Opinião

Os mistérios e o ministério de Dilma


A renovação será elevada: dos 39 titulares atuais , menos de um terço permanecerá e nem todos nos postos atuais


  Por José Márcio Mendonça 30 de Outubro de 2014 às 00:00

  | Jornalista e analista político


Correm soltas as bolsas de apostas, de plantações de nome e de candidaturas a um lugar no futuro ministério do governo Dilma II. Tudo sob o silêncio da presidente. Sobre a nova equipe sabe-se muito pouca coisa. A primeira é que a renovação será elevada: dos 39 titulares atuais , menos de um terço permanecerá e nem todos nos postos atuais. Se não renovar no estilo, pelo menos se dará uma cara nova, uma remodelada.

A segunda coisa a considerar é quanto à qualidade da equipe. A presidente percebeu que seu atual selecionado não tem expressão e é considerado muito fraco pelo público externo e até por aliados partidários. Não ajuda e não inspira muita confiança. A culpa talvez seja da própria presidente, que prefere trabalhar com pessoas que ela possa submeter e que não a contestem muito. Mas como um dos requisitos que Dilma busca para o segundo mandato é recobrar a credibilidade do governo, a ideia é escalar ministros com mais expressão política e alguns empresários e cidadãos da sociedade civil com peso específico.

Nada de gente sem significação. Ao que se diz , ela aceitará as indicações partidárias, mas quer nomes significativos, nada de figuras como Carlos Lupi, do PDT, por exemplo, que não acrescentou nada ao Ministério do Trabalho – muito pelo contrário. Ou de Edison Lobão, senador pelo PMDB – diga-se do grupo de Sarney, porém visto como um político regional, e que apenas fazia figuração no ministério. As questões do setor eram decididas com o secretário executivo e com outros técnicos.

Aliás, esta era uma queixa recorrente de ministros em Brasília: Dilma despachava mais com alguns secretários do que com o titular – no citado ministério de Minas e Energia, no Trabalho, na Previdência Social e tantos outros. Até no ministério da Fazenda ocorria esta ultrapassagem: o ex-secretário executivo Nelson Barbosa era constantemente chamado ao Palácio do Planalto, o que acabou gerando alguns ruídos com Guido Mantega e a saída de Barbosa do governo.

O secretário do Tesouro, Arno Agustín, de longa convivência com Dilma, desde os tempos do Rio Grande do Sul, também comparecia constantemente à casa oficial de trabalho da presidente.

Para que esse propósito de dar mais brilho à equipe ministerial se concretize, porém, é preciso que duas pré-condições se concretizem. A primeira é que a própria Dilma se disponha a ser mais aberta, a delegar mais.

No meio político ela provavelmente não terá problemas em escalar gente com mais visibilidade. Contudo, fora dali, no mundo empresarial e acadêmico e na dita sociedade civil em geral, pouca gente de peso se disporá a ir para Brasília se não tiver alguma autonomia e a segurança de que não será "vigiado" ou receberá algumas das famosas broncas da presidente.

O segundo requisito é o acerto com os partidos políticos. Para garantir a reeleição e o tempo extraordinário que teve no horário eleitoral obrigatório no rádio e na televisão, a presidente assumiu compromissos com os partidos, que agora se julgam credores e não parecem dispostos a fazer suas escolhas ao gosto da presidente.

Nesta primeira gestão, muitos ministros foram escolhidos por Dilma e depois sugeridos aos partidos. Eles funcionaram como uma espécie de barriga de aluguel. Pelos recados que andam mandando, parece que desta vez não será assim. E o primeiro a se insurgir é o PMDB, que além de querer mais espaço, pretende ser dono dele de fato, não apenas nominalmente.

Todos se julgam credores da reeleição de Dilma, principalmente depois do sufoco que ela passou inicialmente com Marina Silva e posteriormente com Aécio Neves.

Nesta linha, por sinal, inclua-se o próprio partido da presidente e o ex-presidente Lula, dois capítulos à parte.

O PT já percebeu que no xadrez da redistribuição de cargos, com mais partidos aliados e reivindicando mais, poderá sobrar para ele ceder. A não ser que Dilma, o que é improvável, acrescente mais alguma pastas às 39 hoje existentes. E há o acerto com Lula especificamente – que se atribui, juntamente com os petistas de sua ala, a ação mais efetiva para derrubar Marina no primeiro turno e Aécio no segundo.

Como "retribuição", o ex-presidente espera ter uma influência mais direta no governo do que teve no primeiro mandato de Dilma, quando indicou inicialmente vários ministros, mas não apitou muito e só foi fortemente demandado pela presidente nos momentos de confusão política. Lula quer influir principalmente na economia, pois sabe que se as coisas não andarem bem, adeus para ele e o PT em Brasília em 2018.

Dilma, no entanto, parece disposta a resistir a tanta pressão. Desde segunda-feira, circulam notinhas dizendo que a presidente e seu entorno de mais confiança não consideram que devem aos parceiros, Lula incluso, a reeleição. O mérito maior seria todo dela própria.

Além disso, a presidente está fechando o chamado "núcleo duro" com pessoas de sua inteira confiança com o qual pretende governar sem ligações com as cúpulas partidárias. É o caso do quarteto Aloizio Mercadante, Jaques Wagner, Miguel Rosseto e Giles Azevedo. Petistas todos, é um fato, contudo nenhum da ala majoritária do partido.

As dores de cabeça políticas da presidente ainda vão longe. Como conciliar o desejo de dar uma cara menos fisiológica e mais brilhante ao seu ministério com o apetite e caciquismo partidários?