Opinião

Sapiens: mais do que econômica, uma estagnação civilizatória


Insights como o que afirma o dinheiro e as moedas como o mais universal e mais eficiente sistema de confiança mútua já inventado é realmente o que vale neste livro


  Por Jorge Maranhão 31 de Janeiro de 2017 às 05:42

  | Jorge Maranhão, mestre em filosofia pela UFRJ, dirige o Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão


Estava concentrado na história do Brasil e pensando as razões pelas quais padecemos de estagnação civilizatória, quando um amigo me presenteou com este instigante volume "Sapiens, uma breve história da humanidade", do historiador israelense Yuval Noah Harari, e na lista dos mais vendidos no mundo e no Brasil.        

Digo instigante pois se a narrativa é extremamente objetiva e quase em ritmo de thriller, as conclusões estão longe de me convencer, na medida em que coloca o homem como a única espécie capaz de se criar, negando portanto um princípio fundamental da tradição judaico-cristã, exposto no primeiro mandamento de um único Deus Criador.

Mas insights brilhantes nos conduzem a uma leitura frenética do livro. Como o que define a Revolução Francesa de 1789 como o evento em que o homem substitui o mito do direito divino dos reis pelo mito da soberania do povo.

E o que são os mitos, segundo a própria argumentação do autor, se não a essência da cultura como criação humana (imaginário social, ideologias, religiões, seja o que for de simbólico), habilidade singular da espécie Sapiens, e que explica a sua superioridade em face das demais. Realidade imaginada, segundo a terminologia do autor, para a própria definição de cultura.

Outra faceta do autor que me causou espécie é sua visão das Américas do Norte e do Sul como um único continente, sobretudo quando se refere a eventos da América do Norte e a nenhum  da América do Sul.

Se o próprio autor concorda com a tradicional partição do mundo em sete continentes, há que separá-los, quer seja por razões culturais, quer por razões geográficas.

Mas a partir de sua distinta habilidade de criar cultura, a espécie Sapiens é descrita como protagonista de três grandes revoluções: a cognitiva, a agrícola e a científica-industrial.

Sendo esta última revolução o início do fim da espécie Sapiens e sua substituição por algum ser que o autor especula como da autoria da própria espécie. Uma espécie que cria uma outra espécie.

Para um judeu, convenhamos que se trata de uma ousada ruptura para com o fundamento moral da própria religião judaica.

O que nos leva a crer que é de ordem moral a sensação de abandono da humanidade no rastro das poeiras galácticas.

Tanto é que seu atual livro, "Homo Deus", é uma extensão deste último capítulo do Sapiens e não apresenta nenhuma luz no breu infinito de nossa ignorância.

O homem tomando o lugar de Deus, num paroxismo romântico radical da arrogância iluminista, como senhor de seu destino.

Sobre uma das maiores superações civilizatórias da humanidade que trata exatamente do rompimento do código mosaico sobre o código de Hamurabi, o autor passa batido e nem sequer menciona o que vem a ser um novo paradigma da própria instituição da justiça, e não a simples revanche até então praticada.

O grande insight sobre a espécie humana é o fato de que é a única a criar cultura, ou ordens e  realidades imaginadas, a estabelecer redes de cooperação nunca antes vistas entre as demais espécies, que sempre exigirão prévio conhecimento dos indivíduos de um grupo para superar a desconfiança e cooperar.

Religiões, ideologias e moedas nada mais são do que estes fantásticos sistemas de cooperação mútua entre desconhecidos, para além do núcleo familiar dos clãs primitivos.

Mas o que revela um viés romântico-esquerdista na concepção dos valores morais da tradição humanista, e para além da negação da justiça, é a contradição entre igualdade e liberdade, quando o autor sustenta que a busca da igualdade para a maioria dos indivíduos leva necessariamente à limitação da liberdade dos que estão em melhores condições, o velho sofisma de que a distribuição da riqueza se faz necessariamente pela perda da riqueza de uns para eliminação da pobreza de muitos, o chamado jogo de soma zero. Uma concepção de igualdade social de viés evidentemente socialista e não liberal.
 
Outro aspecto altamente discutível é a concepção globalista e multiculturalista do autor como opção civilizatória, quando a tolerância do poder local do cidadão diante de poderes governantes centrais admite um relativismo moral que desconsidera hierarquias de patamares civilizatórios.

A mesma tolerância pregada pelos governantes em face da invasão islâmica da Europa repete a tolerância de crença dos judeus em face do nazismo.

Tolerância que leva necessariamente à relativização do maior valor moral, a vida, concebido como valor absoluto para a perenização da própria humanidade.

Insights como o que afirma o dinheiro e as moedas como o mais universal e mais eficiente  sistema de confiança mútua já inventado é realmente o que vale neste livro.

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