São Paulo, 23 de Julho de 2017

/ Opinião

Por que ela?
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Nenhum país sintetiza a evolução, as ideias e os valores do Ocidente no grau que a França o faz

É tentador comparar a onda migratória na Europa contemporânea com a bárbara que pôs fim a Roma no século V. O registro histórico de populações inteiras se instalando dentro do espaço do Império Romano, com seus hábitos, costumes, religiões e armas, hoje, tanto pode inflamar a imaginação dos demagogos do momento quanto alimentar os sonhos de colapso civilizacional dos ideólogos de sempre.

Uma tentação que pode aumentar pela associação dos autores dos recentes ataques terroristas à população de imigrantes muçulmanos. Daí à hipótese de a imigração em massa ser uma arma da estratégia salafista de guerra  contra o Ocidente não vai muita distância. Afinal de contas, a questão dos imigrantes muçulmanos, sejam lá quais forem as suas razões e consequências, está posta de maneira bem candente, tanto nas eleições norte-americanas quanto na polêmica do Brexit.

Bem, mas há que se ter cautela com os paralelos históricos, mesmo quando porventura existam. A batalha de Mogasdício (3 e 4 de outubro de 1993) não foi a nova Teutoburgo (9 d.C.), o Iraque não é a Germânia onde Varo perdeu as legiões de Augusto e os Estados Unidos não querem implantar um império no Afeganistão. Aí são somalis, iraquianos e afegãos que continuam a morrer principalmente pelas mãos de compatriotas seus.

Quanto a Roma, como disse David Abulafia, chegaram a ser  apontadas  210 explicações para a  sua queda, que acabou se precipitando, dentre muitas  razões válidas, com a exasperação das populações que defendiam as suas fronteiras contra novos invasores. Roma não foi apenas ela, mas também o que  significava para outros povos.

A Europa pós-guerra jamais foi vista como uma nova Roma e essa imagem que construíram para os Estados Unidos no final do século passado não funcionou. Europa e Estados Unidos abarcam países ricos e sociedades desenvolvidas, despertando ao redor do planeta sentimentos que vão desde o desespero para nelas ingressar até o ódio que deseja destrui-los. É duro, mas é a verdade.

A explicação mais propalada neste momento de perplexidade com um novo episódio da série de brutais ataques terroristas na França mistura a não assimilação dos muçulmanos naquela sociedade com o papel global que o país desempenha na guerra ao extremismo armado islâmico. É a forma sofisticada de sugerir que a França é culpada pelos ataques que sofre.

A lógica dessa explicação não resiste aos fatos. Como os franceses, os ingleses enviaram seus aviões para atacar o Estado Islâmico, e com os alemães acorreram todos juntos à guerra no Afeganistão, sem que por isso ingleses e alemães experimentassem a infame sequência de ataques que assolou a França. Por outro lado, os belgas, com papel discreto na luta antiterrorista, sofreram um ataque mortífero ao aeroporto de sua capital. E esses países, como outros na Europa, têm as suas comunidades de imigrantes muçulmanos, não tão grandes quanto a França, mas também com as suas dificuldades de integração, que não fazem delas focos de terrorismo.   
Acena-se ainda com outra razão, a francofonia, comum a franceses e a muitos belgas, que facilitaria a ação de terroristas radicados nesses países ou familiarizados com a língua em suas origens.  

Mas não se ataca a França por que ela fala francês, por que ela combate junto com os Estados Unidos e Inglaterra o extremismo armado islâmico ou por que tem uma considerável população muçulmana.

Ataca-se a França pelo que ela é e representa para o mundo.

O que foi atacado nos últimos dezoito meses foi a sua imprensa, o modo de vida de sua capital, a sua data nacional e, ali do lado, a capital da União Europeia, da qual ela é atora central. Tem toda a razão o primeiro-ministro Manuel Valls quando alerta que mais ataques acontecerão, pelos muitos alvos materiais e simbólicos que a França encerra. Da mesma forma que temos por acreditar que ela resistirá em nome desta civilização.

Nenhum país sintetiza a evolução, as ideias e os valores do Ocidente no grau que a França o faz.

Então, por que a França está sendo atacada?

Simplesmente porque é a França.

 



Alguns açodados analistas, não compreendendo as altas responsabilidades de presidir um órgão dessa magnitude, passou a cobrar de Paulo Rabello de Castro medidas autoritárias.

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