Opinião

Raízes do "trumpismo"


Que características predispõem alguém a gostar desse sujeito em detrimento de um candidato do establishment?


  Por Paul Krugman 18 de Agosto de 2015 às 15:44

  | Economista americano, 62 anos, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, é professor e autor de 21 livros (c)2015 The New York Times


Lembrete para quem faz pesquisas de opinião: embora, como todo o mundo, eu esteja me divertindo vendo Donald Trump desafiar as previsões do seu colapso — ele não afunda de jeito nenhum —, o que realmente me interessa neste momento é o perfil de quem apoia o candidato republicano à presidência. Que características predispõem alguém a gostar desse sujeito em detrimento de um candidato do establishment?

A razão pela qual eu gostaria de ver as respostas a essa indagação se deve à minha suspeita de que, nos EUA, tanto conservadores quanto experts à esquerda estão interpretando de forma equivocada o fenômeno Trump. Sim, esse é o tipo de afirmação que eu geralmente odeio quando parte de outros especialistas. Neste caso, porém, não se trata de um centrismo automático, e sim de um palpite bem fundamentado com base em algumas evidências pertinentes. Hoje, a explicação conservadora, até onde pude compreender, é que os eleitores da base do partido são vítimas de uma celebridade: o que eles querem, de fato, é um conservador de verdade, mas estão sendo sequestrados e ludibriados por alguém que sabe como a televisão funciona. 

Enquanto isso, na versão à esquerda, de acordo com o que eu ouvi, parece que Trump está apelando ao ressentimento decorrente, em última análise, do fracasso econômico: o operariado americano branco foi deixado para trás devido à desigualdade crescente de renda, mas ele culpa equivocadamente os imigrantes por tomar seu emprego.

Mas, será que os trumpistas estão sendo realmente ludibriados? Seriam eles membros da sofrida classe trabalhadora que não compreende a razão do seu sofrimento? Eu acho o seguinte: essa gente se parece muito com os defensores do Tea Party. E sobre eles sabemos muita coisa.

Em primeiro lugar, os partidários do Tea Party, em sua maioria, não pertencem à classe trabalhadora, pelo menos no que diz respeito às características com as quais esse grupo é geralmente definido. São pessoas relativamente ricas, às quais não falta formação superior.

Então, o que diferencia essa gente?

De acordo com um estudo de Alan Abramovitz, cientista político da Emory University: "Embora o conservadorismo seja, de longe, o indicador mais forte de apoio ao movimento do Tea Party, a hostilidade racial também tem um peso e um impacto significativos nesse apoio."

Portanto, a base de sustentação de Trump consiste em racistas brancos furiosos e razoavelmente abastados — como o próprio Donald [Trump], só que não tão ricos quanto ele. E é possível que não estejam sendo ludibriados.

Talvez você esteja se perguntando agora por que motivo racistas furibundos estariam saindo dos canais que o Partido Republicano construiu para direcionar sua ira. Bem, temos de levar em conta duas coisas: o fato de que os EUA estão se tornando mais heterogêneos no plano social e cultural, e o efeito Fox News, que criou uma espiral que alimenta o indivíduo branco raivoso.

Até que tenhamos um bom perfil do típico partidário de Trump, insisto que tudo isso que eu disse é só palpite. Seja como for, creio realmente que o fenômeno Trump se deve muito mais a princípios fundamentalistas do que imaginam os analistas.

A ECONOMIA SUMIU

Praticamente não houve discussão alguma sobre economia no recente debate dos candidatos republicanos à presidência, o que é estranho se levarmos em conta a imagem que o Parto Republicano projeta de si mesmo. Os republicanos se apresentam como altos sacerdotes do crescimento econômico — pessoas que sabem como promover a prosperidade. Lembram-se da gritaria que houve durante a ultima eleição, em que o presidente Obama foi acusado de estar levando para o buraco a recuperação econômica?   

Agora, não se viu muito isso. O gráfico nesta página mostra o crescimento do emprego no setor privado, em milhares, depois do fim de duas recessões — a recessão de 2001 e a Grande Recessão de 2007-2009. 

Alguém talvez ache que a economia deveria ter reagido com mais força depois da queda brusca que sofreu. Por outro lado, a crise financeira de 2008 foi tremenda, e crises desse tipo costumam deixar uma ressaca terrível. Seja como for, a partir do momento em que a direita começa a dizer que o bom nível de recuperação de Obama não foi de fato obra sua, já perdeu o argumento.

Então estou afirmando que Obama foi responsável por toda essa criação de emprego? Não, as políticas de gestão ficaram muito engessadas depois de 2010. No entanto, os conservadores previram confiantes que as políticas de Obama, principalmente a lei da reforma da saúde — que seria uma "assassina de empregos" —, bem...eles previram que ela acabaria mesmo com o emprego. Não foi o que aconteceu, assim como não se viu nenhum dos outros desastres pelos quais Obama seria responsável. 

A recuperação deveria ter ocorrido mais rapidamente. Contudo, se a economia estivesse sob o comando do  presidente Romney, os republicanos a estariam saudando como a segunda vinda de Ronald Reagan. Em vez disso, estão tentando falar de outra coisa.  

FOTO: Slaven Vlasic/Getty Images

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Krugman - 14 de agosto