Opinião

Reflexões sobre um vasto sistema econômico


Hoje, Nova York é apenas um dos vários grandes centros metropolitanos do mundo. A escala da coisa é mais ou menos inconcebível, no sentido de que ninguém consegue imaginar, de verdade, quanto ganhamos e gastamos


  Por Paul Krugman 23 de Julho de 2015 às 20:47

  | Economista americano, 62 anos, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, é professor e autor de 21 livros (c)2015 The New York Times


Em uma sexta-feira, não faz muito tempo, fui de Vermont para Nova York de carro. Como de costume, evitei seguir por Manhattan e estacionei em Secaucus Junction. Ali se pode tomar um trem rápido para a cidade e é também um bom ponto de partida até Princeton, em New Jersey.

Poucos dias depois, saindo de Secaucus em direção ao sul a caminho de Princeton, tive um desses momentos em que a dimensão da economia mundial simplesmente me acertou em cheio.

O que vi na minha frente foi o seguinte: a New Jersey Turnpike, uma rodovia colossal de 12 pistas no ponto em que eu me encontrava e já repleta de caminhões bem cedo de manhã.

À direita, o Aeroporto Internacional Newark Liberty — apenas um dos três aeroportos da região metropolitana de Nova York — com uma porção de aviões decolando e pousando. À esquerda, os guindastes enormes do porto de contêineres Elizabeth que se moviam na distância.

Hoje, Nova York é apenas um dos vários grandes centros metropolitanos do mundo. A escala da coisa é mais ou menos inconcebível, no sentido de que ninguém consegue imaginar, de verdade, quanto ganhamos e gastamos.

Talvez a razão pela qual esse insight me sobrevenha de vez em quando se deva ao fato de que na minha rotina de trabalho eu analiso esse sistema gigantesco por meio de modelos estilizados que reduzem sua imensidão a algumas linhas que se interceptam. Mas, tudo bem.

Quem rejeita os modelos estilizados acaba invariavelmente confiando, quer admita ou não, em modelos implícitos que são menos realistas ainda, já que os pressupostos sobre os quais se baseiam não passam por nenhuma avaliação.

Além disso, os modelos estilizados foram muito bem-sucedidos nos últimos anos, uma vez que previram momentos de tranquilidade para a inflação e as taxas de juros, os efeitos adversos da austeridade e outras coisas mais. De vez em quando, porém, vale a pena contemplar a enormidade do sistema sobre o qual falamos.

Sobre a barba dos economistas

Há outras questões sérias por aí, mas acho que não tenho nada mais a dizer sobre elas por enquanto. Portanto, passo agora para um assunto sobre qual acredito que possa fazer uma intervenção útil: Peter Dorman quer saber por que tantos economista usam barba (leia aqui o seu post).

Na verdade, outros economistas, além de Dorman, fizeram a mesma pergunta, e constataram que os ganhadores do Nobel que usam barba não são em número tão grande assim como se imaginava.

Isso se deve, em grande parte, à impressão que Joseph Stiglitz e eu passamos, embora Simon Wren-Lewis impressione bem mais do que nós dois.

Mas, se existe aqui algum padrão, ele se deve basicamente à cultura dos jovens prodígios da cultura econômica cujas carreiras costumam decolar bem depressa — e aí a aparência deles, por vezes, não acompanha o ritmo da sua reputação profissional.

No meu caso, deixei a barba crescer quando tinha 26 anos, e o fiz mais por uma postura defensiva. Na época, estava escrevendo o que esperava que fosse uma dissertação revolucionária — "tudo o que já disseram sobre comércio internacional estava errado!" —, mas tinha a aparência de quem ainda não havia se formado.

(É verdade. Uma vez fui visitar um colega e alguns estudantes que aguardavam para vê-lo disseram que eu tinha furado a fila). Achei então que a barba pudesse me conferir um ar mais circunspecto.

Quando percebi que a barba não era mais necessária ela já havia se tornado parte da minha pessoa.

FOTO: Keith Meyers/The New York Times

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Paul Krugman