Opinião

Pela lei e pelo voto


O Brasil precisa de reformas urgentes, não há dúvida. Mas para implementá-las, talvez precise se livrar de muita coisa


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 09 de Março de 2017 às 16:56

  | Historiador


Custou caro ao Brasil treze anos de populismo político e fiscal, que se sucederam a oito de social-demagogia, após dez de anarcorrepública. Trinta e um anos de inadimplência política estão aí plasmados na pior recessão sofrida pelo País desde 1930. 

Como apontou Roberto Campos, em 1985, depois do encerramento do regime militar, a esperada e natural liberalização do País simplesmente não aconteceu.

Misturou-se liberdade política com autoritarismo econômico, em doses cada vez maiores, até chegarmos ao atual estado de coisas: uma combinação perversa de anarquia política e de ataraxia econômica, com altíssimo custo social.     

Ontem, diante da notícia da queda da atividade em todos os setores da economia, o Ministro da Fazenda veio a público afirmar que se fixar no PIB é olhar para o retrovisor. Pode ser, mas não há como dirigir sem olhar o retrovisor.

E tampouco há qualquer catastrofismo em enxergar, para trás e para frente, que o caminho que tomamos está equivocado. Caminho político, diga-se.

Os estragos decorrentes desse equivoco histórico são muito maiores do que a queda do PIB. Eles desconstroem sucessos que o Brasil havia alcançado décadas antes de inaugurada esta república. Já se perdeu o passado, agora está se perdendo o futuro. 

E para quem acha que isso é um clichê, basta ver o que  está ocorrendo com as grandes empresas brasileiras internacionalmente competitivas, a PETROBRÁS e as de construção pesada, atingidas em cheio pela corrupção, o  equívoco histórico desta república.  

O discurso oportunista e moralista de dirigentes de repúblicas vizinhas contra elas, junto com a cara de pau de cubanos, bolivarianos et caterva que nunca pretenderam pagar coisa alguma, é o ensaio para o maior “beiço”  da história moderna que vai ser coberto não pelas empresas enleadas no delírio lulista, mas por todos os brasileiros.

Mas para elas, caçadas em tribunais estrangeiros, talvez pior do que o calote, seja o fechamento de oportunidades de negócios, no exterior e aqui. E não adianta o nacionalismo de botequim falar em conspiração: como o petróleo, a lambança é nossa!

Há alguma dúvida sobre a extensão do desastre que se abateu sobre o País? Alguém de boa fé pode negar que esse desastre se deve às práticas contumazes de uma classe política em sua grande maioria desonesta, despreparada e parasitária?  Não, de maneira alguma.

Trinta e um anos são tempo suficiente para concluir que o democratismo  estatizante que paulatinamente tomou conta do País não foi uma decorrência exclusiva da ideologia.

Mais do que um projeto esquerdizante foi, desde o início, um instrumento das elites regionais para se adonarem da coisa pública, por via de partidos políticos financiados de maneira cada vez mais imoral e ilegal. 

Como disse um promissor deputado constituinte, depois ministeriável conspícuo, em 1988 se consumou a vitória da paróquia. O que ninguém sabia, e só estamos descobrindo agora, é o quanto custaria essa vitória à sociedade brasileira.

O Brasil precisa de reformas urgentes, não há dúvida. Mas para implementá-las, talvez precise se livrar de muita coisa.  

Começando pela crença de que Brasília é a sede da corrupção no País. Não é. Brasília é tão somente o cartório da corrupção, com endereço na Praça dos Três Poderes.

Em Brasília apenas se consumam os arranjos tratados nas paróquias, que a cada mandato lá desembarcam seus prepostos para assaltar a República em nome de um pacto federativo de fancaria. 

O colapso financeiro que se repete de tempos em tempos nos estados, por ocasião das dificuldades do poder central, é a prova da relação espúria entre os entes da federação nesta república.

E isso em uma condição particularmente danosa: não há lei, não há controle e não há autoridade que coloque limites a esse caos. 

Com o sistema político que aí está, qualquer reforma que se faça será apenas uma miragem.  

Mais do que tudo, antes de qualquer coisa, o Brasil precisa começar a se livrar dessa classe política. A que se festeja nos restaurantes de Brasília dizendo que os crimes que insiste em cometer são política. A que conspira para se manter no poder, custe o que custar, não importa sua culpa apurada pelas investigações, sua punição na forma da lei e sua condenação pela sociedade.

É dela que temos que nos livrar. Sem atalhos e sem rupturas.

Pela lei, como juízes, procuradores e policiais íntegros estão fazendo, e pelo voto, como faremos daqui a pouco mais de um ano.

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