Opinião

Por que ele é, desde já, o grande perdedor nas eleições americanas?


Donald Trump se opõe à globalização e a qualquer generosidade com os imigrantes. Mas ele caiu nas pesquisas para a Presidência dos Estados Unidos pelas afirmações de cunho sexual


  Por João Batista Natali 24 de Outubro de 2016 às 14:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Em duas semanas, os eleitores americanos estarão votando para eleger o sucessor do presidente democrata Barack Obama. Não importa qual seja o resultado, já se pode afirmar o nome do perdedor: Donald Trump. Ele conseguiu destruir a própria candidatura.

Aos 70 anos, o republicano Donald John Trump, tem uma língua maior do que a boca. 

Há alguma coisa de errado com a democracia dos Estados Unidos para que Trump tenha chegado tão longe. Para início de conversa, ele virou do avesso a agenda tradicional do Partido Republicano.

Nos últimos 60 anos, assinala o cientista político Russell Baker, na New York Review of Books, os republicanos representavam uma classe média emergente, que, com o presidente Dwight Einsenhower, exprimia sua fé no mercado e abandonava o intervencionismo da era Roosevelt.

Mas eis que o partido se tornou "um prisioneiro patético de Donald Trump, um homem de televisão que se dirige a uma classe média descontente e onerosa".

Publicações conservadoras de peso, como a Commentary, afastaram-se do candidato republicano.

Com a eleição de 8 de novembro, não será apenas a democrata Hillary Clinton quem sairá ganhando. Ganhará também o oposto de tudo aquilo que Trump representou: o preconceito em lugar do conhecimento político, o protecionismo em lugar da globalização e o uso abusivo da teoria da conspiração em lugar de uma visão racional da História.

A emergência de Trump terá sido um grande susto para o próprio modelo de democracia, que em geral sinaliza na direção de soluções corretas para a sociedade como um todo.

Se ele for eleito, o mundo se tornará refém de uma parcela desinformada de eleitores, uma massa manipulável por sua baixa escolaridade e por uma mentalidade em nada aberta aos fatores estrangeiros.

UMA TRAJETÓRIA EM QUEDA

E por que, provavelmente, Trump não irá para a Casa Branca? A primeira resposta é dada pelas pesquisas de intenção de voto. Hillary está com 50%, e ele, com 38%, conforme divulgou a rede de televisão ABC, neste domingo (23/10).

A segunda resposta é mais ampla. De alguma maneira, a sociedade norte-americana se mobilizou contra o conjunto de loucuras que a candidatura de Trump tentou propagar.

O magnata da construção imobiliária e da hotelaria pressupunha que os setores desadaptados da mão de obra eram vítimas da concorrência dos imigrantes, que por sua vez ameaçariam os valores éticos compartilhados pela população, levando-a ao declínio moral.

Os bodes expiatórios passaram a ser preferencialmente os hispânicos, “preguiçosos” e com um pé no narcotráfico, e sobretudo os muçulmanos, suspeitos de simpatia pelo terrorismo.

Trump atacou os tratados multilaterais de comércio – com o Canadá e com o México, ou com os países da área do Pacífico – como se eles fossem, ao mesmo tempo, exportadores de empregos e importadores de bens que a indústria norte-americana poderia produzir.

O isolacionismo é uma sereia de canto atraente, mas nem por isso a sua narrativa consegue ser correta. Por seu peso no comércio mundial, os Estados Unidos são, ao lado da União Europeia, os grandes ganhadores da globalização, sobretudo por entrarem no jogo com vantagens de escala e tecnologia que poucos têm.

PINÓQUIO E A SEXUALIDADE

Seguiram-se então, na retórica de Trump, uma sucessão de reações descabidas. Em nome do individualismo radicalizado, recusou-se a publicar sua declaração de Imposto de Renda. Sem prova alguma, acusou seus adversários de tentarem fraudar a eleição.

Acusou o presidente Barack Obama de praticar clandestinamente a religião muçulmana e outras aberrações que caíram na rede das instituições especializadas em checagem de informações eleitorais.

Em março deste ano, o Politico Magazine analisou seis horas de discursos de Trump e identificou cerca de 60 exageros injustificáveis ou inverdades. Uma outra instituição afirmou que 74% de suas afirmações oscilam do que é um fato aproximado ao que é abertamente falso.

As afirmações dele mais hilariantes dizem respeito à vacinação infantil como causa do autismo, ou à afirmação de que Antonin Scalia, juiz da Corte Suprema, não morreu de causas naturais, mas foi assassinado.

A cereja no bolo da imagem de Trump veio com suas declarações ou insinuações de cunho sexual. Ele já havia chocado os partidários do comedimento e do bom gosto ao falar orgulhosamente da beleza e do comprimento de seus dedos, como sintoma dos mesmos atributos de outra parte escondida de seu corpo.

Eis que, no início de outubro, uma sucessão de gravações divulgadas por grandes jornais ou pela internet demonstraram um Trump misógino e cafajeste, discorrendo sobre sua condição de irresistível sedutor. Vítimas de seus ataques ou carícias indesejadas deram testemunhos convincentes.

A primeira lição dessa história é simples. Os Estados Unidos devem se livrar muito em breve de um candidato que não terá os votos suficientes para se instalar na Casa Branca.

A segunda lição é mais delicada. Se alguém como Trump venceu as primárias do Partido Republicano e se tornou uma celebridade do non-sense político, é sinal de que ele exprimiu um fenômeno que persistirá e que tende a ressurgir com novos personagens de estilo parecido.

Ou, como diria na Folha de S. Paulo (22/10) o comentarista Demétrio Magnoli, Donald Trump botou um ovo. De dentro desse ovo de serpente nada de positivo nascerá no futuro.

FOTO: Gage Skidmore/Flickr

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