Relativismo moral: enfim, o pão nosso de cada dia (final)


Cotidianamente, toma-se alhos por bugalhos e, na corrida insensata pelo novo e sua audiência, o jornalismo se exime da responsabilidade que a sua liberdade de expressão exige


  Por Jorge Maranhão 26 de Outubro de 2015 às 19:23

  | Jorge Maranhão, mestre em filosofia pela UFRJ, dirige o Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão


A regra do jogo na tradição humanista da moral ocidental é que bandido é bandido e polícia é polícia, certo? Se não soubermos discernir tais atores, o que será de nossas vidas?

Mas no recente episódio da lavra de um incensado novelista nacional, em que o confronto fatal entre bandidos e policiais, acaba por vitimar uma inocente que estava na linha dos tiros, se celebra ao extremo o relativismo moral nos diálogos que se sucedem, pondo em questão de que tanto faz de quem partiu o tiro.

Nesta mesma semana, recebo pelas redes sociais um vídeo caseiro, daqueles que vagam aos montes pela internet. (Assista aqui)

Nele, um jovem aparece por trás de uma moto esportiva de último tipo, seu sonho de consumo. No entanto, ao colocar seu capacete e se dirigir ao selim da moto, a câmera se afasta e percebemos que, na verdade, se trata de uma moto de brinquedo.

Um truque simples de ilusão de ótica, onde a moto em miniatura é colocada bem próxima à lente da câmera, "torcendo" a noção comum de perspectiva e fazendo-a parecer com uma moto de verdade no primeiro plano da imagem.

A propósito, o jornalista Fernão Lara Mesquita, em sua página nas redes sociais, comenta o vídeo das motos de brinquedo com uma provocação interessante: "Pensem nesta cena: é exatamente assim que a imprensa distorce/falsifica um fato".

A mídia tem este pendor: tornar o próximo, distante. E o distante, próximo. Quando reporta a notícia local nacionalmente ou repete a notícia nacional em edições locais.

Ou quando torna o fato ordinário em extra! Extraordinário! E o extraordinário em ordinário.

Ou quando torna o passado, presente, ou o presente, passado, na medida da frequência com que transforma os fatos em fenômeno, ou o real em fantasma.

Quando generaliza o singular ou singulariza o genérico. E abusa das figuras retóricas na narração que toma o todo pela parte ou a parte pelo todo e a ação singular de um policial passa a ser a ação genérica da polícia e assim por diante.

A propósito vejam o vídeo-depoimento de um dos Agentes de Cidadania de nosso instituto, expressando o cuidado que se deve ter com tais narrativas.(aqui)

Pois bem, voltando ao vídeo da moto de mentirinha, esse jogo distorce a convenção do olhar humano modelada desde a antiguidade clássica e redefinida pelo arquiteto italiano Brunelleschi na virada do século XIV para o XV: para uma simulação de realidade, retrata-se em tamanho menor o que está longe e o que está mais perto, em escala maior.

Essa perspectiva linear e o conceito do ponto de fuga foram as bases da estética renascentista e definiram a reprodução da própria realidade.

A própria verdade feita de fatos indiscutíveis e narrados sem o questionamento do olhar de quem narra. Até o advento do cubismo de Picasso e Braque que jogou tudo por terra e fundou uma outra convenção do olhar, desta feita irrealista, com todo o relativismo subjetivista que passaria a vigorar dali em diante.

Uma radicalização de uma tendência de diluição da figura real que vinha se observando desde o impressionismo do século XIX e que, a partir do século XX, precisamente com o movimento cubista, a perspectiva "realista" é colocada em xeque, em obras que procuravam mostrar várias faces de um mesmo objeto ou cena num único plano, fora da convenção da perspectiva clássica-renascentista, numa projeção da imagem mais próxima de uma percepção pura como a dos povos primitivos, ou dos loucos ou mesmo das crianças, ainda não cooptados pela cultura tradicional.

