São Paulo, 27 de Abril de 2017

/ Opinião

Relativismo moral da mídia (5)
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A mídia não pode mais ignorar a sua responsabilidade cívica - como manda, aliás, o artigo 221 da Constituição Federal sobre as premissas de sua concessão pública: respeito aos valores éticos da pessoa e da família

Nesta série de artigos sobre o relativismo moral, temos demonstrado a corrupção dos valores morais os mais variados pela lavagem cerebral esquerdista produzida nas últimas décadas, sobretudo nos sistemas de produção simbólica da academia, da política, da justiça e da mídia.

Que os valores morais tenham sido frequentemente corrompidos, como a lei, a liberdade, a justiça, a propriedade, a cidadania, o direito, a igualdade, dentre tantos outros, pode-se até justificar ou debitar às conhecidas deficiências institucionais da política, da educação e da justiça.

Mas que o valor moral da vida, valor absoluto na nossa tradição judaico-cristã, possa vir a ser relativizado, sobretudo no sistema de mídia, que é o único de natureza essencialmente privada, nos faz entender este estado deplorável a que chegamos de crise moral, política, econômica e social, com consequências imprevisíveis para toda a sociedade.

Assim como não tem outra explicação a  leniência com que nossas chamadas elites sociais trataram a infiltração e dominação da doutrina esquerdista, mesmo que travestida de socialdemocracia, nestes sistemas de produção do imaginário social do país, não teremos outra estratégia de argumentação para recolocar o país no rumo do crescimento do que a da afirmação da cultura cívica e política da maioria dos brasileiros, de resto conservadora e cristã, sobretudo na mídia de massa. Pois não há mais o que esperar. O país não aguenta.

Senão, vejamos o valor absoluto da vida quando tratado pelos produtores de conteúdo da grande mídia, seja na vertente das garantias de segurança pública ou de saúde pública dos cidadãos. Como as apresentam enquanto questão quase exclusiva de Estado, ou de competência maior do poder público.

Já analisei aqui algumas sequências de matérias de nosso telejornalismo com relação à pauta da saúde pública apresentada como a expressão maior da própria vida.

Mas com a pauta da segurança, ocorre o mesmo relativismo de abordagem do valor da vida, no contexto de violência social e violação legal renitentes.

Os editores adoram a repetição infinita de sequências de câmaras amadoras ou de segurança de condomínios flagrando a ação desinibida com que bandos de assaltantes agridem transeuntes ao arrepio de qualquer autoridade policial.

Como para reforçar que se há um predicado perdido em nossas instituições policiais hoje, é exatamente o valor da autoridade pública da qual foi desinvestida pelos governantes simpatizantes de direitos humanos e não de cidadãos de carne e osso.

Tornam-se regra as abordagens de um telejornalismo que se dedica a consagrar o Estado como provedor onipotente de direitos ilimitados.

E notícias, sempre as mesmas, sobre o descalabro da segurança e da saúde públicas, do mau trato e descaso pela dignidade dos cidadãos, passam a ser uma verdadeira campanha de proselitismo em favor de um Estado provedor universal, sem sequer se avaliar as consequências no campo da saúde e da segurança privadas.

Com isso, cria-se no imaginário social a falsa ideia de que o Estado deve prover direitos ilimitados de tudo e a todos, sem que se faça qualquer menção aos deveres dos cidadãos pagadores de impostos, sobre quem cai toda essa conta.

Para além da conta pública, sempre deficitária para gáudio de seus financiadores e rentistas, só resta ao cidadão o papel de usuário sofredor e vítima das mazelas desses desserviços públicos ou simples reclamante passivo dos descalabros da gestão pública.

Neste tipo de telejornalismo de investigação e desconstrução, em que o público é sempre apresentado como terra arrasada, não há questionamento do papel político do cidadão comum como agente de mudança, agente de cidadania questionador do papel do Estado enquanto usurpador da providência divina, do indeclinável dom divino da vida.

O resultado é a consolidação de um imaginário social de dependência política, de uma Estado-dependência crônica da sociedade para com os estamentos governantes e uma burocracia perversa, mutiladores de nossa autoestima, inibidores de nossa autonomia e desmobilizadores da cidadania.

E, o que é o pior dos mundos, a corrupção do valor absoluto e divino da vida que passa a ser resultante da pretensa ação onisciente e onipotente dos estamentos político-burocráticos do Estado, seja na vertente da segurança ou na da saúde públicas.

É bem verdade, que aqui e ali, a custas de reações de quedas bruscas de audiências, em esparsos pontos do noticiário, temos notícias espasmódicas de um jornalismo cívico, como nas recentes matérias sobre experiências bem-sucedidas de policiamento comunitário e, no caso da saúde, clínicas da família, no Rio de Janeiro, ou o surgimento de "clínicas expressas" privadas em São Paulo, que fazem às vezes de centros ambulatoriais a um custo mais baixo e com boa qualidade de atendimento.

