Opinião

Saiba por que Barack Obama deixará muitas saudades


Ele transmite a Casa Branca nesta sexta a Donald Trump. Tirou o país da crise de 2007, defendeu o livre comércio e liderou as negociações contra o aquecimento global


  Por João Batista Natali 13 de Janeiro de 2017 às 08:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Barack Hussein Obama termina nesta sexta-feira (20/01) seu segundo mandato presidencial. Por efeito de contraste, a imagem dele na comunidade internacional chegou perto da canonização. Deixará saudades diante de Donald Trump, seu controvertido sucessor.

Mas não exageremos. Obama não foi um estadista do porte de Franklin D. Roosevelt (1933-1945) e nem chegou perto da popularidade de John F. Kennedy (1961-1963). 

Mas o ainda presidente dos Estados Unidos se destacou pela austeridade pessoal, pela agenda limpa que passou longe de suspeitas de interesses pessoais. E, sobretudo, por políticas públicas liberais num país rico, mas ainda bastante desigual.

Vejamos seus grandes acertos. Seu maior legado está na área da saúde. O chamado Obamacare, que Trump e os republicanos deverão desmontar, foi um sistema de assistência que não levou em conta os interesses dos grandes convênios, que estão em mãos de instituições financeiras.

A lógica era a da justiça social, com subsídios e ainda a cobertura do seguro de internação hospitalar dos 20 milhões de norte-americanos que estão na base da pirâmide de renda e que não tinham dinheiro para pagar um plano.

As grandes ideias de Obama em política interna foram atropeladas pelo sistema federativo que tira poderes da União e os atribui aos Estados. Foi o caso da pena de morte, que está em ligeiro recuo, ou do desarmamento dos indivíduos, bloqueado por um poderoso lobby, apesar de matanças periódicas por parte de assassinos isolados.

Mesmo assim, Obama operou sinalizações notáveis. Dentro de uma concepção contemporânea de democracia que mistura as liberdades do atacado com o varejo das identidades das minorias, ele discriminalizou a homossexualidade nas Forças Armadas e conteve o desmonte das políticas em favor das minorias raciais.

Bem mais que o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, ele também se comportou com a necessária heterodoxia, para resolver a crise desencadeada em 2007 pelas hipotecas imobiliárias e que levou o banco Lehman Brothers para o buraco.

Obama criou um pacote intervencionista de US$ 787 bilhões, estatizando por alguns meses a General Motors e patrocinando a venda da Chrysler à italiana Fiat. O déficit das contas públicas permaneceu acima de 10% por dois anos. 

Mas os Estados Unidos saíram fortalecidos daquilo que o então presidente brasileiro chamou de marolinha. Tanto que o desemprego americano, que superou os 10%, está agora em 4,6%.

Em outras palavras, Obama colocou o Estado na liderança do movimento para tirar a economia norte-americana da crise. O mercado estava muito debilitado para assumir essa tarefa.

LIVRE COMÉRCIO NA POLÍTICA EXTERNA

Em termos de política externa, Obama foi um liberal que levou a globalização a suas últimas consequências. Reforçou o Nafta (aliança comercial com o México e o Canadá), que vem dos anos Bill Clinton, e desenhou a Parceria Trans-Pacífico, zona comercial liderada pelos Estados Unidos e o Japão, para se contrapor à agressividade industrial da China. Trump engavetará esse bloco natimorto de 12 países.

Em política externa há um empate entre conquistas e malogros da administração deste homem de apenas 57 anos, e personagem de uma meteórica carreira que o levou, em 11 anos, do Senado estadual de Illinois à Casa Branca.

Vejamos os êxitos. Liderando o Conselho de Segurança da ONU e mais a Alemanha, Obama negociou com o Irã o desmonte de um programa nuclear que se militarizava debaixo das barbas dos aiatolás. Suspensas as sanções econômicas, o Irã voltou à comunidade comercial, sobretudo ao mercado do petróleo.

Obama também reatou em 2013 relações diplomáticas com Cuba, uma das situações anacrônicas no Hemisfério. Se as sanções comerciais de 1961 não surtiram até agora efeitos, a ideia é, a médio prazo, estimular via comércio e internet a circulação de ideias que comprometeriam naturalmente a ditadura local.

Mas Obama foi mal e criou tensões em suas relações com a Rússia e com o mundo árabe. Os Estados Unidos estimularam na Ucrânia a adesão do país à Otan – bloco militar ocidental. Isso derrubou com movimentos de rua o presidente Viktor Yanukovich, um burocrata pró-Kremlin.

Mas Vladimir Putin reagiu com a anexação da península ucraniana da Crimeia e a asfixia dos movimentos ocidentalizantes nas ex-repúblicas soviéticas que formam um cinturão geográfico ao redor da Rússia.

É por isso que interessava a Putin uma mudança radical dentro dos Estados Unidos. O dirigente russo se tornou um aliado circunstancial de Donald Trump.

ERRO DE CÁLCULO NO ORIENTE MÉDIO

No Oriente Médio, o erro de cálculo de Obama foi bem maior. Ele levou a sério a chamada Primavera Árabe, que democratizaria por movimentos de rua países tradicionalmente autoritários.

Deu certo na pequena Tunísia. Mas fracassou no Egito (hoje uma virtual ditadura militar), na Líbia, que se desfez como Estado e está mergulhada em guerra civil, e, sobretudo, na Síria, mergulhada desde 2011 num insolúvel conflito interno.

Além dos 300 mil mortos e do fluxo de refugiados que desestabilizou a União Europeia (foi por causa deles que o eleitor britânico menos instruído votou pela saída do bloco), o conflito criou um vazio político dentro do qual emergiu o Estado Islâmico.

De pouco adiantou Obama ter retirado combatentes americanos do Iraque. Ao tomar o partido dos xiitas iraquianos (a maioria) e dos insurgentes líbios, os Estados Unidos alimentaram o caldo de cultura sunita em que cresceu a mais hedionda das organizações militares e terroristas do mundo islâmico.

Mas a diplomacia de Obama não será por isso crucificada. Ela tem como grande contraponto o fato de ter assumido a liderança, e ter arrastado consigo a China, para as negociações climáticas da ONU, que resultaram, em dezembro de 2015, no Acordo de Paris.

Trump não acredita em efeito estufa. Mas ele não conseguirá tirar o lastro que os Estados Unidos forneceram à diplomacia e aos estudos que tiveram como eixo medidas contra o aquecimento global.

Só por esse importante detalhe a comunidade internacional terá uma dívida de gratidão política para com esse cidadão generoso e ambicioso, nascido no Havaí e graduado em ciência política pela Columbia e em direito por Harvard.

Um presidente sorridente, com mulher bonita e duas filhas, hoje adolescentes esforçadas. Just the american way of life.

FOTO: Agência Brasil