Opinião

Relativismo moral da mídia - III


Na novela Babilônia, o que vemos não passa de uma conduta irresponsável e abusiva de se corromper os valores morais do imaginário social do país


  Por Jorge Maranhão 11 de Agosto de 2015 às 14:51

  | Jorge Maranhão, mestre em filosofia pela UFRJ, dirige o Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão


Ainda como parte desta análise que temos feito sobre o fenômeno do relativismo moral da mídia nacional, vale a pena nos deter um pouco mais na novela Babilônia, como ilustração da corrupção dos valores promovida pelo esquerdismo infiltrado nos sistemas de produção simbólica da sociedade brasileira: da justiça, da educação e da mídia em ordem crescente de poder de influência.

O folhetim não foi batizado de Babilônia a troco de nada. Desde o Gênese bíblico se atribui a Babel não apenas a origem da corrupção dos costumes entre os homens, mas o significativo episódio da mistura das línguas ilustrado pelo relato da Torre de Babel, que significa confusão em hebraico.

Enfim, a corrupção da própria natureza humana como genealogia e razão da criação da própria Lei. Desde então, o maior marco civilizatório da humanidade foi a superação do código de Talião babilônico pelo código mosaico judaico-cristão.

Como é sabida a estratégia esquerdista de sabotagem dos valores da “moral burguesa”, pregando o ateísmo e o voluntarismo político, temos como evidente que a trama do folhetim “justifica” a corrupção generalizada dos valores morais da vida social do país, reportada com exaustão no noticiário político do telejornal logo a seguir.

Assim como acaba por impingir como representação de nosso imaginário social a má índole fatal de nosso povo e sua consequente baixa autoestima. Além do que se trata da corrupção da própria tradição novelesca do “bem contra o mal” ou do “mocinho contra o bandido”.

Eis que os noveleiros globais inventaram “o mal contra o mal”, projetando suas visões de mundo subjetivistas para toda a sociedade brasileira, indo de encontro com o slogan institucional da própria emissora: “a gente não se vê mais por aqui”. Ou, como explicar a comentada crise de audiência do horário nobre da emissora?

Se não, examinemos mais detidamente as duas tramas paralelas.

Na principal, duas ex-amigas de adolescência se digladiam numa espiral de luta do poder. De um lado, a personagem Beatriz (interpretada por Glória Pires) é infiel, ninfomaníaca, maquiavélica, interesseira e assassina. De outro, Inês (vivida por Adriana Esteves) é frígida, invejosa, chantagista e fútil. Humilha o marido, comemora o aborto espontâneo da filha e acaba por convencê-la a virar prostituta de luxo.

Uma fórmula, como dizemos, do "mal contra o mal", que rompe com toda uma tradição novelesca secular do “bem contra o mal” e, mais do que isto, aniquila a função pedagógica da “moral da história”, o calcanhar de Aquiles da nossa cultura de transgressão, com que nossos autorreferentes noveleiros fraudam a identidade de todo o país.

Na segunda trama, que dá suporte à primeira, temos um casal lésbico de terceira idade formado por Estela Marcondes (Nathalia Timberg) e Teresa Petruccelli (a "diva" Fernanda Montenegro).

Elas representam o sofrimento de quem enfrenta o preconceito e a reprovação da sociedade por causa de suas escolhas. São serenamente apaixonadas, inteligentes, compreensivas e bondosas. Nesta trama, o contraponto é o prefeito da cidade fictícia de Jatobá, Aderbal (Marcos Palmeira), corrupto, demagogo, infiel e... hétero.

E aí é que se coloca a questão crucial do imaginário fabricado e imposto de uma cultura carnavalizada e transgressora, como destino fatal do país, tornando inviável uma remota representação sequer de uma sociedade justa, honrada e digna.

Por acaso a Rede Globo esposa esta tese tresloucada de seu núcleo de noveleiros ditos progressistas? Só é bom e digno quem é homossexual? Precisava mesmo que os principais héteros da trama fossem todos promíscuos, crápulas e corruptos?

Alguma tênue analogia com a cena política real que o país está a padecer? Será que não cai a ficha da alta direção da Rede Globo que a maior parte da sociedade conservadora brasileira repudia esta falsa representação que lhe querem impingir os chamados produtores de conteúdo?

Onde a exceção vira regra e a regra exceção? O vício vira virtude e a virtude vira vício?

O escárnio que a personagem Consuelo, deliciosamente interpretada por Arlete Sales, mãe do prefeito corrupto, faz dos crentes e tementes a Deus, sejam evangélicos ou carismáticos, é um tapa na cara de uma sociedade majoritariamente conservadora e cristã. E que se sente aviltada em seus valores.

Pesquisas que comprovam isso não faltam, e achincalhar a livre fé dos outros é ignorar esta realidade e desmoralizar a própria liberdade de expressão, valor tão caro à emissora.

Pior, no atual momento do país - quando vemos, indignados, uma elite corrupta sendo posta a pelo dia após dia - caberia à mídia cívica e moralmente responsável disseminar no imaginário social exatamente o contrário: os valores da dignidade humana, do bem comum e da responsabilidade política, sem o qual não se resgata o rumo do crescimento de uma nação.

E, acima disso, a difusão de valores de nossa tradição humanista judaico-cristã, como os da vida (e não a distorção socializante das "condições de vida", da liberdade (como alteridade, a liberdade do outro, e não a voluntariosa e romântica liberdade de identidade individual, do "faço o que quero e ninguém tem nada a ver com isso"), e, sobretudo, da Justiça (espertamente confundida com a esquerdista "justiça social" que desiguala e perverte direitos).

Com que direito, novelistas e produtores de conteúdo (tanto de entretenimento como de jornalismo, como vimos no artigo anterior) "empurram goela abaixo" da sociedade um ativismo homossexual compulsivo, uma nova representação da família, um voluntarismo social esquerdista, uma falsa generalização da corrupção, uma banalização do mal?

Não se dão conta de que isso é tão mais corrompido no imaginário social brasileiro, quanto a corrupta classe política criticada nos telejornais?

O que temos não passa de uma conduta irresponsável e abusiva de se corromper os valores morais do imaginário social do país, quando a própria sociedade, que paga a conta com sua audiência, não aprova esta verdadeira fixação na destruição de valores morais que enfraquece instituições e desmobiliza a cidadania.

Quando a mídia deveria fazer a sua parte e promover exatamente o oposto. Resta a pergunta óbvia: qual a posição institucional da emissora?