Mas infelizmente não é este o "grosso" de nosso telejornalismo-show, pleno de reportagens sensacionalistas de tudo que não funciona no setor de segurança e saúde públicas, o que põe em risco a vida do cidadão, razão mesma da missão do Estado.

Quando o pouco que se mostra do que dá certo e do que pode servir de exemplo é de iniciativa indiscutível da cidadania. E, mais que isto, não se incentiva os cidadãos a cobrar de forma sistemática a qualidade do sistema, não se exibe um caso de sucesso de alguém que correu atrás, fiscalizou, cobrou e conseguiu um avanço qualquer.

Não se exorta o cidadão a buscar soluções através das próprias instituições de Estado, especialmente as de fiscalização e controle, como agências reguladoras, Ministério Público, Defensoria Pública, conselhos profissionais como o CRM e associações comunitárias.

Em suma, não se procura resgatar no cidadão a sua autonomia e o seu quinhão do poder, que não pode ser sempre integralmente delegado aos mandatários temporários.

Fora isso, o que teremos sempre é populismo e demagogia e, nunca, cidadania. A mídia tem, sim, sua parcela de responsabilidade política e não quer se dar conta disso.

Pelo contrário, resiste na sua trincheira de pretender ser o quarto poder de fato, de pretender assumir as próprias funções de denúncia, investigação e juízo das instituições jurídicas.

Pela própria deficiência de cultura política de seus produtores de conteúdo, sequer o valor da cidadania, enquanto protagonismo político, preserva e difunde, quando simplesmente o corrompe enquanto limitada conduta social de solidariedade e legalidade.

Quando há trinta anos urge quebrar o mito da Constituição “Cidadã” de 88, como a grande forra dos anos de chumbo, prenhe de 74 direitos contra apenas 4 deveres cívicos.

Ultrapassar a miséria da cultura de demagogia pela cultura de cidadania, onde urge regulamentar a utópica disposição do artigo 196: "A saúde é direito de todos e dever do Estado ".

Como já disse o professor Olavo de Carvalho aqui mesmo nestas páginas: "Um direito não é algo que exista em si, é apenas o efeito da obrigação. Proclamar um direito sem definir o titular da obrigação correspondente é cuspir bolhas de sabão, é fingimento histérico. Foi por isso que Deus ditou a Moisés Dez Mandamentos, dez obrigações, não dez direitos".

No caso da saúde pública, são muitos os casos de excelência, que nem de perto acompanham a regularidade dos maus exemplos que a mídia expõe, como as campanhas anuais de vacinação, sempre bem-sucedidas, o exemplar avanço no combate à AIDS, os diversos hospitais de referência em diversas especialidades médicas, e muito mais.

Não custa repetir. A virada necessária da cidadania do país terá de vir necessariamente de setores da mídia, caso esta se conscientize do seu verdadeiro papel. E pode ser através de campanhas de conscientização nos mesmos moldes do que é feito com as de vacinação, sempre eficientes em comunicar o comparecimento aos postos de saúde.

Por que não campanhas de divulgação de sugestões de políticas públicas vindas de cidadãos atuantes, os verdadeiros agentes de cidadania? Ou o fomento de debates sobre o funcionamento da Anvisa (vigilância sanitária) ou da ANS (planos de saúde)? Ou mais matérias sobre alternativas de gestão e controle da saúde pública com a imprescindível participação dos cidadãos? Que tal assumir de vez como também sendo seu o papel original da Educação em, mais que transmitir conhecimento, transmitir valores, especialmente morais?

À primeira adesão de um grupo de mídia a um projeto desse tipo, temos certeza de que outros o seguirão. Um mídia líder que poderá fazer a diferença numa virada que, temos por certo, não virá da esfera política ou do sistema educacional. Uma por conveniência e o outro por uma ideologia arcaica que vem atrasando o desenvolvimento do país.

É preciso quebrar esse círculo vicioso. Como bem disse o jornalista Reinaldo Azevedo em recente artigo "Esquerdas transformaram Leviatã numa vaca leiteira": "Irrita-me que a nossa historiografia e a nossa sociologia sejam relativamente ricas em explicar o que fizeram de nós, mas muito pobres em questionar o que fizemos - e fazemos - do que fizeram de nós".

A mídia não pode mais ignorar a sua responsabilidade cívica - como manda, aliás, o artigo 221 da Constituição Federal sobre as premissas de sua concessão pública: respeito aos valores éticos da pessoa e da família.

Nós somos o que pensamos e não o que pensamos que somos. Se não tivermos um espaço público em que possamos exercer a potencialidade da mudança, aí mesmo é que não mudaremos. Que a mídia nos apresente mais Agentes de Cidadania, inspiração e exemplo do que pode e deve ser feito.

 



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