Opinião

Sarney, Cunha e Renan não serão presos ainda, mas balançam em dificuldades


Ao lado de Jucá, eles estão na lista de pedidos de prisão do procurador Rodrigo Janot


  Por João Batista Natali 07 de Junho de 2016 às 14:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


A prisão de Sarney, Renan, Cunha e Jucá teria sido uma bela de uma catarse – sentimento de satisfação das plateias no teatro na Grécia antiga, quando o público se regozija com a desgraça de um personagem de maus bofes.

Mas ninguém será preso por enquanto, e o pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, criaria mais problemas políticos e traria poucas soluções.

Os pedidos de prisão, há uma semana na mesa do ministro Teori Zavascki(STF), mas só nesta terça-feira noticiados por O Globo, precisaria ser aprovado pelos 11 ministros do Supremo.

A segunda turma do tribunal teria reunião nesta terça. Teori faz parte dela. Mas isso não basta. E seria também necessária a autorização do Senado – nos casos de Renan e Jucá -, como ocorreu no final do ano passado, com a prisão do então líder do governo, o hoje ex-senador Delcídio do Amaral(PT-MS).

Há também os desdobramentos sobre os demais temas da pauta política. No caso deRenan Calheiros(PMDB-AL) ser apeado da presidência do Senado, iria para o lugar dele o petista Jorge Viana (AC).

Seria uma excelente notícia para oPartido dos Trabalhadorese para o plano de atrapalhar o impeachment de Dilma Rousseff. Mas o próprio PT reagiu com prudência.

“Isso apenas amplia o clima de instabilidade política que estamos vivendo”, disse o líder petista no Senado, Humberto Costa (PT-PE).

Uma das explicações para essa falta de festejo está na possibilidade de a Procuradoria Geral da República também partir para cima de Dilma, Lula, Aloizio Mercadante e José Eduardo Cardozo.

Todos eles também praticaram a obstrução de justiça e procuraram prejudicar a Lava Jato, crime que Janot identificou entre os veteranos peemedebistas agora focados com o pedido de prisão.

No final da tarde, o ministro Gilmar Mendes, do STF, declarou que o vazamento da ordem de prisão de Janot deveria ser punido por se tratar de "brincadeira" com o tribunal.

José Sarney (PMDB-AP), hoje aposentado da política, movimentou-se muito discretamente pelo afastamento de Dilma, tanto que um de seus filhos é hoje ministro de Temer. Mas ele é um exemplo bem mais simbólico por ter sido presidente da República e presidente do Senado.

Romero Jucá (PMDB-RR) é um operador bem mais ativo do presidente em exercício. Cabe a ele mapear a existência de no mínimo 54 votos no Senado para que Dilma seja definitivamente afastada.

Jucá não perdeu a importância ao ser demitido do Ministério do Planejamento, em razão da divulgação de conversa sua com Sérgio Machado, ex-senador e ex-presidente da Transpetro e um dos operadores da corrupção na Petrobras.

Em delação premiada ou por meio da exibição de gravações, foi também Machado quem comprometeu os demais peemedebistas, atrás dos quais o procurador Rodrigo Janot agora se mexeu.

O episódio não mereceu nenhuma reação explícita do Planalto. Temerse reuniu na manhã desta terça com dez secretários e ministros para discutir Jogos Olímpicos.

Eliseu Padilha, da Casa Civil, disse que os pedidos de prisão não foram mencionados na reunião. É até possível. Mas ficou nítido o esforço de Temer em fazer de conta que não se importava com o assunto.

O fato de o deputado Eduardo Cunha(PMDB-RJ) também aparecer na lista dos potenciais presidiários teve por efeito agitar a reunião da Comissão de Ética da Câmara, que nesta terça se reuniu para votar o parecer que pede a cassação dele.

Afastado da presidência daquela Casa do Congresso e com seu mandato parlamentar suspenso por decisão do STF, ele continua a manobrar aliados e a ameaçar inimigos para se manter no cargo.

Dentro da comissão, o deputado Júlio Delgado (PSB-MG fez as contas. O caso Cunha vem sendo protelado há 216 dias corridos e 119 dias úteis. É um dos mais longos na história republicana da comissão.

Mas outro deputado, próximo de Cunha – Carlos Marum (PMDB-MS) – reconheceu que a citação do nome dele na lista dos que poderiam ser presos deverá produzir “efeitos danosos” dentro daquele colegiado de 21 deputados.

Em outras palavras, aumentou a possibilidade de a Comissão de Ética votar pela cassação de Cunha, o que levaria o caso ao plenário da Câmara, onde o afastamento dele seria quase uma formalidade.

Há uma relação estranha entre Cunha e o presidente interino, que visivelmente não gosta dele. Mas que, ao mesmo tempo, sabe não poder tê-lo como adversário capaz de obstruir a tramitação das reformas que o atual governo tem em mente.

Por fim, um dos efeitos da lista de Rodrigo Janot está na constatação de que Temer é um presidente mal acompanhado. É algo que o aproxima de Dilma Rousseff, que também governou em companhia de citados pela Lava Jato e cujo partido tem um punhado de presos em Curitiba.