São Paulo, 21 de Janeiro de 2017

/ Opinião

Percepção e realidade: 6 questões sobre Trump
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Exageros evidentes da mídia e declarações de autoridades após a vitória do republicano Donald Trump prejudicam uma apreciação mais serena do cenário norte-americano e mundial

A eleição de Donald Trump como 45o presidente do Estados Unidos da América pode ter contrariado as últimas pesquisas eleitorais antes do pleito, mas não foi uma surpresa.

O susto só aconteceu para quem se recusava a admitir a razoável possibilidade do republicano vencer, dada a pequena diferença entre os candidatos ao longo da campanha, até com alternância de posições.

Como os fatos demonstraram, houve um erro colossal da maior parte da imprensa mundial a respeito da eleição norte-americana de 2016.

Porém, o erro da imprensa não foi naquilo que lhe cabe fazer, analisar os fatos, mas no que não lhe cabe fazer, tomar partido.    

E essa não foi uma falha apenas da maior e melhor parte da imprensa.  Ao redor do mundo, não poucos líderes e governos escolheram Hillary Clinton, muitos deles satisfeitos por poderem vazar seu antiamericanismo no espantalho em que foi transformado Trump.

Foi então que, ao se tornarem expressão de uma vontade, as análises acumularam erros sobre erros, enganando os próprios analistas.

Mas os exageros evidentes em matérias jornalísticas e declarações de autoridades após a vitória de Trump demonstram que o erro persiste, prejudicando uma apreciação mais serena do cenário norte-americano e mundial com Trump eleito. Vamos a eles.  

1.Os Estados Unidos vão rachar por que Trump foi eleito?
Não! Depois da Guerra Civil (1861-1865), particularmente na passagem do século XIX para o XX, os Estados Unidos consolidaram uma estrutura política que fez do Estado norte-americano um dos mais poderosos do mundo, estrutura essa respaldada pela sua Constituição e amplamente apoiada pela sua população.

Ademais, no inconsciente coletivo norte-americano, o medo de uma nova cisão é maior do que qualquer temor ou aversão a uma liderança, desde que ela jogue dentro das regras aceitas pela sociedade. Theodore Roosevelt (1901-1909) pode ter sido um presidente mais acidental do que Trump e os Estados Unidos não viveram momento de maior incerteza e divisão do que no assassinato de John F. Kennedy (22/11/1963).

A grande divisão da sociedade norte-americana, a  racial, é sem dúvida um grande fardo para muitas administrações no futuro, mas está longe de representar uma ameaça direta às instituições do país.

Além disso, Trump nessa eleição chegou em alguns estados à incrível marca de 19% de preferência do voto afroamericano, deixando longe os 6% de Mitt Ronney em 2012 e os 11% que foram importantes para George Bush vencer em 2004. 

Trump foi a opção em várias camadas da sociedade americana, mais contra a maneira pela qual o país está sendo governado do que contra os valores que lhe dão sustentação. Aliás, foram eles - liberdade, individualismo e prosperidade – os defendidos pelos partidários de Trump.

2.O mundo que conhecemos vai terminar?
Depende de que mundo, que está sempre em evolução, mas o grande acontecimento do século XXI continua a ser o 11 de setembro.

A eleição de Trump pode ser um indicativo de mudanças em curso, não somente nos Estados Unidos como também na Europa, principalmente na maneira como a classe média vê os seus governos. Essas mudanças, derivadas de questões complexas, como empregos, salários, migração e serviços públicos, continuariam a acontecer com Hillary eleita.

O recado aí é claro, mas tem que ser adequadamente compreendido pela elite política, como deve acontecer também no Brasil.      

Do ponto de vista internacional, certamente a eleição de Trump é um acontecimento relevante da segunda década do século e tem o seu significado. Mas está  longe de se constituir em uma ruptura do arcabouço politico, econômico e militar instituído desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

A ONU, o FMI, o Banco Mundial, a OTAN, a própria OEA em nosso hemisfério, e tantas outras organizações e agências internacionais de primeira linha estão em pleno funcionamento e os Estados Unidos continuarão a precisar delas, uma lição que aprenderam com os erros de George Bush em 2003.

3.Os Estados Unidos vão se isolar?
À sua maneira, os Estados Unidos são um país isolado pela singularidade cultural, grandeza territorial, riqueza e posição geográfica.

Sempre houve a tentação de os Estados Unidos se voltarem para si mesmos, bastando-se em sua prosperidade, seu espaço e sua potencial autossuficiência.

