São Paulo, 27 de Setembro de 2016

/ Opinião

Se ficarem juntos, Estados Unidos engolirão Cuba
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Com o reatamento das relações diplomáticas, a corda tende a se romper do lado do anacrônico de Fidel e Raúl Castro (foto)

Cuba e Estados Unidos anunciaram nesta quarta-feira a retomada das relações diplomáticas rompidas em 1961. O dirigente cubano Raúl Castro acredita que a histórica decisão dará uma inesperada sobrevida ao regime comunista fundado por seu irmão, Fidel.

Não creio que será o caso. O grande vencedor, a longo prazo, será o presidente Barack Obama. Depois de décadas com muita sede, os cubanos podem estar tomando a primeira poção da democracia.

Quanto ao papa Francisco, pela intermediação que novamente o dignifica, estamos diante de um personagem superlativo da história.

Mas vejamos o histórico da questão. A administração Kennedy acreditava que o isolamento do regime instituído pela Revolução de 1959 tendia a fortalecer a oposição interna e os exilados da Flórida, permitindo a reversão da perda de um território que a então União Soviética palmilhava durante os momentos mais duros da Guerra Fria.

O cálculo americano foi terrivelmente equivocado. A ruptura de relações - e consequente embargo comercial, ainda em vigor - fortaleceu na ilha uma postura de intransigência ideológica. São duas ou três gerações de dirigentes mais jovens que se abasteceram e se fortaleceram com um antiamericanismo fundamentalista.

A Guerra Fria acabou. A União Soviética hoje faz parte dos livros de história. Mas a ruptura entre Washington e Havana continuava a interessar, de um lado, a indústria anticastrista dentro do Partido Republicano, e, de outro lado, a preservação de um regime anacrônico que, de panelas vazias, alimentava-se da hostilidade ao vizinho poderoso.

Esse jogo está agora rompido. É inevitável que a expansão quase cínica e apolítica da economia americana esteja em busca do mais poderoso mercado caribenho. E tenha os olhos abertos na direção dessa população que não é feita apenas de potenciais consumidores, mas que, com alta escolaridade e disciplina no trabalho, possa em algum momento ingressar num bloco de interesses que lhe traria uma inédita prosperidade material.

Os cubanos assim o merecem. Há um longo caminho pela frente. Mas tudo indica que foi dado o passo inicial para o desarmamento de um curioso conflito no qual, nos dois lados, a intransigência política descartou o bem-estar como valor social supremo.

Só então os manuais amarelados poderão silenciosamente lembrar a crise dos mísseis, a exportação castrista de uma revolução continental que jamais vingou, a Baia dos Porcos, em que rebeldes armados pelos Estados Unidos foram vergonhosamente derrotados, o atraso industrial e tecnológico da ilha, a libreta (instrumento do controle do racionamento castrista) y otras cositas mas.

De qualquer modo, não há nessa reaproximação uma simetria irrealista. Novos atores começarão a puxar a corda, cada grupo para o seu lado. E é inevitável que a corda se rompa do lado mais fraco. O comunismo cubano está com os dias contados.

 

 



Joe Biden tratou a situação do Brasil como uma “transição de poder” prevista na Constituição. Foi a primeira manifestação oficial do governo americano sobre as mudanças políticas desde que Michel Temer tomou posse

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Magnata republicano defende o protecionismo e despreza as relações com a América Latina. Barack Obama disse nesta terça (2/9) que ele não está qualificado para governar

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Daqui para frente, não será mais possível governar pretendendo se impor ao País, usando de que meios for, muito menos daqueles que o PT usou e abusou nestes treze anos

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