São Paulo, 20 de Julho de 2017

/ Opinião

Precisamos reviver o espírito de 32
Imprimir

Os heróis de 32 lutaram para que as exigências da cidadania se sobrepusessem ao egocentrismo de alguns

A Associação Comercial de São Paulo, a cada ano no mês de julho traz as memórias do Movimento Constitucionalista de 32 à lembrança dos paulistas, pois sob a presidência de Carlos de Souza Nazareth, cumpriu com hombridade o seu papel de mentora do empresariado bandeirante.

Nos tempos que correm, necessitamos dos heróis do passado e do presente para que o futuro seja mais auspicioso.

Kieran Egam, pontífice da psicologia do desenvolvimento, mostra a necessidade da infância e da juventude de cultuar o heroísmo.

E diante de sua tese, podemos perguntar que modelos de heróis são oferecidos a nossos filhos e netos.

Quem são os personagens que ocupam o imaginário das gerações que hoje constroem sua hierarquia ética e moral?

Nossos meninos desconhecem a história de Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo. Nossas escolas já não incluem os poemas de Guilherme de Almeida nos seus livros e apostilas.

Nossos jovens empresários desconhecem a biografia de Nazareth. Nosso estado não cultiva a memória dos constitucionalistas  e se esqueceu da importância daqueles que deram a vida para nos deixar um legado democrático.

Precisamos reviver o espírito de 32, o ideal que mobilizou este estado a defender a honra da constituição brasileira.

Precisamos de homens e mulheres, que vivendo estes ideais, não tenham vergonha de serem chamados de utópicos. Precisamos dos modelos heroicos dos jovens constitucionalistas.

Reverenciar este movimento é preciso! Reverenciar a coragem, a fé na brasilidade, a honra demonstrada nos combates físicos e morais que se desenrolaram no solo paulista.

Reverenciar estes heróis e estes ideais é não permitir o seu esquecimento, é abrir possibilidades de compartilhá-los com as novas gerações, é buscar no passado a força para se viver o presente.
Constituição e hombridade são as heranças  desse momento histórico, que necessita ser revivido, para que suas lições não sejam esquecidas e se incorporem à memória coletiva das novas gerações.

André Lara Rezende em artigo memorável demonstrou que "Capital Cívico" entendido como “o estoque de crenças e valores que estimulam a cooperação entre as pessoas e a estruturação das sociedades com base na confiança mútua entre os cidadãos, na segurança das avenças e na eficiência confiável das instituições” este capital é o responsável pelo sucesso da economia e do desenvolvimento de um país.

Quais são as crenças e valores deste primórdio de milênio que tecem a cidadania e o civismo?

Vivemos tempos em que valores morais e éticos necessitam de qualidades heroicas para resistirem aos avanços de falsos preceitos; os jovens são o que de mais precioso tem uma sociedade, pois são eles que garantem a sua continuidade e a sua identidade e por isso devemos propiciar as possibilidades do cultivo deste heroísmo proativo.

Quando estudamos os acontecimentos de 1932 nos deparamos com conceitos que precisam ser retomados, em 32 o esforço público abrangia o segmento estatal e privado, não havia discriminação entre um e outro, mas a cooperação de todos com um objetivo comum.

Vemos esta característica no cidadão João Doria, que não teme quebrar fronteiras entre o estatal e o privado, inovando nas perspectivas de unir para solucionar, cooperar para agir. Isto exige habilidades heroicas!

Andy Hargreaves – educador da Linch School of Education de Boston – afirmou que “ o desenvolvimento que respeita, protege, preserva e renova tudo que o passado tem de valoroso e aprende com ele, é um desenvolvimento sustentável”, isto é uma forma de crescer sem riscos de se perder o rumo da caminhada.

Pedimos ao nosso prefeito, que hoje homenageamos que busque no passado paulista a energia e os pilares para conduzir São Paulo ao progresso que qualifica a vida e as suas necessidades, e para isso devemos promover a educação com bases biocêntricas.

Herói também foi o Conde José Vicente de Azevedo que criou possibilidades para que os frutos do seu heroísmo fossem cultivados pelos seus descendentes; o trabalho da Fundação Nossa Senhora do Ipiranga de educar e cuidar dos menos favorecidos rende bons resultados há 121 anos.

Lamentamos que seu exemplo e sua vida não sejam divulgados em nossas escolas, pois quando não oferecemos bons heróis aos nossos jovens, este espaço é ocupado por aqueles que brilham sob as luzes da mídia, mas não oferecem consistência ética e moral.