O resultado foi o aparecimento de peças icônicas, como a famosíssima "Demoiselles d’Avignon", de 1907 e suas sucessivas experimentações rumo à negação da própria figura pelo advento do abstracionismo e o império do subjetivismo. Basta lembrar das máscaras africanas colecionadas por Picasso, assim como a valorização da iconografia da antiguidade egípcia com sua pintura que reproduzia num único plano o perfil da face humana coexistindo com o olhar frontal.   

Essa transformação no mundo das artes tem o seu eco - talvez até a sua razão de existir - na revolução rápida dos costumes e das comunicações testemunhada no Ocidente entre meados do século XIX e início do XX.

Se as suffragettes inglesas lançavam as bases das conquistas de gênero na política e na economia, o rádio e o cinema começavam a tornar o mundo bem menor.

O primeiro filme “A chegada de um trem na estação”, dos irmãos Lumière, de 1895, fez os espectadores correrem da tela com medo de serem atropelados.

Já a primeira transmissão de rádio nos Estados Unidos, de 1906, foi no mesmo ano da primeira exposição de Braque, e alguns meses antes do seu histórico encontro com Picasso em 1907. De 1906 a 1938, com a transmissão da “Guerra dos Mundos” de Orson Wells, o pânico só fez crescer.

E se o artista é uma antena da sociedade, a arte prenuncia o fato histórico e sua narração com o espetáculo do horror da primeira Grande Guerra, sendo vivido e visto a um só tempo. Rompe-se, portanto, a aura da obra de arte, como antecipara Baudelaire, servida sob demanda e simultaneamente ao fato que a inspirou, como observou Walter Benjamin.

Dividida entre uma perspectiva "realista" do fato e o afã de colocar num mesmo quadro todos os ângulos de uma notícia – a tentação cubista, com frequência o que a imprensa entrega à sua audiência nada mais é do que uma distorção, na proporção mesma que a do vídeo da motocicleta de brinquedo.

No mundo hiperconectado de hoje, com suas fibras óticas de velocidade estonteante, isso é ainda mais constante, abrangente e perigoso.

Cotidianamente, toma-se alhos por bugalhos e, na corrida insensata pelo novo e sua audiência, o jornalismo se exime da responsabilidade que a sua liberdade de expressão exige; e exaure o tempo necessário para a reflexão sobre a consistência entre o fato e sua narração, delegando que a história se ocupe da matéria post-factum.

Com isso, toma-se o fato pela versão, o tempo de hoje como o de amanhã, como na especulação das bolsas de valores, se toma a expectativa de valor pelo próprio valor e este pelo advento das bolhas que estouram ao mínimo deslocamento do ar e dos ânimos. O pânico da arte vira o stampede das bolsas.

Pois estão corrompidos neste processo valores fundamentais para a civilização ocidental como o da vida, o da propriedade, da igualdade, da justiça e tantos outros.

Vida, uma condição absoluta do dom original do divino, passa a ser a avaliação subjetiva das "condições de vida" enviesadas pelo voluntarismo esquerdista.

Já o "proprius" do latim que se referia à propriedade como bem tangível sobre o corpo, sua força de trabalho e destinação, a ferramenta com que se garantia, não apenas a vida, mas a identidade social, hoje é trocada por "propriedade coletiva, ou função social da propriedade", que tira a autonomia e a soberania do cidadão, tornando-o servo do Estado.

Assim como a Justiça, que, longe da igualdade social, garante a igualdade perante a lei, a vida e a propriedade, também vem sendo relativizada como "justiça social", transferindo do cidadão a responsabilidade por seus atos, seu livre arbítrio, para uma hipotética e inexequível imputação penal da sociedade.

Nessa corrupção de valores morais da tradição no nosso imaginário social, pela narrativa arrogante da grande mídia, perde-se a noção de perspectiva e o olhar que tenta abarcar tudo, não dá conta de nada. Vende-se ilusão a qualquer tempo, a qualquer hora e a qualquer um.

Aliás, ilusão como excesso de luz, que mais ofusca do que esclarece. E o que foi a promessa do iluminismo de outrora se apaga nas trevas do relativismo moral, sob as ameaças de catástrofes ambientais ciclópicas, novo pão nosso de cada dia.