Opinião

Posição FACESP/ACSP - Vamos construir o futuro


O próximo dia 13 nos oferece a oportunidade de manifestarmos o apoio ao combate à corrupção e à punição exemplar dos culpados, o que é absolutamente necessário, mas não suficiente


  Por Alencar Burti 12 de Março de 2016 às 16:00

  | Presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp)


“Percorre o Brasil todo um anseio de reerguimento moral. Se, às vezes, esse poderoso sentimento provém de uma semente demagógica, a verdade é que há outros pontos de partida e outras origens, cuja realidade e solidez ninguém pode negar.

Generaliza-se por todas as camadas da população brasileira a convicção de que basta de abusos e que chegou o momento de corrigir os defeitos e fraquezas do regime, restabelecendo entre nós a austeridade e a honestidade nos negócios públicos. 

A hora é de definições. Não é possível declinar da responsabilidade de assumir uma posição clara a esse respeito. Também nenhum homem, qualquer que seja sua situação social e atividade econômica, por mais conceituado que se julgue, está em condições de isentar-se de uma sincera prestação de contas às autoridades e ao público.

É exato que nessa corrente benéfica que visa uma regeneração político-administrativa se encontram aproveitadores. Fato inevitável que, entretanto, não terá força suficiente para desvirtuar os objetivos da grande maioria.

No ponto em que chegou a desordem moral do Brasil, a separação do joio do trigo não pode, como na parábola do Salvador, realizar-se desde já.  Devemos esperar mais um pouco, pacientemente, até que a erva daninha se denuncie e facilite, pela evidência da diversidade de essência e de finalidade, uma separação inequívoca e justa.

A reação do povo diante dos escândalos oficialmente apurados e relatados é uma esperança que vem tranquilizar aqueles que há muito vinham advertindo a nação, preocupados com o rumo que tomavam seus negócios, cada vez mais orientados pelo interesse particular dos agentes governamentais e cada vez mais indiferentes ao verdadeiro interesse público.

A ausência de espírito público naqueles que aceitavam encargos oficiais, seja em mandatos políticos seja em funções burocráticas, estava se tornando impressionante. As poucas e honrosíssimas exceções isolavam-se impotentes diante do realismo brutal do avanço.

O povo brasileiro, na sua tradicional benevolência, alimentada por infantil boa-fé, custou muito para realizar a exploração de que era vítima. A razão principal dessa demora se encontra no fato comum, que entre nós se repetiu, de encontrarem-se entre os que mais gritam ser amigos do povo, seu defensor e advogado, exatamente os mais audaciosos exploradores.

Também, sob esse aspecto funcional, a conjuntura política a que chegamos serviu de lição, e de dolorosa lição, abrindo os olhos crédulos dos brasileiros para a malícia da situação.

Devemos aceitar e estimular essa extraordinária reação popular, como a vitalização do instinto de sobrevivência da nação brasileira.

O Brasil ainda possui energias suficientes para reagir e enveredar pelo caminho da honestidade político-administrativa, escoimando das posições de relevo, eletivas ou de nomeação, os elementos moralmente incapazes.

O processo seletivo e separador é lento, mas não devemos desanimar por esse motivo. A vida de uma nação como o Brasil se conta por séculos e não por anos ou lustros. Pouco importa que levemos cinco ou dez anos de depuração, contanto que não interrompamos a cura. O processo infeccioso levou anos para dominar o nosso organismo e tornar-se o deprimente espetáculo, com as supurações repugnantes que estamos sofrendo.

As acusações, porém, são fáceis. Há numerosos “atravessadores” que desejam aproveitar a confusão para expandir ódios recalcados e sentimentos pessoais de antipatia, às vezes em função de competições e rivalidades que não interessam ao povo, testemunha insuspeita dos acontecimentos. Por conseguinte, é indispensável que o povo seja bem informado, pelas rigorosas apurações, ouvidos os acusadores e acusados, cumprindo seguir o aforismo jurídico de que o ônus da prova cabe ao acusador.

O Brasil está presentemente transformado em um vasto tribunal. Todos os brasileiros com senso de responsabilidade devem ficar preparados para prestar o seu depoimento, não só como testemunhas, mas eventualmente como acusados.

Ninguém é bastante importante ou conceituado para julgar-se dispensado desse dever. Ninguém é bastante humilde ou desconhecido para não ser ouvido, quando tiver o que declarar.

Queira Deus que essa onda milagrosamente nascida do caos moral em que nos encontrávamos possa purificar-se e, no devido tempo, extirpar do organismo brasileiro as impurezas que o atormentam, contaminando gerações sobre gerações, em terrível tara hereditária. Essa onda popular é o sinal de que a hora é chegada.

Que ninguém fique indiferente ou ausente a ela, a não ser que seja usufrutuário da sordidez que vamos eliminar. Mas, mesmo para esses, o arrependimento é possível e a penitência os absolverá. Essa hora é decisiva e marcará a sobrevivência da nacionalidade brasileira. ”

Esse texto é de autoria de Aldo Mário de Azevedo e foi publicado na edição de novembro de 1953 do Digesto Econômico, revista da Associação Comercial de São Paulo, com o título “Instinto de Sobrevivência”. Foi reproduzido em julho de 2000 no jornal Diário do Comércio.

A republicação, hoje, tem o objetivo de mostrar que, se continuarmos a nos omitir em relação aos graves problemas nacionais, eles continuarão ou se repetirão no futuro. Mais de 60 anos depois, o cenário nele descrito permanece atual.

Isso serve de alerta: se não nos mobilizarmos, seremos cobrados pelas gerações futuras, por termos falhado em garantir a sobrevivência da nacionalidade brasileira. 

O próximo dia 13 nos oferece a oportunidade de manifestarmos o apoio ao combate à corrupção e à punição exemplar dos culpados, o que é absolutamente necessário, mas não suficiente.

Precisamos mostrar que o País não pode continuar paralisado e que Executivo, Legislativo e Judiciário precisam entender que é fundamental restabelecer a governabilidade do Brasil, o que exige decisões urgentes.

Se, para governantes e políticos, meses representam prazos regimentais ou estratégicos, para a economia, cada dia de paralisia acarreta uma perda de produção irrecuperável. Para a empresa, muitas vezes, a situação atual brasileira compromete sua própria sobrevivência.

Já o trabalhador empregado tem a angústia de não saber até quando terá emprego. Para o desempregado, há mais dificuldades e desesperança. E, para a população, é uma incerteza sobre o presente e o futuro.

Repetimos a advertência de 1953 e fazemos, aqui, um apelo para a participação no próximo dia 13. Essa hora é decisiva e marcará a sobrevivência da sociedade brasileira.