São Paulo, 10 de Dezembro de 2016

/ Opinião

País amadurece na dor
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O aumento do interesse pela política demonstra engajamento maior e capacidade de indignação com os desmandos

Aos trancos e barrancos, como se diz, o Brasil vai seguindo sua trilha de país democrático, amadurecendo pelo maior interesse de sua população nas atividades políticas e governamentais. Embora, dentro do próprio aparato do Estado, envolvendo pessoas importantes do governo, da banda podre da iniciativa privada, do Parlamento e mesmo do Judiciário, existam os que conspirem. Eles tentam destruir a democracia para implantar no Brasil um regime fechado socialista. Mas a grande verdade é que um número cada vez maior de brasileiros faz da discussão da vida pública assunto de suas conversas formais e informais.
Contribuem para isso a existência de eleições a cada dois anos (eleições municipais alternadas com gerais) e, de uns tempos para cá, de forma mais acentuada, a enxurrada de corrupção que tomou conta do poder público, indignando as pessoas comuns que começaram a prestar atenção ao que se passa no território tupiniquim.

"O país que vai emergir deste lamaçal será mais exigente"

Diz a sabedoria popular que não há parto sem dor. O Brasil sente a dor de consolidar sua democracia, porque esse processo de amadurecimento coexiste com hemorragias internas que sangram as instituições e o bolso dos pagadores de impostos.
O conluio desonesto entre maus agentes públicos, detentores de mandato, de toga, e os empresários que não honram a tradição de competição livre de mercado conspurca a trilha de desenvolvimento onde o Brasil empaca.
Está se tornando irresistível, todavia, a onda de interesse despertado pelas eleições, campanhas difamatórias e mentirosas e a revelação do entranhamento profundo do desvio de dinheiro público em favor de partidos, empreiteiras e gente ligada ao governo e partidos.
Nas rodinhas de amigos, colegas, parentes, predominava sempre a discussão aleatória sobre futebol, celebridades fajutas, novelas imbecilizantes, casos de família, trabalho e outros temam banais ou não.
Tem sido constatada, com força crescente, a presença do assunto política, eleições, partidos, nessas rodas nos tempos mais presentes.
Certamente, e ao longo do tempo, pode não ser infelizmente, ainda que agora pareça, a motivação se acelerou no baixo nível da campanha presidencial ditado pelos marqueteiros do Planalto –pagos com dinheiro suspeito - e na massiva presença na mídia eletrônica e impressa do fenomenal ataque à Petrobrás, possivelmente repetido em outras estatais e ministérios.
Só não se interessa por saber quem são os donos desse voraz apetite em cima do dinheiro público a camada da população que vive no automático, não tem capacidade de discernir, de entender e vive aprisionada à dependência das esmolas oficiais travestidas de bolsas auxílio.
Disso tudo vai emergir, não se iludam os sabidos doutores em opinião da população mais carente, que habitam o Planalto e o ABC uma maturidade de participação, de motivação, de legítima defesa dos cofres públicos, que a médio e longo prazos reverterão à expectativa e ação da imensa massa pensante (pelo menos 51 milhões de brasileiros) capazes de entender o que se passa e como se passa.
Por anos tentei motivar, e consegui em muitos casos, meus alunos, amigos, circunstantes, a se interessar pela política. A maior parte das respostas era na base do “Deus me livre”. Para não ser cansativo.
Nesta quadra da vida nacional, onde as veias abertas do sangramento dos cofres estatais jorram mais que petróleo, a motivação está crescente e o assunto política, mesmo que ainda provoque indignação, estarrecimento, para usar palavra da dona Dilma, o grau de interesse em entender, criticar e querer de algum modo, participar, já é outro.
É a dor do parto incomodando, desviando, distorcendo. Mas o amadurecimento segue incapaz de ser controlado pelos que perderam de vez o tino do bom senso, da razoabilidade, e fizeram e fazem da atividade política, da arte de governar um povo todo, um balcão de negócios, onde poucos privilegiados se beneficiam, em detrimento de toda uma nação.
O Brasil que vai emergir desse lamaçal da cor do petróleo, com certeza histórica, será mais participativo. mais exigente, e todo o barulho que agora se faz deverá ao menos inibir as ratazanas que atacam sem pudor algum o Tesouro Nacional.
Pode ser o consolo, a limonada feita do limão amargo que estamos todos chupando.
 



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