial forte o país não se desenvolve porque não muda, mas não basta a existência do espírito empreendedor se não há um “ambiente favorável” para o ato de empreender, representado por instituições, isto é, “regras do jogo “simples e estáveis, e com o reconhecimento social da importância da função empresarial, o que, infelizmente, não ocorre no Brasil.

Em países desenvolvidos, a figura do empresário é valorizada como agente  criador de riquezas e de empregos. O economista George Gilder diz que é preciso dar valor à figura do “empresário, esse ser teimoso e persistente que, com seu trabalho, cria a riqueza que os políticos se empenham em distribuir”. 

Se nós passarmos a destacar a realização dos empreendedores, a importância de sua contribuição econômica e social, estaremos contribuindo para estimular o “espírito empresarial” e a formação de uma ampla base de empresas de todos os setores e tamanhos.

Facilitar e estimular a criação de novas empresas é o caminho para o desenvolvimento sustentado da economia, mas, para isso, é preciso que as instituições funcionem com racionalidade, de forma previsível e lógica. Assumir os riscos do negócio, é condição natural da atividade empresarial em uma economia de mercado e não assusta o empreendedor.

 O que mais desestimula o empreendedorismo e prejudica a atividade empresarial é a constante mudanças das regras do jogo e a instabilidade da economia, gerando imprevisibilidade; o desrespeito ao direito de propriedade e aos contratos, provocando insegurança jurídica; o excesso de burocracia e de tributação que afeta negativamente o funcionamento e o resultado de qualquer empresa.

O reconhecimento da sociedade, por sua vez, é fator que contribui positivamente para transformar o “espírito empreendedor”, do brasileiro, revelado por inúmeras pesquisas e estudos, em criação de empresas e geração de riquezas.