Nós, do Conselho Cívico, externamos continuamente nossa preocupação com a ausência de disciplina e do respeito às leis, base do civismo e da cidadania, pois a democracia se constrói cotidianamente.

Recorro a Bernardo Toro que brilhantemente sintetizou o nosso pensamento “As normas devem dar autonomia e liberdade aos cidadãos e, ao mesmo tempo, garantir a ordem social. Pode parecer paradoxal, mas não é. Só a ordem construída em conjunto produz liberdade.”

Maria Montessori faz da História a espinha dorsal das suas casas, pois somente conhecendo o passado e refletindo sobre seus sucessos e fracassos, podemos definir o que queremos para o futuro.

O momento vivido deve ser influenciado por duas ausências: o passado e o futuro. Do já vivido extraímos a experiência, do que virá extraímos as expectativas, os sonhos, a utopia e por isso as aulas de História deveriam oferecer dois ângulos de análise - o ontem e o hoje - para que o jovem possa escolher como construir o amanhã.

Hoje homenageamos Maria Cecilia Naclério Homem, historiadora incansável que busca no passado os  erros e acertos do homem para que o futuro seja mais generoso para com todos.

Nossa tarde está repleta de heróis e não temos receios de assim os chamar, pois nossa sociedade carece destes exemplos.

Somos paulistas, nascemos num estado construído com o suor e o sangue de diferentes etnias que nas palavras de Cassiano Ricardo aqui vieram viver... aqui vieram sonhar... Viver com tantas diferenças que constituem a unidade, permite flexionar sem quebrar e isto é o núcleo do verdadeiro pensamento democrático.

Mara Gabrili, é uma heroína que fez de suas diferenças a mola propulsora do seu viver, e não se contentando somente com  suas vitórias individuais se lançou na criação de novas possibilidades a outros, a muitos outros.

Mara, assim como o jovem Aldo Chioratto, que ultrapassou os limites da infância para se tornar um soldado constitucionalista, transgride diariamente seus limites – de descanso, do tempo que a família exige, do lazer, do sono para batalhar por oportunidades que gerem equidades à vida de muitos brasileiros.

Do civismo e da cidadania faz  parte o cuidado com o “meu” e com o “nosso”. O “meu” é produto do meu esforço e do meu trabalho, das minhas conquistas financeiras e das minhas conquistas nos relacionamentos pessoais.

O “nosso” é produto do esforço de muitos, do trabalho de uma coletividade.

Administrar o “meu” traz benefícios ou malefícios à individualidade, administrar o “nosso” traz benefícios e malefícios a muitos. Administrar o “meu” é decorrência de estar vivo, administrar o “nosso” é missão que requer talento e vocação.

Os heróis de 32 insurgiram-se contra aqueles que não tinham o “nosso” como prioridade e abrindo mão de seus patrimônios e muitos da sua vida lutaram para que as exigências da cidadania se sobrepusessem ao egocentrismo de alguns.

José Luiz Egydio Setúbal, é um homem que abdicou das comodidades conquistadas pelo seu “eu” para se dedicar ao “nosso” que está imbuído em cada tijolo da Santa Casa de São Paulo, hospital que acolheu os revolucionários feridos nos campos de batalha.

Hoje é a nossa Santa Casa que está ferida e necessitada de tratamentos e José Luiz Egydio Setúbal foi eleito para tratar de seus males, missão que requer heroísmo diário e dedicação sacerdotal. Nossa homenagem é o reconhecimento de seus pares.

Gosto dos heróis, neles podemos nos espelhar buscando as qualidades e as características do homem novo, que pode ser a base de um novo mundo. Heróis não são perfeitos, são homens e mulheres que superaram obstáculos físicos, históricos, políticos, geográficos sem abrir mão de seus valores, de suas crenças.

Nesta tarde paulistana roguemos a Anchieta, para que nos auxilie na formação de muitos heróis, a exemplo destes que hoje homenageamos, pois a contemporaneidade nos exige muita coragem, fé, hombridade, prudência, dignidade e modéstia para que São Paulo e o Brasil sejam alimentados pelas energias do civismo e da cidadania.

Discurso proferido na cerimônia de entrega do Colar Carlos de Souza Nazareth, na Câmara Municipal de São Paulo



Alguns açodados analistas, não compreendendo as altas responsabilidades de presidir um órgão dessa magnitude, passou a cobrar de Paulo Rabello de Castro medidas autoritárias.

comentários

Sem perspectivas e sem recursos, nossas metrópoles afastam-se, cada vez mais, do seu papel civilizador e inovador

comentários

Acordamos a cada dia sem saber qual a nova bomba e de quem, de onde virá. Mas virá

comentários