Entretanto, a média da população norte-americana, pela memória geracional ou pela educação sistemática, tem consciência de que o seu padrão de vida, em crescimento contínuo desde meados do século XX, depende da presença dos Estados Unidos ao redor do globo.

Na verdade, a retórica de Trump coincide com alguns desejos do aparato militar e diplomático dos Estados Unidos e não tem nada de isolamento.

Para começar, Israel vai ter mais apoio dos Estados Unidos e os europeus vão ter que botar a mão no bolso para sustentar sua defesa.

No Oriente Médio, os Estados Unidos vão despertar definitivamente do sonho da Primavera Árabe e atuar com os pés no chão, aliás como desejam alguns países da região que torciam por Trump.

O risco, no momento, pelo menos até a posse de Trump, não é ele mesmo, mas uns e outros (Rússia, China, Coréia do Norte) interpretarem mal os sinais e fazerem uma bobagem, do tipo invadir alguém na Europa Oriental, derrubar aviões ocidentais na Síria ou atacar um aliado norte-americano no Extremo Oriente.   

4.A globalização terminou?
Esta globalização, que não é a primeira da História, está vivendo a sua segunda fase. A primeira foi a de exportação maciça de capitais e técnicas manufatureiras dos países desenvolvidos para os países pobres, com grande expansão de negócios, ativos e investimentos.

A segunda fase, até certo ponto esperada, está em pleno desenvolvimento, com a afluência de pessoas, produtos e capitais no sentido oposto, o que causa insatisfações e reações.

A eleição de Trump não significa que a globalização terminou, mas que ajustes deverão ser feitos internamente nos países mais ricos.

Da mesma forma que as mudanças na percepção da população norte-americana aconteciam antes do duelo Hillary x Trump, o protecionismo comercial já estava em alta no mundo antes da campanha eleitoral dos Estados Unidos.

E a repatriação de capitais norte-americanos desejada por Trump, embora não destoe da tendência internacional, é simplesmente grande demais para não mexer com poderosos interesses, o que talvez indique a verdadeira origem da batalha de vontades que está por trás do catastrofismo ululante.

5.A tradição liberal e democrática dos Estados Unidos foi abalada?
Incialmente, cabe distinguir o que significa liberal aqui e nos Estados Unidos. Lá começa pelos costumes e acaba em esquerdismo.

Por aqui e em muitos países, liberal significa a adesão ao credo da liberdade econômica e política. A eleição de Trump pode ser sido um golpe no que se entende por liberal lá, mas dificilmente no que é liberal aqui, uma confusão que parece estar sendo intencionalmente alimentada.

As bandeiras dos partidários de Trump se levantaram pela liberdade econômica e política que eles julgam ameaçadas pelas imposições do governo e pelos interesses econômicos.

A intolerância vazada nos discursos de Trump foi ao encontro de uma insatisfação de boa parte da população com a economia e a sua segurança, mas não de encontro às tradições  e valores do país.

Os americanos compareceram às urnas e participaram ativamente do processo eleitoral, da campanha à votação, não existindo fatos que demonstrem uma falência do sistema político.

Houve na campanha forte discordância, ao longo dos anos  acumulou-se uma exasperação com a falta de liderança, mas não aconteceu um descrédito generalizado em relação à democracia.

6.Está ocorrendo um retorno aos anos 30 e 40 do século XX?
O populismo de que acusam Trump por ele ir ao encontro do eleitorado insatisfeito cabe também no senador anglófono que discursa em espanhol para segmentos hispânicos do eleitorado, ou os cativa antes em cursos de inglês em troca de votos.

A xenofobia pela qual se analisa aqui a retórica do republicano em relação aos imigrantes tem a mesma matriz do antiamericanismo e da aversão ao europeu.

O nacionalismo terceiro-mundista e anticapitalista é tão tacanho quanto o de muitos partidários de Trump. E tão racista quanto discriminar o imigrante pela cor da pele é atribuir problemas do mundo às cores dos olhos das pessoas, como alguém fez por aqui. Então não é por aí.

Não adianta jogar no adversário as acusações de populismo, xenofobia, nacionalismo e racismo. Se estamos voltando à intolerância dos anos 30 e 40 do século passado, o mundo todo está entrando nessa, acima de tudo pela falta de diálogo.

A campanha eleitoral norte-americana de 2016 foi sórdida, de ambos os lados, e parece que não acabou.
Olhar a eleição de Donald Trump sem exageros pode fazer bem, inclusive ao Brasil.

FOTO: Suamy Beydoun/Estadão Conteúdo

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As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

 



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